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Full text of "O segredo revelado, ou, Manifestação do systema dos pedreiros livres, e illuminados, e sua influencia na fatal revolução franceza"

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/^ Q' FLORESÇ A 

ZDf T. \^ 




LIVRARIA ACADÉMICA 



J. GUEDES DA SILVA 

8, R. Mártires d» Liberdade, 12 
PORTO — TELEFONE, 25988 



K5 /1 ^113 




Presented to the 

LIBRARYíí/í/ie 

UNIVERSITY OF TORONTO 

by 

Professor 

Ralph G. Stanton 



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in 2010 with funding from 

University of Otta\Á/a 



littp://www.archive.org/details/osegredoreveladoOObarr 



o SEGREDO REVELADO 



o u 



Mamfestâção do Systema dos Pedreiros 

Livres, e IlJuminados, e sua influen- 
cia ni fatal Revolução Franceza, 

OBRA EXtRAHIDA 

Das memoriai para a Historia do Jacobi- 
nismo do Abbade Barruel , e publicada 
em Pormguez para confusão dos ím- 
pios , e cautela dos verdadeiros ami- 
gos da Religião, c da Pátria. 

POR 

IOSE2 AGOSTINHO DE MACEDO, 

PKESBYTERO SECULAR. 







LISBOA, 

Na Impressão Regia, 

A N N o 1809, 



r-r-z 



o AígH S' 



RESPEITÁVEIS COVCIDADaOS 
PORTUGUhZEá . 



W Om O rriûîor acaîsmcnîd ouî^ 
consagrar ao vosso patriotismo es» 
ia producçâo lit ter ária de hum en-- 
genho atilado , e ifidagador , antiga 
da SHã pátria. Digva he sem dú^ 
vida da vqss.i af teu cão , e acolhi^ 
mento pela sua importância , qti^ 
kc tanto mais inextimavcl , qnan* 
ta mais v&s prévins contra &s íni^ 
mipos da Pátria, 

Tira das- trevas d luz do dia 
a nefanda cmjuracão dos Jac^bi-^ 
vus. Exbièe os documentos origU 
n/ies y que thes foraa apprehendiàcs^ 
nos seus archivas , revela os seus 
mysíerios , pûSeuiea os seus s^te^ 
A 2 



maSf os seus authorss , e os sens 
Totos, E das confissões , e dépôt- 
mentos destes mesmos conjurados , 
e dos seus próprios escriptos (que o 
Author lêo 5 € verificou ) abastece- 
mos de provas individu ae s , e irrc^ 
fragaveis , que o fim desta execran- 
da Seita y fi age/lo da Humanidade , 
era , e he anniquilar toda , e qual* 
quer Religião , {principahtente o 
Cl?ristianis7Jío) derrubar os Tbro- 
vos , e acabar as Sociedades civts. 
Estes são os votos formats dos mo* 
tores invisíveis das calamidades 
geraes da Europa, 
'■■':. £ quaes sco os vossos , Conci' 



dadaos Psrtugue^es : Oppór d tm- 
-piedade o zelo da -vossa Religião* 
A' Rebelião , e Anarchia o amor , 
respeito , obediência , e fidelidade a 
hum poder legitimo , como deveres 
Of mais indispensáveis dos Vassal- 
los para com os Soberanos ; e a obseT" 
V anciã das Leis , paz , amizade , 
e boa harmo<íia entre vós como o 
único manancial da ordem , e jj- 
gurança do Estado, 

E não os cumpris vos inviola* 
*vehnente , quando vosprestaes a sa* 
crificios voluntários das vossas ri* 
quezas , da vossa fortuna > de to* 
dos os vossos interesses partícula* 



res ^ e até das vossas proprias t/- 

das ? Sinl : vos ttndcs mostrado d 
Europa toda , ao mundo inteiro que , 
jf estes malvados tem derrubado 
tantos Altares , quebrado , ou divi- 
dido em pedaços tantos S ceptros , 
acabado tanta^^ Constituições , sub- 
jugado tantas Nações , apunhala- 
do ^ envenenado^ e humilhado tan- 
tos Votent ados debaixo do jugo de 
huma escravidão chamada paz , ou 
de huma escravidão Mnd-ji mais in- 
.fanie chamada aUiança , vós com 
o maior denodo àesagrgravastes o 
vosso Dtos ^ € restaurastes as vos- 
sas Leis , e o vosso Sceptrot De* 



balde intentarão entrelaçar-VQf nn 
seus insidiosos laços , uqs soisPor^ 
tuguezes , e isto sobeja. 

A' vista pois de tão alentados^ 
e heróicos esforços fie ao bem paten^ 
tes os uossos sentimentos a respei-^ 
to desta Seita execranda y e nem 
eu posso duvidar da vossa protec^ 
cão. Infelizmente tendes experimen^ 
tado os efeitos ruinosos das suas 
conspirações ^ nao era justo que ig- 
norasseis os seus planos, Pertendeis 
affastalos dos vossos limites , re- 
leva hum conhecimento individual 
da gravidade dos seus attentados^ 
Estes são os motivos da minha oh- 



sadia , e eis-aqui apadrinhada a 
7ninha oferta, Dignai-vos por tan- 
to acolhela debaixo dos vossos aus- 
-pictos 5 e ficão satisfeitos os meus 
desejos. 

O Ceo eternize a prosperidade 
do -nosso Paiz , e defenda a nossa 
causa 5 baldando os terríveis pro- 
jectos dos Sofistas da Impiedade , 
e da RebelUão, 



Reverente vos saúda 
Leal Cidadão. 



ÍNDICE DAS MATÉRIAS. 



PRIMEIRA PARTE. 

Conspiração dos Sofïsîas da Impie^ 
ílade co72tra o Christianismo. 

SEGUNDA PARTE. 

Conspiração dos Sofisías da Rebel- 
Hão contra os Reis, 

TERCEIRA PARTE. 

Continuação dos Svfistas da ReheU 
Hão. Das diversas espaces de Pe* 
dreiros-Lrvres , segredos , e ma* 
china coes das suas primeiras 
Lojas. 

QUARTA PARTE. 

Conspiração dos Sofistas dn Impie- 
dade , e da Anarchia. ^tUa dos 
lUuminadosn 



QUINTA PARTE. 

Hisfoj^ia dos Illuminadús , primei* 
ra 5 segunda , e terceira épocha. 

SEXTA , E ULTIMA PARTE. 

Quarta épocha. Chegada dos lllumi' 
nados d França \ os Jacobinos 
formados pela associa cão dos 
Conjurados contra o Altar , con- 
tra o Throno , e contra a Sacie- 
dade. Resolução t rance za. 



Fim do índice. 



PREFACIO. 



Hamarei Jacobino, no decurso 
desta Obra , a iodo o homem ini- 
ciado nessa igualdade , e liberdades 
desorganizsdoras , que produzirão to- 
das as maldades , e todos os desas- 
tres da Revolução Franceza. 

Peío esruJo da historia secreta 
destes: homens , dos seus Chefes , dos 
seus profundos adeptos , se deixa 
ver, que a sua Seita he menos odio- 
sa pelas maldades que jácommettco, 
do que temível pela immen^idade , 
e universalidade das que ainda hoje 
med'ta. A Europa toda estremeceo 
com a serre da França , e desgra- 
çadamente já sabe a que a espera , 
se prevalecer o Jacobinismo. Portan- 
to exporei 20 dia as três conspira- 
ções 5 as três Seitas , de quç os Ja- 
cobinos não são mais do que hum 
funesto resultado, arrancando-as das 
trevas profundas ; em qu€ elle» as tem 



tido sepultadas. Para manifesrar es- 

tas Seitas , e estas Conspirações se- 
guirei absolutamente a mesma oTdem , 
que ellas seguirão na sua formação. 
I. Conspiração dos Sofistas da 
Impiedade conrra o Deos do Cbris- 
tianlsmo , contra toda a Rehg:ão 
Ckristã sem excepção , sem distiiic- 
ção da Protestante, ou da Carhoh- 
ca, da Anglicana, ou da Prcsbyte- 
riana , contra todos os Alc?res de 
Genebra , de Londres , de Amster- 
dam , assim como contra todos os 
de Paris, ou de Roma, 

II. Conspiração dos Sofistas da 
Impiedade , e da RebclUao contra 
todos os Reis. 

III. Conspiração dos Sohsras cia 
Impiedade , e da Anarchia contra 
toda a Religião . e contra todo o 
Governo , s.m exxepçáo amda mes- 
mo das Rerublicas , e contra toda 
a Sociedade civil , e toda , e qual- 
quer propriedade. 

A primeira destas Conspirações 
foi a aos homens chamados Filoso- 
fos A segunda a des Filósofos rcu- 



nidos ás primeiras Lojas dos Pedreí- 
ros-Livres. A terceira a dos Filóso- 
fos , e dos primeiros Pedreiros-Li- 
vres reundos aos Illuminados. Da 
así^ociaçáo dos Filósofos , dos pri- 
meiros Pedreiros-Livres , e Illumina- 
dos se formarão os Jacobinos. 

Pela dcmor.:rração de como esta 
associação das rres Seiras , com o 
nome de Jacobinos, continua, pro- 
paga , e perpetua as tre> Conspira- 
ções , mostraremos aos nossos Leito- 
res, c ao mundo todo, que o úni- 
co fim , a que nos propomos com a 
publxaçáo desa C3bra , he bradar 
aos Povos: Se o Jacobinismo trium- 
fa , acabou-se a vossa Religião , a$ 
Yossas Leis, as vo?sas Propriedades, 
todo o Governo , toda a Sociedade. 
As vossas riquezas , os vossos cam- 
pos , as vo?^sas cpsas , as mesmas 
vossas choupanas , os mesmos vossos 
alhos , tudo cessa de ser vosso. Pen- 
fa?Tes que a revolução dos Jacobinos 
terminaria na França , e a revolução 
iresmo na França não foi mais do 
que líum primeiro ensaio dos Jaco- 



binos ; e ©s votos , os juramentos , 
as Conspirações do Jacobinismo es-: 
tendcm-se pela Inglaterra , Allema- 
nha , Itália, Hespanha, e (oh má- 
goa ! ) pelo nosso território ; em liu- 
ma palavra por todas as Nações , 
bem como pela França, 

Sei que sáo nece:sarias provas, 
quando se denuncia í^o? Povos ma- 
chinaçoes deíta natureza , e desta 
importância ; porém são tantas , e 
tâo relevantes , que sobejará dizer , o 
seu Compilador (de que nós tis trans- 
crevemos) engrossou quatro voumes 
cm oitavo, e recolheo-as dos Archi- 
ves dos Conjurados , e dos monu- 
mentos 03 m:íis authenticcs. 

Pelo que , por não oíFender a 
economia do tempo . e do cabedal , 
faliaremos com brevidade ( mas sem 
faltar á clareza ) do objecto , dog 
meies , dc3 prcgressos , des Ade- 
ptos , e associação das Seitas conju- 
radas , o que facilmente secon?eguit 
rá , repartindo este mesmo resuma 
cm pequenos folhetos mensaes , e 
de hum preço muito coicpiodo. Co» 



meça por aquella Seita de homens ; 
que se arrogarão o nome de Filóso- 
fos , a que eu chama;-ei com mui* 
to mais justiça ==i Sofistas da Im-^ 
piedade. 



( î ) 

ATALAIA 

CONTRA OS JACOBINOS, 



o u 



Revelação das Conspirações secretas, que 
esia malvada Seica tem machinado 
contra os Reis , contra a Reli- 
gião 5 e contra a Sociedade. 



PRIMEIRA PARTE. 

Conspiração contra o Chris - 
tianismo, 

%J Uasi nomeio do Século XVIIL 
apparecérão rrcs homens todos 
tres^ inimigos inplacaveis do Chris- Primeíroá 
tianismo; Voltaire, D'AIembert , eAuthores 
Frederico II. Rei da Prússia. Vol- ^a Çonspí- 
taire abominava a Religião, porque '^^^°. l^' 
fivalisava o sea Author, c todos a, ^''^ ^^^^^*' 
B 



(O 

quelles , que ella tem glorificado> 
d^Aleniùert , porque tendo hum co- 
ração por natureza frio , nada po- 
dia amar; Frederico, porque nunca 
a conhecera senão pelos seus inimi- 
gos. 

. Al^m desres três homens temos 
Diderot, que detestava a Religião, 
porque era iouco de natureza , por- 
que enihusiasmado pelo caos das suas 
idéas amava antes edifícar-se de cla- 
meras 5 e forjar mysterios a seu sa- 
bor , do que sujeitar a sua fé ao 
Deos do Evangelho. 

Grande número de adeptos fo- 
rão a; ;asrados para esta Conspiração j 
porém a maior parte , ou entrarão 
como admiradores estúpidos , ou co- 
mo agentes secundários. Voltaire foi 
o Chefe ; d'Alembert o Agente mais 
astucioso ; Frederico o Protector , e 
quasi sempre o Conselheiro ; Diderot 
o menino perdido. 
Toltaire. ^ primeiro , Francisco Aronet 
de Voltaire , nasceo em Paris aos 
20 de Janeiro de 1694. Nenhum ho* 



(3) 

mem foi dotado de tantos talentos 3 
mas nenhum annunciou tão depressa 
o deplorável uso , que dclles faria 
para o tururo. Ainda era simples es- 
tudante , e já tinha merecido que o 
Jesuíta Jav , seu Professor, lhe dis- 
sesse : infeliz , tu serás o Porta- 
Estandarte da Impiedade, Dentra 
de pouco tempo os seus escripios 
íiccnciojsos annunciarao as sup.s dis- 
posições , para se verificar a profe- 
cia. Estreitado a procurar hum asy- 
io fora da sua pátria refiígiou-se enl 
Inglaterra : alli achou homeas , que 
se diziao , como clíe , Filósofos , 
porque também abundavão de igual 
impiedade , encorporoii-se com el- 
les , CO seu ódio contra Jesu Chris- 
to se fortificou de todos os seus so-« 
fismas. Se damos credito a Condor- 
cet , desde então fez juramento de 
lançar por terra a Religião , e sus» 
tenrou a palavra z=^ desde então esta-» 
ua enfastiado de ouvir repetir , qu^ 
doze homens sobejarão para fundar 
* Christianisnío , e desejava provar* 
B % 



(4) 

lhes que basta hum só para a ãeS' 
truir, z: Tão seguro estava de con- 
seguir o efFeiío deste seu execrando 
desejo, que voltando para Paris, e 
dizendo-lhe certo dia M. Hérault , 
Intendente da Policia r= debalde es- 
creveis porque nunca destruireis a 
Religião Christaa rz não hesitou 
de lhe responder :=: ib'îo he o que 
nós havemos de ver. n: 

Todavia este homem , tão resol- 
vido a acabar o Christianismo , não 
deixava de praticar acros de Chris- 
tão , todas as vezes que o seu inte- 
resse parecia requerelo. Por espaço 
de certo tempo íingio-se penitente, 
frequentou as Igrejas , assistio aos 
Sermões , e batia no peito com to- 
do o ar de compunção religiosa. Ti- 
nha neste tempo hum irmão muito 
rico , mas zeloso Jansenista , e que 
dizia em alta voz que não queria 
deixar os fcus bens a hum ímpio. 
Este irmão estava enfermo , e com 
poucas esperanças de vida. Julgava 
que Voltaire estava convertido , e o 
tez seu herdeiro : Voltaire arrecadou 



(?) 

a herança , e logo appareceo ímpio 
como antes. Nos mesirros dias da 
sua impiedade, e da sua conspiração 
mais aberta contra Jesu Christo , pa- 
ra illudir algumas -almas simplices , 
e divertindo-se em ser hum sacrílego 
atroz , vinha nos dias prescriptos 
appresenrar-se á Sagrada Aleza da 
Communháo , e depois não se en- 
vergonhava de escrever aos seus con- 
fidentes : ~ Tenho 67 annos^ vou á 
Missa, édifie*^ o meu. povo , fundo 
huma Igreja , commungo .... ora 
pois , pedantes , que tendes que me 
dizer? Chamai-me hypocrita quanto 
quizerdes , eu hei de comimungar pe- 
la Paschoa (Carta de Î4 de Ja- 
neiro de 17ÓI.) :=: Eis-aqui o que 
Voltaire escrevia aos seus confiàen* 
tes ; e quando estes mesmos Ímpios 
lhes lançai: ao em rosto este s a criiez 
gio , rcsponáia-lhes : — O que eufz 
€Ste anno , jd o tenho feito muitas 
vezes , e se Deos quizer , hei de 
continuar a fazelo. zn Deste modo 
se achaváo reunidos em Voltaire duas 



(6) 

grandes qualidades de luim conju- 
rado anti-religicso , o mais inpîacar 
veL odio a Jesu Christo , e a mais 
laxa hypocrisia. 
B'Alem- D'Alembert, o segundo dos con- 
^P^^' jurados antichristãos , nasceo de hum 
incesto. Não se sabe com certeza 
quem fòra seu pai , mas sabe-se que 
sua mãi fera a Dama de Tencin , 
religiosa apostara. Na noite do seu 
naci mento foi exposto no Jim.iar da^ 

forta de huma peq.^^na Igreja de 
arís 5 c]i:mida =:; S.João o Redon- 
íio =: donde se derivou o nome, 
porque foi conhecido em roda a sua 
mocidade, Educado peíos cisvéios , 
c caridade da Igreja , mordeo os pei- 
tos de sua ama, logo que a pôde co- 
nhecer. Grangeou grande reputação 
na Geometria ; porém cm tudo o 
niais os seus talentos cri^o inferiores 
aos médiocres. Teve a infelicidade 
de conhecer Voltaire ; não o igua- 
lou , nem foi seu emulo senão no 
odio contra o Christianismo ; não 
teve , nem o seu genip , nem a sua 



(7) 

animosida^^e , porém foi mais açtiT 
cioso. Voltaire pode considerar-sc 
de algum modo como o Agame- 
innon dosîmp:os, e D'Alembert co- 
roo o seu Ulysses. Se a comparação 
he multo nobre, podemos ccmentar- 
nos com a da raposa. 

Atrevido , fogoso, colérico, im- 
petuoso , Voltaire >» cjuereria morrer 
sobre hum mourão de hypocrita» 
imraoíados a seus pés íj esrcá são os 
seus próprios termos. D'Al^niberc 
condescendente , sagas , dissimulado , 
temia ser vencido ; fugia , ou se es- 
condia , ainda mesmo ferindo , e me- 
ramente sérvio o seu partido com as 
suas intrigas , e perfídias. Nem el- 
le , nem Diderot tinhao ainda aquel- 
la repuíação , que deverão mais á 
sua impiedad: , do que aoç seus ta- 
lentos. Os Cafés público serão eu- 
rão o theatro da sua impiedade. Al- 
li sagasmente introduzião a conver- 
sação sobre alguma matéria de Re- 
liràão. Diderot attacava ; D'Alambert 
fingia defender i a cbjecção era for- 



(8) 

te , e a resposta de huma fraqueza 
extrema. Os ociûços rnisturavão-se 
na disputa. Diderot instando com os 
seus argumentos tomava hum tom 
de segurança , que Lhe dava todo o 
ar da vicroria , e D'Alembert aca- 
bava com huma confissão humilde , 
de que a sua thcologia nao lhe mi- 
nistrava huma resposta convincente, 
•e sahia como envergonhado de ficar 
vencido. Ira mediata mente se torna- 
váo a unir os dois campeões ; ião 
a outro Café, repre^cntavao a mes- 
ma scena , e fazião novos enganos. 
Finalmente soube a Policia deste 
manejo , c deo providencias para o 
atalhar ; porém foi tarde , porque 
em demasia se tinha repetido , e a 
mocidade Parisiense já tinha recebido 
funestas lições. 
Frederico O tefceiro destes corijurados era 
^^' aquelle Frederico II. , a que os So- 

fistas chaaiárlío por aiízum tempo o 
Salomão do Norte , e que o pode- 
ria ser , se menos se deixasse c^, gar 
poraquelles, que lho chamarão. Pa- 



(9) 

rece que neste Principe se encerra- 
vao dois homens. Hum era o P.ei 
da Prússia , o heroe , que , depois 
de ter maravilhado a Europa pelas 
suas victorias , se occupava nâ feli- 
cidade dos seus povos , e em fazer 
esquecer pela sabedoria do seu go- 
verno , triunfos talvez mais estron- 
dosos do que justo?. O outro era a 
personagem a menos conveniente á 
dignidade de hum Monarcha. Era o 
filosofo , e alliado dos Sonstas . o es- 
criptor ímp;o, o incrédulo conjura- 
do , Frederico , que nascendo com 
o espirito dos Celsos , e dos Pórfi- 
ros precisava de achar na sua Corte 
Tí^rtulianos , ou Justinos capazes de 
defender a Religião , e todavia só 
nella acareou pretendidos espíritos 
fortes, que a cah.mniárão. Arruinada 
pelo seu Cor:mercio , pouco comen- 
te de ser hum dos Césares, pareceo 
algumas vezes preferir a sua gloria 
á dos Sofistas i contrahio todo o seu 
orgulho , as suas extravagâncias , e 
iàié a sua mesma pedanteria com to- 



(IO) 

da a instabilidade, e contradicçoes ^ 
que lhes erao proprias. Na sua pre- 
venção contra a Religião Christãa es- 
crevia a Voltaire , que , se ella fos- 
se sempre protegida ni França , a 
ferrugem da superstição acabaria de 
destruir hum povo aliás amável , e 
nascido parji a sociedade. 

Seria mais justo , se dissesse , 
que este povo , aliás amável , no 
momento em que perdesse esta Re- 
ligião , amedrontaria o Universo com 
os seus crimes. Demais , este Rei íi* 
losofo teve também seus caprichos, 
e os mesmos Soíistas o resentír^o 
mais de huma vez. Voltaire ainda 
não contava muitos annos na sua 
Cone, e já sen:ia que ávida decor- 
tesão tem também seus dissaboie's »> 
espreme-se a laraiv; " dissera Fre- 
derico falando do Poeca « e lança- 
se fora a casca. 5? Estas palavra^ fe- 
rirão profundamente Voltaire , a quem 
o filosofo Lametrie tivera o cuidado 
de as repetir ; o que então foi mo- 
tivo de escrever a Madama Denis r^ 



( II ) 

cuido só em desertar honestamente 
.... julgo que a laranja está espre- 
mida , he necessário pensar em sal- 
var a casca. Eu vou fazer hum Dic- 
cionario para o uso dos Reis = Alcu 
charo amigo zz quer dizer :=:: vos me 
50Í? mais que indiíFerente, ~ Pelas 
palavras =: eu vos farei feliz zz de- 
vei: entender =: eu vos sofFrerei, em 
quanto necessitar de vós z^ ceai co- 
migo esta noite =:: significa =í eu 
zombarei de vós esta noite =: seria- 
mente , isto aperra o coração ... di- 
zer a hum homem as expressões mais 
ternas, e escrever contra elle as miíis 
gros: eiras ! Que de contrastes ! E es- 
te he o homem que eu julguei filo- 
sofo 1 E chamei-lhe eu o Salomão 
-ido Norte ! Lembrai-vos desta bella 
carra ? Vós sois filosofa , dizia elle , 
cu o sou também ; pois dai-me cre- 
dito 5 senhora , nem hum nem outro 
o he (carta de i8 de Dezembro de 
1752.) - 

Voltaire , que nunca dissera coi- 
sa cora mais verdade , deixou a Cor- 



( 12 ) 

te de Berlin pouco tempo depois 
desta carta. O Salomão do Norte 
mandou buscalo ao Caminho, porém 
debalde, porque o Poeta já tocava 
Francfort , aonde recebeo huma af- 
fronta , que o tornou a fabula , e o 
cscarneo da Europ:-. Todavia €5quc- 
ceo-sc deste ultraje , ou fíngio que 
se- esquecia. E até o discipuio , e o 
mestre não tardarão em renovar as 
suas conjurações. Como não se tor- 
narão a ver , ao menos escreviao-se 
amiúdo , e a sua correspondência at- 
testa toda a actividade, com que se 
empenhavão hum e outro na ruina 
dos Altares. 
Diderot. Diderot , de que já fa'îei , vem 

unir-se de seu moin próprio ao lado 
destes três conjurados. Huma cabeça 
cm fálica , hum enthusia^mo , huma 
desordem nas «uas idéas , igual á do 
chaos 5 a sua lingua , c a sua penna 
seguindo todos os movimentos re- 
pentinos , e todos as agitações vio- 
lentas do seu cérebro , o mostrarão 
bem depressa a D'xijcm.bert , como 



(13) • 

O homem , de que elle precisava, 
ou para que fosse o seu agente , ou 
para lhe deixar dizer tudo o que el- 
le mesmo D'Alembert se não attre- 
v^ria a preferir. Diderot não baldou 
as suas esperanças. Nunca hom,em al- 
gum p:-onuncicu mais affirmativa- 
menre do que este Soíista , sim, e 
não , pro , e contra na mesma ques- 
tão. Rcputava-se o sábio da nature- 
za , e nunca julgou pronunciar os 
seus oráculos com mais firmeza , do 
que quando decidia em tom de filo- 
sofo :=! que entre o hom.em , e o seu 
cão não havia mais diferença do que 
no iiabiro, (Vida de Séneca.) =;' 

Taes são os homens , que se 
propozerão a derrubar o Christianis- 
mo. Além de todo o seu ódio con- 
tra Jesu Christo havia mais de com- 
mum entre elles esta singularidade , 
que seria impossível notalos cons- 
tantes 5 e firmes em hum só daquel* 
les dogmas , que elles onpunhao 20s 
do Evangelho. Ora deistas , ora 
atheos _. ora materialistas , ou scepti- 



( ï4) 

eos , sempre forão de acordo paráf 
destruir o edifício da Religião , e 
nunca convierão no que a deveria 
substituir. 

Voltaire tinha vivido muitos an- 
nos só , ou quasi só , embreagado 
da sua raiva contra JesuChri:;to, até 
ào tempo , em que foi cortesão de 
Frederico \ ra.is já desde esse tempo , 
isto he 5 em 1750 , tinha alliciado 
muitos sectários pelos seus sarcasmos , 
e sofismas. Quando partio para Ber- 
lin 5 já deixava em França grandissimo 
número , e os principaes erão os 
dois Sofístas , D'Alembert , e Di- 
derot , que igualando-o na impieda- 
de davão então principio a sua so- 
ciedade. 

Em quanto esta esteve entregue 
aos seus talentos foi muito fraca , 
porque lhes faltava este homem , que 
só elle valia hum exercito de ímpios. 
Porém depois que Voltaire voltou 
da Prússia , aonde estivera poucos 
annos , e assentou a sua morada em 
Fernei, nesta épocha se formou Com 



( lO 

mais espmaiidade a sua Conspiração 
anti-christã , e se estreitou , e fez 
mais seguida a sua Correspondencia.- 
E eis-aquitambeai o tempo, em que 
foi mais facil observar aquelle con- 
certo 5 e rodas aquellas inrelligencias 
«ecreras, que caractcrizao huma ver- 
dadeira Conspiração anti-cliristã , is- 
to he, aquelle voro de destruir to- 
dos os Altares do Christianismo, c 
esra combinação de meios, que elles 
medirão entre si para consummar o 
voto da sua impiedade. 

Aqui não se encontra huma só 
daquellas assersões vagas, que pro- 
duz a imaginação , mas que o exa- 
me logo destroe. Nada digo , que cu 
não tenha sabida , ou dos próprio^ 
arcíiivos dos conjurados, donde de- 
duzo todas as minhas provas , ou da 
sua Correspondeiicia , ao principio es- 
condida , mas depois imp-essa com 
pompa , aonde acho não só os dif- 
férentes papeis , que elles representa* 
rão , mas também todos os grandes 
cueios ^ de que elles se servirão. Pot 



( i6) 

volumosa que seja esta GoIIeçao , por 
mais arre, de que se tenhao valido^ 
para Ihe supprimir huma parte, to-^ 
davia hc pública , e pelo seu exame 
he fácil de poder colher os filhos do 
trama , que eu annuncío. Convido com 
affoiteza a todo o Leitor, para verifi- 
car os textos, que cito, as concilia- 
ções , que deíles faço ; c procedo á 
demonstração , que elles me bastecem.- 
Todos os conjurados tem de or-* 
dinario sua linguagem secreta , todos 
tem hurna sanha , huma espécie de 
fórmula inintelligivei ao vulgar , mas 
cuja explicação secreta discortina , e 
recorda immediatamente aos adeptos 
.o grande objecto da sua Conspira- 
ção. A fórmula 5 escolhida por Vol» 
taire para exprimir a sua conjuração , 
foi dictada pelo espirito infernal do 
ódio , da raiva , e do frenesi. Con- 
sistia nestas duas palavras :=: écrasez 
1' infame =3 que quer dizer =: es- 
magai o infame =: e estas palavras 
na sua bocca , de D'Alembert , Fre- 
derico , e de todos os adeptos signi» 



( 17) 

ficarão constantemente ru esmagai a 
Jesu Christo , a Religião de Jesu 
Christó :=: e toda a Reiigiao que 
adora Jesu Christo. =: As provas 
deste facio se.encontrao em cada pa- 
gina da correspondência de Voltaire, 
Qoacs são com éíFeito os que elle 
chama cm seu soccorro para =í es- 
magar :=í ere pretendido r: infa- 
me ? =:: Os Diderot , os d'AIem- 
bcrt , os Damilaville , os Condorcet , 
os Helverius , e todos aqueIJes que 
inais se distins^uíráo no rancor con- 
tra o Chrisrianismo. 

E coiitra quem os convida elle 
para se reunirem ? Contra os autho- 
res , ou Catholicos , ou Protestantes ^ 
que se fizerão célebres pelos seus es- 
criptos a favor do Christianismo. 
Qual pode ser a sua intenção quan- 
do para animarmos sei-s z:=> Cavallei- 
ros 1=2 se náo envergonha de lhes es- 
crever z: vamos , bravo Diderot , 
intrépido d'Alembert ; uni-vos ao 
meu caro Damilaville ; correi sobre 
<tô fanáticos , e os velhacos. Lasti- 
C 



( i8) 

mai Braz , Pasclial , de.^prezai Haut- 
tcville , e Abadie , tûnto como se 
fossem as Santos Padreç. ( Cai^ta a 
Daniel^ anno de 176^,) Que obje- 
cto se Uv^ pode suppôr , quando, 
para designar o que era necessário 
iniciar na sua guerra contra o nifa- 
' me exalta incessantemente os Bolyn- 
brooks , os Spinosns , ou Juliano A- 
postata 5 quando para assignalar to- 
dos os seus successos nesta guerra se 
felicita de ver que cm Genebra só 
a escoria do povo crê no Consubs- 
tancial \ yy ou mesmo j> de que nao 
haja hum Christ no de Genebra era 
Berne 99 ou ainda mais de que ?3 
Genebra só em Sorhonna , e na Gran- 
de Camará tinha defensor da Reli- 
gião ^ {Carta a U Alembert de 8 
de Fevereiro de 1776 afassini) ou 
ainda mais , quando suppre a sua 
fórmula, ou sanha ordinária com a 
de Christ a moque >5 Christo ridícu- 
lo M e quando estende a impiedade 
até a lastimar-se , de que os Conju- 
rados não facão tanto concra Jesu 



C 19 ) 

Chris to quanto fizera o os Apóstolos 
por esrc Deos dos Christaos , e se 
enivergoním de chamar do::,e despre^ 
zheis aos doze Apóstolos {Carta 
ao mesmo de 2^ de Julho 1760) ? 
Sim: qual pôde ser finalmente o ob- 
jecto .de hum homem , que , para 
elogiar o seu Adepto conjurado , 
Damilaville, tem o descaramento de 
escrever , que este Ímpio tinha o 
enthusíãsmo de S, Paulo ^ porém 
fido a sua extravangancia , nem e 
seu embuste {Carta a D^Alambert 
de \i^ de Janeiro de 1769)? 

Quando pois se vê que Voltaire 
acaba quasi todas as suas cartas aos 
Sofistas com a fórmula atroz , que 
assigna três vezes a mesma carta 
com estas palavras écrase::» P infa- 
me yj esmagai o infame ?> écrasez 
V infame 55 esmagai o infame jj ecrã- 
cez l^ infame jj esmagai o infame jj 
{Carta a Daniel) he fora de todo 
o equivoco, e deve-se crer que nem 
exceptuava o Calvinista , o Angli- 
cano, ou o Lurherano. O Calvinis- 
C 1 



C 20 ) 

mo ria opinião de Voltaire nao era 
mais do que necedades de João Cal- 
"vino , e os seus discípulos tcío tolos 
como os Sorbonnicos* Até algumas 
vezes nada vê mats atrabiliário , 
nem mais feroz ^ do que os Hugue- 
fíotes, (Carta ao Marquez d^Ar^ 
gens deDiraci de Março ^<? 1763.) 
Porém applaudc-se de ver que a sua 
conspiração contra o infame cale 
mais rapidamente por Genebra , Lon- 
dres , e pelo Norte de Alkmanha , 
porque também ver crê alli mais 
Deistas , ou Atheos , e porque se 
funda no que Frederico lhe escrevia : 
que nos paizes protestantes se ca- 
quinha mais depressa neita guerra 
contra o christianismo. (Certa 143 ) 
Este Frederico não se equivoca- 
va no sentido da fórm.ula. Para o 
Sofista Coroado assim como para 
Voltaire , e D'Alembert v Cbristia* 
nismo y a Seita Christ ã a , a supers» 
tição Christicola y e o infame, que 
j€ deve esmagar tem sempre o mes- 
mo sentido. ( Vede a Carta do Rei 



(M ) 

iïa Prússia a Voltûire 145 ^ 145'; 
153 , amo de 1767 , &c, ) A esra 
sanhd 5 que designa fso constantemen- 
te o voro de esmagar todo o Chris- 
íianismo , sem distincçao , nem ex- 
cepção dos Caíhoiicos , ou dos Pro- 
testantes , unirão os Conjurados hu- 
ma maneira especial de se desenga- 
n.-írem huns aos outros , enao serem 
conhecidos do público. Na sua cor- 
Tcspondenvia , Frederico he chamado 
iiu Luc ^ D'Alamberc Protágoras ^ 
ou Bertrand ^ e Diderot Platão^ ou 
TonfJat, A palavra Cacouac he o 
nome geral dos Conjurados, Debaixo 
de tcdos os nomes possíveis ha hum 
segredo " impenetrável , que deve 
55 servir de véo á sua Conjuração. 5> 
Os mysterios de Mitra , escrevia-lhes 
o seu Chefe . de nenhum modo de- 
vem ser divulgados. He necessário 
que nelies Jiajáo cem mãos invisí- 
veis, que traspassem o monstro, (a 
Religião) eque cciia debaixo de mil 
golpes redobrados. Confundi o infa^ 
me j dizei aflrbita mente tudo o que 



(22 ) 

tendes no Coração ; feri ^ mas ef^ 
conàei a mão , porque deste modo 
não vos poderão convencer. O Nilo 
escondia a sua cabeça , e derramava 
suas aguas benéficas , fazei o mes- 
mo , e vos recomniendo o infame. 
{Carta a D'Alembcrt a Helveticus , 
ae Marquez do ViU:vieille , (ÍTc) 

Jamais pessoa alguma rcpetio tan- 
to amiúdo , e seguio íâo exactamen- 
te estes depravados conselhos como 
Voltaire. Todos os dias formava al- 
guma dissertação conrra a Religião, 
ou contra os Sacerdotes , porém ne- 
gava to-ia? estas producçoes ímpias 
com hum descaramento extremo , e 
que sem a menor dúvida tinhao sa- 
liido da sua penna. Qiiando as fa- 
'zia passar para os Irmãos defendia- 
]hes que nomeassem o seu Author, 
ainda mesmo que fosse para o lou- 
var , receando de ser traiúdo pelas 
suas Lojas. 

Em toda esta guerra contra Jesu 
Christo não convinda só acs Sofis» 
tas egconder a mão quando arreme- 



( --3 ) 

^avão todas as suas rcras , era rte» 
ce>sario sobretudo, acordo, união, 
consrnncia , e ardor no attaque ; e 
daqui vem estes avisos repelido? do 
seu Chefe : 5? meus filósofos impor- 
ia taria marchar táo cerrados como 
55 a Falange Macedónia >> Que o3 
filósofos fizessem huma confraria co- 
mo os Pedrciros-Livres, que se ajun- 
tassem y e mutuamente se soccorres- 
sem. Esta Academia v?.ierá mais do 
que as de Athenas , e tcdas as de 
Paris 5 m3? cada hum cuide só em 
5Í , e nao se esqueça dó primeiro dos 
dcreres , que he aniquilar o irfaine. 
{Carta a U /Herãbert de io d' Abril 
de 1761.) Ah! pobres Irmãos, os 
primeiros fiéis condu7Íãc-se melhor 
CO que nós ; Deos nos abençoará , 
se nos unirmos. 

Daqui nasce igunlmer-te esta at- 
t-enção em reanimar o seu zelo , e 
esx^S' exhorrações tão sollicitas 55 re- 
J5 ceio que não scjaes assas zelo<^o3 >» 
vós deixaes infructuosos o<; vossos 
talentos j vós vos con-entaes mera- 



(H) 

tnente com desprezar hum monstro , 
que releva aborrecer e destruir. A 
Meleagro perícnce iiiatar o javali j 
arremeçai a setta sem mostrar a mão. 
Senão tivermos por nós as pessoas 
de probidade , serem,os a execração 
do género humano ; tal he a nossa 
situação. He necessário pois acare a^ 
las , custe o que custar ; trabalhai 
na uinhã , e e ima gai o infame. 
{Carta a D'Alembert de 2S de Se^ 
temhro de 17633 e 13 de lever ei- 
ró de 1764.) 

De tudo o expendido se deixa 
ver , que esta guerra dos Sofístas con- 
tra o Altar tem todo o cunho de hu- 
ma verdadeira conspiração. O mes- 
mo Voltaire o não occuhava aos A- 
deptos , nem queria que o ignoras- 
sem 5 e por isso tinlia o cuidado de 
lhes dizer que na guerra , qíie em- 
frehendèrão , era necessário , que 
obrassem como Conjurados , e não 
como rrelosos. Fieis ás lições do seu 
Chefes estes Conjurados liverão to- 
do o resguardo de não encontrar 



(2?) 

îtnilto sedo , e com muita sffoitcza 
?.s verdades recebidas , e ao princi- 
pio só pedirão indulgcrxia para as 
producções , parecendo apenas rer 
intenção de fazer prevalecer os seus 
systemas. Para os insinuarem , que- 
rião somente por maneiras carinho- 
sas obrigar os iicmens aperdoarem»- 
se mutuamente os seus erros , e a 
scffrerem-se huns aos curros. Benefi- 
cência 5 justiça , humanidade , razão , 
tolerância , parecião ser n senha de 
reunião , e deo-se credito á sua pa- 
lavra. Não obstante, tudo annuncía 
úçsd2 aquelle tempo que , se elles- 
tivessem a forca na mao , as suas 
intenções se desatarião cm espólios, 
attentados 5 e mortandades revolucio- 
narias. Ápezar da sua profunda dis- 
simulação , apezar dos seus clamores 
pela toIcrcTncia , mais de huma vez 
lhes escapa q seg^edo de hum cdio 
atroz nos seus votos. Assim se de» 
duz , quando vemos, por exemplo, 
D'Alembert dfceJLi- a dístru:ç?.o ds 
hiiffia nação inteira por estar ligada 



( î6 ) 

à Reîli^iao desejaria ver , escreve el- 
le a Vokaire , aniquilados todos os 
Austríacos juntamente com a sus- 
fers tição , ([ue elles protegem, He 
verdade que Frederico se inostra al- 
gumas vezes inimigo de todo o es- 
polio 5 e de toda a violência , mas 
lambem outras vezes não concorre 
menos com os seus p ojectos para 
Intoleran. ^^spojar a Igreja , contessa que "a re- 
ciadosSo- volução anii-christáa , em que VoU 
físcas Con- taire trabalha com tanta assidulda- 
iurados. ^^^ ^ p^Q çe póde acabar senão por 
huma força maior , nao exita me- 
nos a Voltaire para trabalhar nesta 
revolução, nem c!Ie mesmo trabalha 
menos em aptessalia com as suas 
producçoes. 

Quanto ao filosofo de Fernei em 
poucí> reputava o escrever ao Rei 
da Prússia : » Oxalá Ganganelli ti- 
ra vesse alguma posscssfío boa na 
5> vossa vizinhí^nça , e que vós não 
?5 estivésseis tão longe do Loreto ; 
55 he excellente saber chasq*uear es- 
35 tes arlequins ^ fazedores de Bui- 



( 27 ) 

5» Ias ; gosîo de os meter a r'dicu- 
)♦ lo » porém antes gostaria de os 
despojar (S Je Juuho de ly/O. ) 
E accrescentava 55 Kerciiles hia corn- 
>3 bater os salteadores , e Belîero- 
?i fonte asChimcras; 5) r.ïio desgos^ 
tari a de ver que outros Hercules , 
e outros Bellerofontes resgatassem 
a terra das Chiyneras catboUcas {1^ 
de Março de IJSI- ) ^^ livesse 
ce/n 77iil komens hem sei que fa^ 
ria (16 de F ei: ère iro do anno de 
1761. ) 

Apezar de toda a benéfica , e 
meis^a tolerância de Voltaire, n^^o se 
embaraçava de'adianrar as suas eï- 
pres56es >5 quando veremos n(5s >3 
todos 05 Jcsuitss precipitados no 
fundo dos mares co:n hum J/inse- 
nista ao pescoço. {Carta a Cbalm- 
non.^ 

Qiiando os Sofi^ta? Conjurados 
exprimem votos desta espécie , ?o- 
mos tentados a sufpeirsr , que roca 
a sua tolerância , e hun^anidade se- 
não oífenderia , se visse uaqueik tem- 



( îS ) 

po os Sacerdotes , on assassinados 
nos Carmelitas de Paris pelos assas- 
sinos, e bellcrofontias de Robespier- 
re , ou amontoados naquellas em- 
barcaçÔiis que Joao o Bom , ma;i' 
dava abrir p;îra os afíbp;ar de repen- 
te no fundo das aguas. Porém o tem* 
po das gr.indes violências ainda não 
Citava ciiegado , e os Conjurados 
apercebêrão-se de que ao principio 
era necessário haverem-se de outro 
modo para desligar os povos dos 
Altares , e dos Sacerdotes. 

O primeiro , e poderoso meio 
> de seducç^o imaginada por D'Alem- 

berr , e Diderot , foi a compilação de 
Primeiro todos os seus Sofismas nesta immen- 
meia dos cg colleccao , a que de bom grado 
5^"^":'* chamarão Encvclonedia. O objecto 
cyclope- pi-it)hco deste enorme Dxcionario , 
dia. parecia ser inrhesoirar todos os co- 

nhecimentos humanos \ porém o seu 
fim secreto foi fazer hum arcenal de 
incredulidade. Os literatos recebê- 
rao-no com enthusiasmo , c o respei- 
tado como lium cliefe d' obra, que 



(29) 

encerrava em si só tudo o que o es- 
pirito humano jamais concebera de 
nobre, e de grande; porém o cor- 
po religioso considerou-o ]ium ajun- 
tamento monstruoso de todos os so- 
fismas , e de todos es systcmas, ou 
fosFem antigos , ou modernos , os 
mais oppostos á Religião. Nao ha 
dúvida que a impiedade apparecia 
com disfarce , e mormente nos pri- 
meiros volumes desta Encyclopcdia; 
mas a cada instante armava laqos ao 
leitor , a cada instante abusava da 
sua credulidade para derrolir iodos 
os alicerces da Religião , c da Mo- 
ral. Cobria-se de tal maneira com a 
capa da hypocrisia , apprcsenrava-se 
com ranra destreza , e tanta arte que 
os olhes os mais attí-itos , apenas a 
podião reconhecer. O ardil , e o ar- 
tificio consiàtiao em a ftzsr faíinr 
muito menos naquelles artigos aonde 
o leitor a podia temer , du quc na- 
quelles aonde elle não a suppunha. 
Citações manejadas -com arte a le- 
meciiâo fera do texto , e lhe icá- 



C 30 ) 

nnnvâo o que elle devia pensar de 
cerras verdades reiigiosvis que se nao 
ous-iva combarer no seu lugar natd- 
ral. De^îe modo, por exemplo , na 
cabeceira dos arrigos tr.uados orího^ 
dox^menre tinhão os compiladores 
cuidado de nns dizer : Vede o arii- 
go , preoccupação , 'vede su per s ti" 
ção , vede fanatismo. Deste inodo 
debaixo da palavra » Dcos >5 se 
achavão as provas directas, fysicas , 
e metafysicas da existência de li um 
Enre Supremo ; mas nos Artigos, 
demonstração , e corrupção , se via 
desapparecer seguidamente toda esta 
doutrina, e o leitor em lugar deDers 
do Evangelho , não achava mais do 
que o Deos de Spinosa , ou o de E- 
picuro. Deste modo também os ar- 
tigos alma , e liberdade , e sao tra- 
tados quasi como elles o devião ser 
por todo o filosofo religioso ; porém 
CS artigos direito natural , tolhe , 
animal^ preparavão o espirito para 
o materialismo , assim como os ar- 
rigos casual evidencia , oguavao ao 
s/stema da fatalidade» 



(30 

Quasi se nao podia esperar di- 
verça doutrina de huma Obra , a 
que prezîdiao Diderot , e D^Alein- 
bert 5 e que era compilada por ho- 
mens , que elles mesmos tinhão es- 
colhido. Excepto hum pequeno nú- 
mero , que tinhão huma honrada , e 
benemérita reputação , como Mr. ds 
Jaucourt , todos os m.ais compilado- 
res erão infamados na opinião pú- 
blica pelo seu filosofismo. Tal era 
hum R^/;;^/ expulsado pelos Jes'iiras 
em razão do seu filosofismo. Tai era 
hum de Padres obrigado a fugir pa- 
ra a Prússia por ter querido enganar 
a propria Escoila Sorbonna , publi- 
cando as Thcses da sua impiedade, 
como Thèses da Religião. Hum Mor- 
rekt , aqucYolraire chamava Mor- 
do'îes , porque com o pretexto de 
se levantar contra a Inquisição tinlia 
ousado levantar-se contra a Igreja. 
Hum Dumarsaís rao infamado pí^la 
sua irreligião, que a authoridade pu- 
blica se vira estreitada a destruir hu- 
ma escollâ , que elle estabelecera 



( 30 

mais para perverter os seus discipii. 
loí do que para os instruir. Tal era 
ir.pJs que tudo Volraire , de que só 
o nome annuncia tudo o que devião 
ser os seus sócios. 

De nenhum modo discuto o me- 
recimento litterario de sua compila- 
ção ; o próprio Diderot a senten- 
ciou 5 quando nos falia i> desta raça 
j) detcsravel de trabalhadores , que 
í> nada sabendo , mas aíFectando sa- 
J5 ber tudo, se atirarão a tudo , ar- 
i9 ruinárao tudo, e deste pertendido 
53 deposito dassciencias fizerao hum 
53 abysmo , aonde cerra espécie de 
93 novelleiros arremeçárao confusa- 
33 mente huma infinidade de coisas 
33 mal vistas , mal dirigidas , boas , 
33. más, incertas, e sempre incohe- 
53 rentes. 55 Eta confissão he impor- 
tante , em quanto ao valor intrinse- 
co da Encyclopedia , mas sobre a 
intenção dos seus principaes autho- 
res ainda he mais importante a con- 
fissão do próprio Diderot , quando 
falia das fadigas , que teve para in- 



(33 ) 

siiiuar tudo o que se não podia di- 
zer aberta mente sem ofFender as prc' 
occupa çõc s recebidas , isto he , sem 
atacar pela frente as verdades reli- 
giosas. Além disto não nos podere- 
mos enganar a respeito desta inten- 
ção , quando se vc D'Alemberr es- 
crever a Voltaire >> pedimos a vos- 
» sa herética a permissão de enco* 
55 Ih ermo s as garras se-tu arranhar 
5) nos lugares onde demasiadamente 
55 se tiniiáo encravado. 55 Este he o 
caso de recuar para melhor saltar. 
Temos sem dúvida máos artigos de 
Theologia , e de Methafisyca ; po- 
rém sendo censurados por theologos 
certiíico-vcs que se não pcdérão fa- 
zer melhores. Ha outros artigos 
menos claros que jd corrigimos , e 
o íernpo fará distinguir o que nos 
pensámos do que nós dissemos .... 
Demais ningucm ignora que seme- 
lhantes frases sáo labellioas , e só 
.servem d^Q passaporte para as ver- 
dades , que se querem estabelecer. 
Além disto y ningueyn alli he enga- 
D 



(34) 

f?ado. ( CûVta de D^Alembert de 2 ï 
de Julho IJS7 y ^ ^^ lO de OutU' 
bro de 17Ó4.) 

A incençáo desta monstruosa con- 
pilaqão he ainda menos equivoca, 
quando Vokaire escreve a D'Alem- 
bert Jí no tempo da <^v]erra dos Par- 
» lamentos , e dos Dispos terão os 
?) Filósofos hum lindo divertimento, 
5) e vós tereis a commiJ.ade de re- 
55 chear aEncyclopedia de verdade:, 
5) que ha vinte annos se n'o pode- 
5Î riáo dizer 55 ou quando elle diz 
ao seu Damilaville desejava hum 
livro de filosofia que esmagasse pa* 
ra sempre o infame. Confio inteira» 
mente na Encyclopedia, (^Carta a 
D^Alembert de 13 de Novembro de 
I75'6 , e a Damilaville de 2^ de 
Maio de ij6^,) 

Finalniení-e appareceo esta enor- 
me compilação de tantos erros e so- 
fismas , recolhidos com tantos artifí- 
cios. Os jornalistas do partido atroa'- 
rao o mundo da sua nomeada , e o 
grande objecto dos authores foi pre* 



(iS ) 

enchido. Os ímpios subalternos ap- 
pressárão-se a excavar neste arsenal , 
tirando delle para as suas brochuras 
todas as impiedades, e das suas bro- 
churas sem reserva alguma as fizerao 
passar para o espirito do público. 

O? Conjurados applaudiáo-se des- 
te priiîïeiro meio , conhecendo evi- 
dentemente queexisíiao homens, cu- 
jo zelo ainda podia fazer aborrar a 
5ua conspirnçíío. He verdade que a 
Jgreja tinha seus defensores na cor- 
poração dos Bispos, no Clero da se- 
gunda ordem , e ncís suas corpora- 
çôe? rclif^iosas ; porem a impiedade 
ganhou a batalha em alguns com- 
bates ', e para melhor se segurar de 
huma Victoria terminante pensou era 
destruir iodas as corporsçoes religio- 
sas. LcncTQ tempo havia que o Rei ^^"nao 
03 rrussia tmna mandado imprimir Conjura- 
liuma memoria tendente ásuppressao dos des- 
dos Eleitorados Ecclesiasticos , e das truiçáo 
Abbadlas de Alemanha , para se "^'^ ^°'' 
apossar das suas riquezas {Larta de y(ç\\Ô\o^ 
* Voltaire a Mn Amelct de 8 di sa$. '^ 
D 2 



un 

Outuhro de 1743) po^ém quando 
SC formou a conspiração , suggerio 
hum novo plano geral para a des- 
truição dos Reliogiosos, com o fim 
de chegar igualmente a destruir to- 
dos os Bispos, e Religião Christãa. 
Não está reservado para as armas 
destruir o infame , escreve elle a 
Voltaire , perecerá pelos braços á^ 
verdade , e pela seducçáo do mre- 
resse. Se quereis que eu desenvolva 
esta idéa , cis-aqui o que entendo. 
Tinha notado , e outros como eu , 
que os lugares , aonde ha mais con* 
ventos de Frades , são 2 quelles aon- 
de o povo está mais cegamente af- 
ferrado a superstição. He fora de 
diívida que, se com eífeito se chega 
a destruir estes asylos do fanatismo , 
o povo se tornará algum tanto in* 
différente , e tibio a respeito deste» 
objectos 5 que são actualmente os 
da sua veneração. Trata-se de des* 
îruir os Frades , ou pelo menos de 
começar a diminuilos. »j Todo o 
í> Governo que se decidir a esta 



(37) 

>i operação , será amigo dos Flloso- 
>> fos , e sequaz da doutrina de to- 
j> dos os livros , que aracão as su» 
>> persriçóes populares. Eis-aqui hum 
?5 pequeno projecto, que sujeito ao 
» exame do Patriarca de Fernei. A 
í> elle pertence, como pai dos fiéis, 
>3 puriíicallo , e executallo. >3 

»? Poderá oppor-me o Patriarca : 
55 e que se ha de fazer aos Bispos} 
jj A isto respondo: que por ora não 
M he tempo de bolir nelles , que 
jj cumpre primeiro começar, pela des- 
)> truição daquelies que pregão , c 
>) insinuáo o fan^'itismo no coração 
»5 do povo. >) Lego que o povo 
esfriar , os Bispos ficarão reduzidos 
a rapazinhos , de que os Soberanos 
pelo volver dos tempos poderão dis* 
pôr como qtiizerem. {Carta de 24 
de Março de 1767, item de i^^ de 
Agosto ne 1775'. ) 

Voltaire deo a seguinte resposta 
a este invite : a vossa idéa de ata- 
car pelos Frades a superstição chris^ 
íicola , he propria de hum grande 



(38) 

Capitão. Huma vez acabados osFra* 
des , fica expecto o erro ao desprezo 
universal. Escreve-se muito cm Fran- 
ça sobre esta matéria ; e rodo o iniin- 
ào falia nisto ; mas nâo se rem jul- 
gado maduro este negocio , tanto 
quanto he preciso. Em França nao 
]ia toda aafiFoiteza necessária, eain- 
dr se cré nos devotos. {Carta de y 
d' Abril de 1767.) 

Lendo-se esras cartas bem se vé 
que he escusado perguntar para que 
servião na Igreja todas estas Corpo- 
rações Religiosas. Com tudo Frede* 
rico não tinha toda a honri da In- 
venção deste plano para minar sur- 
damente a Igreja sem ao principra 
holir nos Bispos ( ibid. ) pois que 
he cerrÍ9simo que os Sofistoss o pro* 
seguião de longo tempo na Fraiiq^. 
Hum dos maiores amigos, c prorc- 
ctores de Voltaire , Mr. d'Argenson 
tinha dado a primeira idén deste 
plano, no Reinado de Luiz XV. Pa- 
ra se executar com mais facilidade 
concebera aquelle proceder knto ^ e 



(39) 

înfencivel , cujo objecro occulrava 
todo o odioso das supp-essoes com 
o pretexro de reformas , vfi utilidade 
publica. 

Mas ainda mesmo pondo dépar- 
te a utilidade religiosa , seria d fficil 
conceber, que bera podia espejâr a 
França da supprefsao destas corpora- 
ções , que pe'o menos linhao o di- 
reito de lhe dizer : sem nós os vos- 
sos campos incultos , e grande par- 
te das vossas Províncias cobertas de 
matos ainda serião o mesmo , que 
elles forão no tempo dos vossos an- 
tepassados Galios , e Tudescos. Sem 
nos não existiria grand ^s mo núme- 
ro das vossas Villás , das vossas Al- 
deias , e ainda das vossas mesmas 
Cidades. Tudo até pelos seus no- 
mes vos diz, que á sombra dos nos- 
sos Mosteiros apprendérão os vo-sos 
pais a sorri bar a terra , e a deixar a 
sua antiga barbaridade. Se não con- 
linuaes a estimar a Religião , que ha 
tanto tempo vos temos ensinado, re- 
cordai-vos ao menos , que estas Scicí> 



C40) 

das , e ?stas Artes , com que iioje 
vos glorificae?, a nós as deverão os 
vossos pais ; e que sem nós ninda 
jazeríeis naquella ignorância , em que 
a sua barbaridade se jactava de não 
saber 1er , nem escrever. 

Poremos Ministros de Luiz XV. , 
e os de Luiz XVI. , em geral não 
crão homens , que se commoves^em 
com estas reflexões. As antigas Cor- 
porações Religiosas , com o frucro 
da sua industria , tinhão adqu rido 
grandes possessões : este o motivo 
porque a avareza as invejava. Outros 
Religiosos , que erao em muito maior 
número; apenas tinhão com que sub- 
sistir , e vivião de esmolas; m:is as^ 
sistião ao povo dirig;ndo-o, e exer- 
cendo as funijóes de Apóstolos ; e 
e te o motivo porque o seu zelo os 
fez ainda mais odiosos ao Filosofis- 
mo do temno , do que se fossem 
opulentos. Tinhao-se insinuado nes- 
tas corporações abusoí^ , que a Igre- 
ja facilmente podia reformar ; porém 
os Ministros encarrega rao-se da re* 



(41 ) 

forma p^ra delia se servirem para as 

suppressoes. Primeiramente appare- 
cco hum Edicro , q-.e prorogou a 
jdade das P-ofi^sões P^eligioFas até 
aos vinre e hum annos. Poucos man- 
cebos csperão este termo para se de- 
cidirem do estado , de que lia de 
depender o resto da sua vida ; e 
além disto naquella idade já se tem 
perdido aquella flexibilidade, que nos 
adestra para a ordem , e pa-a 2 re- 
gra. Este Edicto rinha em mira es- 
tes dous cffeitos , diminuir o número 
dos Religiosos, e tornalos menos re- 
g. lares, menos respeitáveis aos olhos 
do povo; e o objrcro dos Ministros 
foi de íobejo satisfeito 

Hum segundo Edicto supprimia 
tcdos CS Mosteiros que nao tives- 
sem dez P^^eligiosos nas Aldeias ; e 
vinre nas Cidades. Este era o ver- 
dadeiro meio de CS despojar dos cam- 
pos, eprivâr os povos do» ''ecursos , 
que délies tira vão p:ira a sua Reli- 
gião, e subsistência. Finalmente vem 
Bficnne, e este Prelado da infâmia. 



( 4'- ) 

amasiado em tanrcs vicies, se cons- 
tirufo tainbcm reformador das Cor- 
porações R-Iigioiías, Esie Preiado, 
que D'Alembert tratava nas suas res- 
postas a Voltaire como seu digno 
CeTífrade na Filosofia , ou nn impie- 
dade. (Carta de 30 de Ju;iho , e 
de zi de Dezembro de 1770.) Tam- 
bém sabia os s^-^gredos dos Soflstas, 
e o do Ministério para as sunpres- 
s6es; a sombra de reforma fomentou 
a discórdia nos Mosteiros , fatigou 
os Super.ores , c favoreceu os des- 
contentei. Entretanto os outros Con- 
frades de D'^'lembert, e de Voltai- 
re não cessaváo de c:ilumniar estes 
Religosos , (!U de derramar sobre 
eiies em m!l brochuras a ridicularia, 
e o desprezo , c deste modo se foi 
c povo acostumando ássupprc;s6es, 
e o número dos Religiosos ia duni- 
nu indo diariamente. Quinhentos 
Mosteiros tinliaO desapparecido , e 
Voltaire ainda achava que se proce- 
dia muito de vagar na sua extinç-^o^ 
ç que oMinistçrio nao cií^ha aaíFoi» 



( 43 ) 

teza necessária. Toda e?ta parte da 
Conspiração anti-chrisrãa estava já 
iruito adiantada ; qusrenta a nr.os ha- 
via qne se continuavao as peiscgui- 
cõcs surdas , qi.ando o machado 'Zíos 
jacobinos em li um só dia vem rc- 
mar?,r a obra de Brienne. 

Em qucn:o es Miri-^rros, e So- 
íistas Conjurados procediao assim na 
destruição das Ordens Religiosas , 
Vultaire projectava huma sociedade , 
CUJO único fim era a propagação da 
5ua impiedade. Facão os Fí osofos 
verdadeiros , escrevia elle a D'Alem- 
berr, huma Confraria , como os Pe- 
df-eiros Livres ; ajuntem se, susren- 
t;m-se, sejão fiéis á Confraria, que 
€u 03 amarei de todo o meu cora- 
5Í0. Ebta Acadeada valerá mais do 
que a de Athen-ís , e de que todas 
as de Paris ; mas cada hum pcr.se 
só em si , e nao se esqueça que o 
primeiro dos deveres lie esmagar o 
infame. {Caria de z^ de Outubro 
de 1763 ) Os Sofístas nao mereciáo 
esta exprobração. He verdade que a 



(44) ■ 

sua Impiedade ainda nao caminhava 
em Paris com a cabeça levantada ; 
he verdade que a mesn^a politica dos 
Ministros , que os protegiao em se- 
gredo , ainda lhes náo permittia pu- 
blicarem as suas producções aati- 
chistaas , e que cumpria usar de 
muitas cautelas , c de muitas reser- 
vas para náo p<irecer que se auího- 
risâvão as reclamações do Ciero , c 
as de hum povo , que só inscncivel- 
mcnte se podia attrahir para a irre- 
ligião , mas estas mesmas re ervas, 
c estas mesmas cautelas desagrada- 
vao a Voltaire. Para isentar os So- 
fistas destes inconveniemes quiz reu- 
íiilos em huma Cidade aonde pudes- 
sem sem temor inundar o Universo 
àcé 'eu9 sofismas , e blasfemas. Por 
este motivo nos di/, o seu panegy* 
risra , Condorcet , que rccorreo ao 
Rei de Prússia , llje propôz que era 
necessário fundar em Clcves huma 
pequena Colónia , de FíIojoFos Fran- 
cczes , para que ai li podessem dizer 
livremente a verdade , sem temer 



(4?) 

Tient os Mhístros , neyn os Parla» 
mentos, ( l^ida de Voltaire for Con* 
dorcet ^ edição de KelL) Frederico 
consent :o que os Filósofos mandas- 
sem exploradores a esta Cidade, pa- 
ra verem o que lhes seria util. {Car- 
ta de 24 ã" Outubro de 1765-.) Po- 
rém estes Filósofos aJiavão em Pa- 
ris ourras muitas vanragens ; eD'A- 
lembert especialmente mcsrrava mui- 
to pouca vontade de sacrificar o seu 
pequeno rebanho da Capi:al para ir 
figurar de subalterno a Voltaire. Nem 
elle , nem os seus Confrades teste- 
munhavão o menor empenho por es- 
te projecto. Apezar disto, Vokaire 
bem longe de desistir da empreza , 
continuou a solic'tala. Chega a con- 
seguir de outro Principe a promessa 
de huma segunda Cidade para a sua 
Colónia , na fahn de Cassei, insta 
mais com os Conjurados , e escrevc- 
Ihes cartas , sobre cartas para os re- 
solver. Humas vezes lhes propunha 
o exemplo dos Huguenoras , que dei- 
xarão a sua pátria fdas ?2€ceda» 



(4^) 

dès Je João CalviiW \ outras vezes 
lhes contemplava o exemplo de San» 
to Ignacio, que achara dcze prose* 
lytos para fundar a sua companhia ; 
e por is o Jastimava-se Feriamenre 
de que nem ao menos poderse aJiar 
três Filósofos que o qui'/ef sem se- 
guir até ao centro da Allemanha. 
Voltaire estava tentado a crer que 
a razão para nada serve. Todos 
os prósperos acontecimento? da sua 
conspiração nunca forao bastantes 
para o conso'artm de rer visto que 
lhe falhara esta parte ào seu plano. 
Conhecia estar chegado ao íim da 
sua carreira , e. com tudo escrevia a 
Frederico. »> Se estivesfe menos ve- 
» liio , e com saúde deixaria de boa 
» mente a casa de recreio, que edi- 
Ȓ fiquei , e as arvores que plantei , 
>5 só para vir acabar a minha vida 
» no Paiz de Cleves com dous , ou 
» três Filósofos , e consagrar os meus 
>> derradeiros dias dtbaixo da vossa 
53 protecção , e imprimir alguns li- 
>5 yros úteis. >' Mas , Se7ibor , não 



(47 ) 

poderíeis vós , sem vos compromet» 
ter , Animar alguns livreiros de 
Berlin para os imprimir , e fazelos 
V en {fer va Europa por hum preço 
commodo , para facilitar a venda ? 
(Carta ao Rei de Prússia de 5 de 
Abril de lyGj.) 

Estas ulnriins linlins exprimem 
clnramente todo o objecto de Vol- 
ta're. Menos lastimaria a sua Coló- 
nia , se o seu desterro lhe permittiia 
que elle mes no visse , como D'A- 
lembcrr a suppríra. Achou qsxq toda 
a sua Contraria dos Conjurados no 
mesmo centro da Academia France- 
za. Tinha sido .^m outro tempo es- Quarto 
ta sociedade o assento da iionra^ e "^^^^ ^^s 
o i'r. nde objecto dâ emulação dos ^°"'"''^" 
Oradores , dos Poetas , e de todos aemia 
os Kscriprores affamados na carreira Frar.ceza» 
da Litte.arura Franceza. Em outro 
tempo con'ava entre os seus mem- 
bros Corneille , Bossuec , Racine ; 
Massiilon , e la Bruyère ; mas tam. 
bem nesse tempo era hum titulo ex- 
clusivo para entrar nesta Sociedade 



(48) 

toda a nota pública de impiedade. 
O mesmo Montesquieu , para ser 
admittido fora estreitado a negar as 
producçòes da sua mocidade. Vol- 
taire tinha sido repetidas 'vezes rejei- 
tado por csusa- das suas j c se triun- 
fou dos obstáculos foi á forca de 
grandes protecções , e daquelles meios 
de hypocresia que taoexcellentemen- 
tc sabia aconselhar aosoutros» D'A- 
lembert teve o cuidado de se nno 
jactar de espirito forte antes de ser 
admittido.; mas apciías se vio neste 
santuário das letras , logo esperou 
mudar com o tempo os litulos de 
exclusão , e tanto s o empenhou que 
esta mesma Acadeniia , que ao prin- 
cipio refugava os ímpios , ao depois 
só para elles se abrio. Pelas peque- 
nas intrigas ^ que erâo o seu verda- 
deiro campo de batalha arrogava in^ 
feiramentç a si o poder de dirigir a 
admissão dos novos Membros. E foi 
tão feliz , que no fim da sua vida> 
O titulo de Académico Francez qua- 
si se confundia com o de incrcduloi 



(49) 

Estas manobras se deixao ver em 
grande parte das suas carras a Vol- 
taire. Humas vezes trata-se de im- 
peilir para a cadeira académica Mari 
mont , Condorcer , hum Champfort , 
hum Suar, hum la Harpe, bem dif- 
férente n^iic tempo do la Harpe 
christao , e que tão justamente se 
fizera celebre pela sua animosa elo- 
quência conrra a impiedade , outras 
vezes hum le?Vlierre, ou hum Brien- 
ne 'y e sempre o titulo de todos es- 
tes candidatos está no seu filosofis- 
mo , e impiedade. 

Para a admiração de Diderot se 
ccmbinao com especialidade todas 
as manobras , e todas as intrigas, 
D'AIembcrt produzio as primeiras 
propos'çôes a favor deste Atheo , que 
Voltaire recebe como quem conhe- 
cia toda a sua importância : Vós qae- 
reis , responde elle , qne Diderot 
entre na Academia , e he de ne ce s ^ 
sîdade que se conclua este negoci/). 
Ah quanto me seria graro receber 
juntamente Diderot e He/vetius.(Car' 
£ 



( So )■ 

tn de (^ de ^ulbo de 1760.) E'com 
effcito a admissão dti?re^ dous honi'sihs 
na Academia Franceza não lera hu-i 
lisa viccorir iiidt>ierente para os GOr>- 
jurados. Nada ír.,'?isfalrava',pára îï30s> 
trar o Atheismo triunfa nrc no San» 
tuario da Litreratura , e para maiv 
car a todo esse exercito de cscripto-^ 
res principiantes , de que abuí.da a 
França , o caminho que devem tri- 
lhar para chegar ao Throno Acadé- 
mico. A escolha áo^ Candidatos de- 
pendia dos mesmos Aeadcrnícos, po- 
rém a approvaçao pertencia ao Rei. 
Para se segurar desta , Voltaire se 
interessou tom rodas as suas p orec^ 
ções 5 e com todos os seus agentes 
junto do Ministro Choiseul , e da 
Corrcsã Pompadour. D'Alenihert co^ 
nieçava a desesperar, e já escrevia: 
» Desejaria mais do que v^ s ver 
»> Diderot na Academia. >? Coulwço 
tudo o bem que disto pôde resultar 
para a causa commum ; porem ve^' 
J9 que he mais impossível do que 
vés o imaginaes» ( Carta de \% àe 



(si) 

Jufbõ de 1760.) Voltaire nao este- 
ve por esta impossibilidade : esperou 
que a Cortesã valida teria em mui^ 
ti? apreço , e cm multa honra pro- 
teger Diderot. {Cf.rta de 2^ de 
Julho,) Meu divino Anjo , escreveo 
cile ao Conde d' Argentai , mettei 
Diderot na Academia ; este he o me» 
Ihor golpe , que se pode descarre- 
gar a favor da conspiração , que a 
razão move contra o fanatismo (is- 
to he ,' a favor da guerra, que hz 
o* Filosofismo á Religião.) Parece- 
me que Diderot deve contar com a 
pluralidade dos votos ; e se depois 
ua sua eleição os Anitus ^ e osiW- 
htus derem algum passo contra elle 
para o malquistarem com o Rei , se- 
rá mu^ro fácil a Sócrates destruir as 
sua^ baterias , negando o que se lhe 
impnar , e protestando que elle he 
tão bom Christ cio como eu, (^Carta 
àe 12 de Julho,) A 1 1 de Agosto 
seguinte escreveo lambem a Duelos ,- 
Secretario dos Quarenta ; estabeleceo- 
ibc tudo o que g.c devia praticar , ^ 
E a 



(Si) 

memoria que havia deapresentarTse, 
à Depuração de sete até oito Elus 
que se devia contemporisar , as p.i- 
lavrjs 5 que o Duque de Nivernois 
devia dizer ao Rei , em huma pala- 
vra toda a bateria que' se havia de 
as sert ar surdamente a favor do 
Adepto recepiendario. >» Os devotos 
j> derão, acciescenrava ú\ç. que Di* 
M derot compôz huma Obra de Me- 
5> tafyâica , que elles não entendem » 
vão ha mais do que responder , que 
não a compôz , e que he bom Ca- 
tholico. Tão pouco custa ser bom 
Catholico, ( Carta de 1 1 d^Jgosto 
do mesmo anuo, ) Por facil que fos- 
se seguir estes conselhos de huma 
hypocrisia sediciosa , todos estes ar- 
tifícios não tivcrãoeíFeito; mas D^A* 
íembert em bem poucos annos teve 
todas as razões possíveis de se con- 
solar. Dirigio tão sagazmente a es- 
colha de seus Confrades , que cm 
pouco tempo toda esta Academia se 
achou metamorfoseada em hum ver- 
dadeiro Club de Sofistas. Ahi se 



(?3) 

achavâo ainda alguns destes hoinens, 
tseb* como o Arcebispo de Aix, e o 
Bispo de Senez , que dev^iao a cadei- 
ra meramenie aos seus talentos , e 
ao uso antigo de receber ao menos 
alguns Prelados ; porém á excepção 
dos Escriptores leigos , reduzião-se 
a hum táo pequeno número , que 
tendo eu mesmo perguntado a Mr, 
Heauzée , como era possivel que co- 
niieccndo eu es seus sentimentos de 
Piedade, e de Religião, se achasse 
o seii nome na lista de tantos ho- 
mens conhecidos por verdadeiros ím- 
pios, ir.e respondeo ; a pergunta que 
vós me fazeis he a que eu mesmo 
ji fiz a d'AIembert. Vendo que eu 
era quasi o único que nas nossas ses- 
sões cria em Deos , lhe disse liuni 
dia , como pode^tes pensar em mim 
sabendo que cu sou tão affastado das 
vossas opiniões , e das dos Senhores 
vossos Confrades ? D'Alembcrr , ac- 
crescentou Mr. Beauzée , não hesi- 
tou em me responder : bem coniie- 
ço que isto vos deve admirar j po» 



(r4) 

rém tinliamos necessidade de hurfi 
Grammarica , e entre todos os rros- 
60S Adeptos náo havia iJbum ({ae se 
tivesse acreditado neste género; nós 
bem sabiamos , que crieis em Dcos , 
in^ conhecendo-vos também pbr mui- 
to bom homem , pensámos em vós 
por nos faltar hum Filosofo que vos 
podesse supprir* t 

Desta sort '2 o sceptro dos talen- 
tos , e das sciencias veio a ser em 
pouco tempo o da mesma impieda- 
de. Vohaire pertendéra transferir os 
seus conjurados para a Colónia pro» 
tcgida pelo Sofista coroado ; D'A- 
lembert os reteve , e os fez tríumfar 
debaixo da protecção dos Monar- 
cas , que íinhão o mais honroso dos 
titules , Reis Cbrisrianissimof. A 
Academia Franceza meíamorfoseáda 
cm Club de ixûpied«de serviQ-mclhor 
íí conjuraqao do5 Sofistas.'contra o 
Ghristianismo do que a poderia ser- 
vir toda a Cx>!onia de Voltaire. In- 
fectou os litreratos , e os littéral os 
infectarão a opinião pública , inun- 



(ss ) 

dandb a Europa daquella? produc- 
■Çôes , que forao para es Chefes o 
€]uinia m^io de preparar os povos 
parf hurîia aposri??ra geral. 

Q^ie por e*p3ço de cjuareiita iin- 
nos, e pr!ncip3În:enre nos vinte an- 
Dos aerrade fos de Voifaire a Euro- 
. pa se Vira inundada de immensas pro- 
-diicaies anii-christans em forina de Quinto 
foliias volantes , systemas , roman- p^"" "^"^ 
c^s,^ pretendidas historias, e debai- dos inun- 
:xo de todas as formas , lie hum dos dação dos 
faaos de rama evideiicia , que me livros an- 
^poupa o provalo , poif he bastante ^J-J^^^'^" 
dîzer que se achiio e^p^lhados coîii '^"^ 
grande inFjlicidade peias loj:<s de iiiui- 
rcs livreiros , e por nr.uiïas livrarias. 
■ Unicamente demonstrarei aqui o ajus- 
te em compor , em fa-zer compor , ou 
em espâlh.ir esta? produççoes ímpias. 
Este he o mesmo ajuste que se ma- 
nifesta a cada passo entre Voltaire, 
D'Alembert , e Frederico na sya cor- 
respondência. D'Alcmbsrt he espe- 
c;aímente admirável pelo seu com- 
portarr.ento nesta pa te da ccnspira- 



taos. 



(í6) 

ção. Pelo facto seguinte se pode juíi- 
gar vendo a arte de que se serve esí- 
te ardiloso Sofista para arttiar os seus 
Jacos. '• - - ' 

* Longo tempo hav'a que ós Con- 
jurados ^ búscíaváo apelos seu, sy sfenias 
sobre a formação do Universo de»?- 
mentir os nossos livros sagrados' go^ 
bre toda a historiai da crieacaOk Se 
quizermos esrar pela linguagem pú- 
blica de D'Alemberr , todos estes 
syst^mas longe de ^&rem oppostosá 
Religião só scrviaò pára mais rnor 
7iifestar o poder ^ e a sabedoria di- 
lha: os Thcologos que sê constei^ 
naváo com esres systemas ^ er^o ?/• 
firitos limitados , fufillãnmes^^ 
inimigos da razão \ pois sfeiasti mât) 
de ver a Religico atacada crnrobras 
aonde ella ynejws o era. Estas obrais 
erâo justamente ar uellas cujos mulhe- 
res requerem para a formação do 
-Universo hum tempo mais remoto 
do que aqueile que o níio perm.irtem 
suppôr as' primeiras paginas de Moy- 
'ges ( V. abuso da critica por D'A-' 



iS7) 

kmkrtno^, ij, i6, 17.) Esre 
m^srao homem , que assim affecrava 
aquietar os The-ologos , enviava ao 
mesmo tempo os seus Adepros a pro- 
curar lia historia das mon anhas esse 
î^nipo viais remoto ; e quando <^s 
enviava escrevia a Voltaire : o por- 
tador desta , meu caro Confrade , hc 
Desmarets homem de merecimento , 
e bom Fílasúfo ^ que deseja render- 
vos 03 seus respeitos de caminho na 
sua viagem á Itália ,.- aonde elle .?e 
propõe a fazer obseriaçots dehisto^ 
ria natural , que beyn poàeriao d^S' 
mentir a Moyses. Nada disto dirá 
ao SenJior do Sagrado Palácio^ mas 
se por acaso de' cobrir que oníuudi) 
be ynuitõ mais /antigo ^ ainda mes' 
7)10 âú que pretendem os Setenta-^ 
tudo TOS participara com toda a 
franqueza. {Carta de ^o de Ju^ 
fjòo de I -764^) 

•Ësre homem tíío ardiloso na ma- 
neira de defender as obras dos ou- 
tros HT) pi os , ainda era m.uito mais 
xiextro na arte de semear o venenp 



( 5?: ) 

lias suaç. Ofa as ftizia psssar d^^bai- 
ato de nome su p posto em forma de 
prefácios y que na estirnaçao dos Con- 
jurados erao a melhor dentada ^ qus 
jamais tlk dira, {Carta dx Vol- 
taire a ly Alembert , anne ^^ 1760 ; 
e Thiriot de 26 de Janeire de 
1762.) Ora arremessava as 5iias se- 
ias contra a Religião fingindo \]ue 
5 defendia , ou debaixo do pretexto 
de huma historia indifférente , cuja 
propagação recomurendsva a Voltai- 
re accrescentando : *r. julgo que este 
» iivro poderá ser uríl á causa com- 
5? mum , e que a superstição 35 lom 
tâdas as reverencias que fingo fa- 
e:,er-lhe nao se achará melhor. Se eu 
estivesse como vós tão Jonge de Pa- 
ris pítra llye dar boas bastonadas.^ 
seguramente eu o fíria de todo o 
meu coraq.lo y com tocias as rainhas 
forças > como se pretende que he ne- 
cessário amar a Deos. Porem estou 
em tal posição qut s6 lhe posso dar 
piparotes , pediiido«lhe perdão da 
grande liberdade , e parcce-mc que 



( 59 ) 

não e?tou mal pago. Voltaire pela 
niesma carra era encarregado de fa* 
zer imprimir em Geno%'a esta qijalii.; 
dadê de obras ein caracteYâs a/gum 
la rito grandes , e>de vigiar nos /V* 
Ur esses do author. ^Em quanto á li* 
cenca de os fazer circular em Fran- 
ça .atíinha-se ao irmão Damilûv:!^ 
le,. {Carta de D'Akmbert a Volt. 
de 3 de Janeiro de i/ó). ) 
■- Qiitras vezes , que eráo bem &* 
líiiudadas , o que o rác-^mo D'Ale-m* 
bert nâo ourava escrevej , fazia es* 
çreveilo a Voltaire. Ervi^va-ll^e lo- 
go-K^seathema ; advertia-o de quan- 
ta apertava a brevid2de da cbra ; 
diòlavá-lhe o plano , e ministrava- 
lhe especialmente as anecdctas , ou 
as calumnfas conrr?. os Aurlícres Re- 
ligiosos y que convinha de?r.credirar. 
No €?ti lo cio5 conjurados isto queria 
FÍ2;ni ficar as castanhas que Bertrand ^ 
D' Alembert , mostrara dcbaixõ da 
cÍ7jza , e que Raton , Voltaire , o 
devia ajudar a tirar do lume com as 
suas mãos de li c a d:: s . (/^, CarSa d£ 



îS de Janeiro^ e de 9 de Ferverei* 
ro de 177.1 \ '^^ de Fevereiro , 21 
de Março de 1774 > Cb"r.) '[''■'; 

* Se D'Akmbert animava dèstà 
sorte a Volîaire nas suas prod acções 
diárias contra o Christ ia nismo , - não 
menos o animava Frederico. He ver- 
dade que este Principe algumas ve* 
zes se reeorddn que hum Monarca 
nao he feito para se confundir cóm 
vis Sofisras; nestes momentos olha- 
va-os como hum montão de liberti- 
nos, fátuos , e visionários {V. ôs 
seus Diálogos dos inortos) mas os 
Soíistas perdoavão-Ihe estes capri- 
chos. Com efreito logo voltava to- 
do o seu Filosofismo ; e como se 
Voltaire nãò tivesse todo o rancor, 
e toda a actividade contra a Reli-^- 
gião. Frederico o apressava , solici- 
tava , e esperava com impaciência 
todos as S113S obras ariti-cÍiristans , e 
tanto mais abundavao de impieda- 
de , quanto mais elle os applaiidia. 
Approvava sobretudo e^tamíáo, que 
f«ria sem apparecer , este meikoda 



(5I ) 

de dar prparoîes no infayite tratam» 
do-o com toda a civilidade. {Carta 
de Frederico de l6 de Marco de 
1771.) Humilhando ás mais baixâs 
li/onjas , via Voltaire cercado de glo-- 
ria , e vencedor do infame subir ao 
Olympo sustentado -pelos gemos de 
Lucrécio , Sofocles , Virgilio , € Loc- 
ke ;. co f locado entre Newton , e Epi- 
curo em hura carro resplandecente 
de claridade. Pvecdia-ihc homenagem 
de revolução anti-christaa , que elle 
via estar-se preparando. {Carta de 
2 y de Norembro de 1766 , Carta 
154 do anno de i'^*) Para parti- 
cipar da gloria do seu Coryfeo , el- 
le mesmo publicava extractos de 
Bayle , truncando-]he somente os 
artigos inúteis para espessar os vene- 
nos dos outros ; ou as suas ahakias , 
ou estes prefácios , e estes diseur^ 
SOS em que Voltaire não achava ou- 
tros defeitos mais do que os seu3 
mesmos, e principal m.ente o de re- 
petir as discussões dos meamos ar- 
gumentos contra a Religião. (/^. 



( é2) 

etfrferp» do R. d a F, { e de VoHî> 
Carîa >r :5 3 , 1 5* i , i c ^ , .^e. ) > 

'. • De îienhum modo insisrirei so-> 
hre a muhidao de livros compostos 
RO menino género por Dideror. O 
que neste lugar importa mais espen 
cialmenre^obatrvar he o ajuste dos 
conjurados entre si para o progres- 
so des ras producqoes de impiedade ;• 
lie Volta re , depois destes dilúvios^ 
de faceciaí^ e de sarcasmos -^ pe^ 
diiixio algur/ta obra séria , evi que^ 
se justifiquem os Filósofos , e s& 
coffmida o infame, {Carta a D'^A^ 
lembert de 23 de Junho de 1760.) 
He sobre tudo a actividade , cora 
que proctdem os Conjurados emes-t 
palliar não só as suas producçoes,. 
mas as dos outros ímpios, taes co-;' 
mo todos estes livros da mais alta. 
impiedade, intitulados í? Militar 
Filosofo , o bom senso, He Voltaire- 
supplícando a Frederico que a'nime 
€s livreiros de Berlin para fazerem 
vender na Europa por hum preçfí, 
^ommodo todas estas producqoes. Hç 



( 6í ) 

Frederico respondendo a Voksîrç'i 
fadeis servir-voí à vossa satisfa* 
ção dos nossos impressores. { Carta 
dt ^ de Maio de 1767. ) He ram^ 
bem Voltaire enviando a D' Alem-» 
berr o testamento do Cura 'JoãoMes-^ 
lier ^ supposto ter derramado no seu 
próprio testamento tcda a peçonha , 
e todo o veneno da sua apos:asia ; 
he Voltaire rogando a D'Alembert 
qae espalhe pcIcs subúrbios de Pa- 
ris , e entre o povo outros tantos 
exemplares deste tcstr, mento como 
os que ç.\\t mesmo espalhou peias 
choupanas da Suissa ; ou tambcm 
enviando-ihe os prejuízos ^ obra da 
impiedade a rriais assignaisda , e di- 
zendo-lhe : be hurna excellente com- 
posição'^ íí eu vosexhorto, meu ca- 
yy rissimo irmão , que designeis ai- 
yy gum dos nosso? prezados , e fiéis 
^5 amigos para fazer reimprimir » es-- 
ta pequena obra , que pode fazer 
víuito bem, ( Carta de i^ de Be* 
zembro de 1763.) He D'Alembert 
aãa só excusandose de ainda na^ 



C 64 ) 

ter podido miprimir , e fa^èr dii^ 
-irihuir os quatro , ou ànco mil eX' 
eniplares âo testamento de Aie s lier , 
accrescenrando que se género hu^ 
mano se acha presentemente tão /7- 
lustrado he porque se tem tido et 
cautela , oti a felicidade de ir iU 
lustrando pouco a pcuco ; {Carta 
de -^x de Juiho de ijSi) mas tam- 
bém dando a Voltaire por escripto 
o sea parecer sobre csre chefe d' o- 
bra de impiedade , publicada cora o 
titulo de bom senso : esta producqão 
he hum livro muito mais terrível que 
o systema da natureza ; e por es- 
ta mesma razão lhe mostra todo o 
proveito que os Conjurados tirariao ^ 
se esta obra que já era muito por- 
tátil se compillasse , e vendesse por 
de::, soldos ^ para os cozinheiros a 
puderem comprar e Ur. {Carta de 
15- d' Agosto de 1775'.) 

Porém nós veremos hum dia os 
Filósofos concertarem com maior dis- 
vélo este meio de apressar a corru- 
pção , a grande apostasia das Na- 



( ^í ) 

çÕPs. For ^le respe'to teno setjs 
Ciubs , suas Assembleas sccreras ; 
terão. seu? So^sras encarr gido^ de Encareo 
compor esses libellas de impit^d.-.de, especial 
lerão devedores :par^> os corrigir , e do Chefe 
proporeicnar aos progressos da cons daConju. 
pi'-açao , assim como também quem ^^^*°' 
vigie nus ediqôes, e as faqa circuhir 
desde os Palácios até ás choupanas-, 
e os faça estudar a todas as classes 
de -pessoas, a todas as idades , e á 
mesma iníancia. Então novos artifí- 
cios servirão para novas Conjurações* 
Nçsta, que elles proseguem contra 
Cliristo j tratamos em primeiro lu- 
gar do encargo dos Chefes , e dos 
serviços que lhes são próprios. Os 
de Voltaire forão constantemente os 
de hum homem , em que se reunião 
lodos os talentos dos Sofistas , e dos 
litteratos , c que os consagra todos 
á sua guerra contra Chrisro. Em to- 
do o cgpaço dos vinte e cinco an- 
nos derradeiros da sua vida não te- 
ve outro objecro. Dizia elle mesmo 
«. quâ me interessa he o despreza 
F 



(66) 

do infame , que semp^-e se deve en- 
tender pelo Christ ia nisTPo. ( Carta 
a DaynVãv, ãé 15 de Mai o dt lyôï.) 
Este mesmo rancor contra Jesu Chris* 
to , e sua Religião o inspirava in- 
cessanreinentc aosou ros Ccnjurados. 
A hum €screvia m empenhai todos 
« os irmãos em perseguirem o infa- 
yy me de viva voz , e por escripto 
>j sem lhe dar hum momento de 
jj tclga. »> A outro recommendava , 
>3 ponJe, quanto couber nas vossas 
>.) ^o. cas , a ma or efíicacia para esma* 
» gar o n'ame. 95 E a outros >5 na o 
>y vos esqueçais de que a vos a prin- 
» cip..l occupdção he esmagar o 
%y monstro; » e iia sua boca, assim 
a mo» tro como o infame era sem- 
pre C^risto , ou a Religião de Chris- 
ío. ( Carta a Iheriot , a S auri en , 
a Damilaville , cb"r,) Na guerra dos 
Infernos contra os Ceos cer-amenre 
Satí^nas não teve mi is fervor em 
sublevar as suas legiões contra o Ver- 
bo. 

Tanto zelo tinha tornado Vol-^ 



( 67 ) 

taîre em idolo do partido. De toda 
a parte acudião a vel'o Ob Adeptos, 
e voltavão penetrados do mesmo fo- 
go , ou da mesma raiva conrra o 
Christianismo. Os que não podião 
vir a sua casa , con-^'u'rav^o-no , c 
pergunta vão-lhe , se havia hum Deos , 
ou se elJes tinhão huma alma. Vol- 
tare que chegara a estado de não 
saber nada dis:o , era o primeiro 
que seria do seu império , e miera- 
mente respondia , que era necessário 
Cí-magar o Dcos dos Christão?. To- 
dos os oiro dias, dizia elle a Ma- 
dama duDeífanr, recebo cartas des- 
ta natureza ( de iz de julho de 
1761.) Todas as cartas que escrevia 
estaváo cheias destas exhorraçoes , € 
chegarão a Iíut» tão prodigioso , 
que he necessário ter visio a sua co- 
lecção para crer que o rancor , ou 
a pcnna de hum só homem bastas- 
sem para as dictar, ou escrever ain- 
da mesmo quando ella não encerras* 
se cantos outros volumes de blasfé- 
mias. Reis f Principes , Duques , 
f 2 



(Í8) 

Marqueze? , pequeno*; Authores, Ple- 
beos , í' dos llic p dioescre er com 
t^n'o que iossem impies ; a todos 
respondia, e a todos fortificava , c 
animava. Até á ultima velhice a sua 
vida foi a de cem demónios inteira- 
mente occupados , e sempre occupa- 
dos no juramento de esmagar a Je- 
su Cliristo , e os seus Altares. 

Não era hum Chefe mcios acti- 
vo , e menos inconcivivel o Adep o 
Frederico sobre o Tiirono. Este ho- 
mem que appíicado a felicitar os 
seus E-^tados fazia só tudo o que fa- 
zem os Reis, e mais do que a maior 
parte dos Reis por meio de seus 
Ministros , também só centra Chris- 
to manejava tudo o que manejão os 
Sofistas todos juntos. Era especial- 
mente o protec or nato daquelles , 
que a justiça púbHca perseguia na 
sua pátria. No maior ardor das suas 
guerras sabia achar dinheiro para pa- 
gar suas pensões a D'AIerabert, es- 
crevia-lhe , animava Voltaire , am- 
plificava de algum modo â sua raiva 



(69) 

contra Christo, testemunhava-lhe to- 
da a impaciência , com que e perava 
as suas novas blasfémias , e em tro- 
ca enviava lhe iodas as suas. Dava- 
Jhe conía da d sposição da^~ Cortes 
a respeito do infinie, e reme:tia-liie 
0$ seus pareceres políticos sobre o 
objecto da Conjuração. ( Fecíf toda 
a sua Correspunàtncia com Foliai- 
re ^ eprincipaírne}}te as cartas j-^o ^ 
1:53, 14^, e ifS.) Procurava for- 
talecello naop nião de que o homem 
njo he composto de duas substan* 
cias , queria dizer , que o homem 
he todo matcria , e que chegado o 
irrsrante da morte , depois nada ha 
que temer, ou e-perar , post mor* 
tem nihil est ( Carta do Bei de 
Prússia a Voltaire de 7^0 d' Outu^ 
bro de 1770 , e de Novembro de 
1777.) mostr^ndo-se mais firm.e nes- 
ta opinião do que o próprio Voltai- 
re. Em huma palavra se trabalhou 
mcní>s do que Voltaire , não \\\t fal- 
tou a raiva , men: mente lhe faltou 
o talento, e pôde dizer-se com ver» 



( 70 ) 

(Jade que Voltaire menos teria feî- 
îo , se Frederico não o excitasse , 
protegesse , aconselhasie , c concoi- 
resse coiti os seus trabalhos. 

Diderot não teve tanta politica 
como os piimeiros três Áuthores da 
conspiração , e foi o tolo glorioso 
dos Conjurados. Sei que vós pregais 
o a^hebrao , lhe dizia o Intendente 
de Pohcia : isso he verdade replicou 
logo o Sofísra insensato sou atheo ^ 
e tne glor:o de oser. Conviniia man- 
dallo para o hí^spitâl dos doidos ; 
porem permitrio-se-lhe a liberdade. 
Disto se aprovcirou para pregar que 
o homem não he livre , que tudo es- 
tá suj frito ao império da fatalidade 
para edificar o caos de huma natu^ 
reza sem Deos , e sem intelligent 
cia y que formou o h o nem sem al- 
ma , e intelligente , e para escrever 
todas as impiedades as mais absur- 
das , e as mais contradictorias , que 
lhe poderião vir á cabeça. Desras 
cncheo descarada , e cruamente os 
seus pensanienios chamados Fikao^' 



( 71 ) 

fcoî^ a carra que compôz fob»-e o% 
cegos , e especial iren'c os sens nc^ 
ucs pensamentos Fîloso'.cf.s ^ (^Cofii- 
go y e systema da 1- ûtureza, Na 
composição dtsta ulr n-a obra , a 
mais monstruosa de todas houvcrro 
dois cooperantes , e vendeo-a pelo 
g riiroso pre.o de cem dobras. Isto 
sube eu do mesrr.o homem , que ihe 
pagou G seu manuscripr ^ 'i odrivia 
Voltaire sempre apptUid* u c te in- 
sensato , illustre Filosofo , o Pla- 
tão , o bravo Dir-t^rot , e hum dos 
m^is ute 5 CavaUeiros da Conjura* 
cão. {V. Carta de Voltaire a Di- 
derot de 1^ de Dezembro de ijói ^ 
a Damila-ville de i76> , é^c. ) Os 
mesmts Príncipes o tiver.lo na coli- 
te d. quelles sábios que por diverti- 
mento ch-^.mav20 para a? suas Cor- 
tes , assim como en;i c urro r.mpo ci-ía- 
mavâo chocarreiros psra o? d senfa- 
d:ir. A Imperatriz Cathar na quiz 
vello , e \\\t achou logo buma ima-" 
gi nação tcio persnne , que o c^H^cgu 
no número dos homens mais cxtra^^ 



(71) 

er dinar tes que até este tempo ti- 
nhào existido. E corn eiFciîo era tal 
a sua extravagância , que fci neces- 
sário reciîmb'nllo immediatamenre j 
inas com facilidade se confortou , 
ju'gando ue os Russianos estavao 
verdes para a Filosofia. ( V. Cartas 
da Jfnperatriz a Voltaire , carta 
1^4 anno de 1774. ) Continuou a 
dizer 5 e a escever todos os absur- 
dos possivei?. He verdade que ne- 
nhum desres se cria ; mas cessava a 
crença das verdades Religiosas, con- 
.tra as qu?ies se dirigiâo os «eus So- 
fismas embellezados de palavras pro- 
lixas , e da pompa Filosófica. 

Explique se como for possível 
este zelo anri-christao , sempre fer- 
voroso , sempre emfatico , quando 
se exaltava a imaginjçio de Dide- 
rot , o certo he que e^^te homem 
também tinha sens momentos , em 
que admirava o Evangelho, Mr. Bau- 
zée, que me referio este facto, en- 
tra certo dia em sua ca-^a , e acha- 
p explicando a sua Filha hum Ca- 



(7Î ) 

pîrii^o do Novo Testamento , com 
tanta seriedade , e interesse como o 
poderia pra.icar hum pai verdadei- 
ramente Ciiristão ; Mr. Beauzée tes- 
temunha a sua adíTHraqão : bem en- 
tendo o que quereis dizer , lhe res- 
pondeo Diderot , ynas cm substan- 
€'a , que melhores lições lhe pode^ 
rei eu dar , ou annde as -poderei eu 
ãchar mais excellentes } 

D'Aleirberr não fez esta confis- 
são. Apezar de sempre ser amigo 
de Diderot não era poss vel pelo 
menos imitar a sua franqueza. Di- 
derot di/ia tudo o que tinha mo- 
mentaneamente na alma ; D'A le m- 
bert nunca disse o que elíe queria 
dizer* Duvido que se achem em. ou- 
tra parte os seus verdadeiros senti- 
mentos a re?pei'o de D"os , e da 
alma , a não ser na> suas íntimas 
confidencias com os Conjurados. Se- 
ria mais fácil seguir os gyros tor- 
tuosos da serpente qu? se esconde 
entre a relva , que todos rodeios , e 
comramarvhas da penna dcsíc cscri* 



(74) 

ptor, naquellas obras, que elle mes- 
»inò CO fessa sen m produções suas. 
Se escreve sobre a Divindade não 
nega clarameiile sua exi tencia , mas 
com G presuppo?^o de examinar âs 
"^ro/as de?ra cx'srcncia , e de fixar 
as mais sólidas , esegjias, envolve, 
e embaraqa o espínco dos leitores 
com tanto sim , e com' tanto não , 
que por fini os d:-ixa na dúvida se 
existe,, ou não exisre esta UiviOvia- 
de. ( y. seus Elementos de Filoso^ 
fia y e as minhas Hehienas carta 
37.) Náo declama contra a Moral 
Evangélica, mas diz que não existe 
hum sj Catecismo de Moral que se 
possa constituir n.is mãos da ino' 
cidade , e qj» lie oe n de desejar 
que ham Filosofo se queira encarre- 
gar da composição de ham seme- 
lhante Catecismo. Ele>?L de FUjs. 
nw^t. 12. Náo nos dá a 1er descri- 
pções obscenas , mas diz que homens 
cstáo concordes sobre a natureza da; 
fcli.idi:ie , que todos convém que 
a feliCiiada , e o prazer são huma 



( 7r ) 

ir^esma coisa , ou ao menos , que se 
bâ alguma dclicia na tc'icidaJe, es- 
ta se deve ao prazer {Eucydop. art. 
Felicidade, ) O d scipulo desta do«» 
cirina , he também o discipulo de 
Epicuro. Essencial menre suas pro- 
ducçóes mui pouco prestarião aos Con* 
jurados. Apezar de seu esiiio agu- 
do , e epig'-aaimatico , parece que 
tem o condão de enfastiar os leito- 
res , e este eífeito he hurra espécie 
de contraveoeno. Me'hor iheconhe- 
ceo Volraire o caracter , encarrjgan- 
do-o da missão e peclal dcat^rahir a 
mocida.ie para o parrido. {Carta de 
1^ de Setembro de 1762 ) D'A I em- 
bert com efreito se eiigio em Pioie- 
ctor de todos os mancebos que ap- 
pareciao em Paris com alguns vi?os 
de tnlento , e capacidade. Aos que 
chegavão com rjguns bens de for- 
tuna, mostrava os prémios, as cO'. 
roas , e os faz Academicrs de que 
elle quasi como soberano . dspunha. 
Mas aquelles , em qje cÍle cuidava 
mais y eráo os destinados para as 



(70 

ftncçôes de preceptores , instituido- 
res , e professores , huns nas ca<as 
públicas de educação , outros nos 
Palácios dos ricos , e poderosos. Tal 
era o grande meio de que havia lan- 
çado máo para inspjrar á infância 
todos os princpios da Conjuraqão : 
e por isto mereceo o nome , e a re- 
putação de hum dos maiores propa- 
gadores do Filosofismo. Pôde co- 
nhecer-se tudo , quanto os Conjura- 
dos esperavão desta qualidade de 
serviqos peio modo , com que Vol- 
taire os appiaudc , guando lhes es- 
creve. ( Qj^e lhe parecia que o ra^ 
paz de Parma seria bem apanha* 
do. Terá hum Condíllac , e hum de 
Leire, Se apezar disto continuar a 
ser d:voto , he preciso dizer , que 
a Graça he ynu.it o ejfícaz. Carta 
de Fo! taire ij de Novembro de 
1760. ) 

Estes desejos , e e.^tes artifícios 
da Seira se transm'ttirao de tal ma- 
nei- a aosCo.ijurados , qu" apezar de 
todo o apego qae Luiz XVI. tniia 



(77) 

á Religião , de rada se e<:quPcérno 
parei constituir ao lado do herdeiro 
da Coroa novos Condiliacs , quero 
dizer , Filósofos , c- m cuj.^ perda fi- 
car"a D^ A\Q^\->^rt i?jCons.JaveL (Car" 
ta de 3 de Janeiro de 1765.) Co- 
nheço ainda o Eccles.asticJ , a quem 
elles oííerccênío o lugar di Mesure 
do Delfîra , d;zendo liie que lho po- 
dião conseguir, abr-indo-iiie o cami- 
nlio para huma grand -,• iorcuna , com 
condição porém , que explicando 
seu Catecismo ao Joven Principe, 
cuidaria em lhe insinuar , eue roda 
a Doutrini Religiosa , e todos os 
Mysterios do Cliristianifmo cráo 
outras tanrjs preoccu p?.çóes popula- 
res , e ás qu^es deveria substiruír as 
lições secreras do Fiiosofismo. Por 
duas vezes instarão com o mesmo 
Ecclesiastco , que f;.^l:zmen'e lhe? res- 
pondeo : Oue elle não sabia procu* 
rar sua fortuna feio sacrifie to de 
seus drjeres. E, ainda mais feliz- 
mente, Luiz XVI. não era homem , 
que patrocinasse semelhaareíí intrigas. 



(78 ) 

h^r. o Duque de Harcourt soube es- 
colhi r meihi.r, nomeando hum ho- 
mem mais bem íbrirado , que 09 
Sofisías para desempenhar as func- 
çoes de instituidor de hum Principe 
mancebo. 

Ourro cfimpò aber'o ao zeio de 
D'Aîcmberc eráoaqiicíles ajunrair.en- 
tos , cu pequenos Clubs, que ctinda 
algum dia devido ser absorvidos pe- 
lo grande Club. Kelles sefailava de 
preoccupaçoes , superstição, e fana- 
tismo. Nelles tinhn D'AIembert sen 
próprio lugar. Nales ccmeçou a 
gueira dos sarcasmos , e'ditos agu- 
dos , dos quaçs bssravao a Voltaire 
cinco, ou seis para opprimir , e ani- 
quilar o Infune. {Chrta de l^ol- 
tmre ^o de Jafuiro de 1764. ) 

Dessa maneira , na vida do? ho- 
mens , suas maneiras, Sviís escritos, 
suas sociedades rudo se encaminhava 
para a Conjuração ^ e rudo respirava 
ódio contra o Christianisro. O de- 
çejo de o abolir chegou a inspirar a 
I>'Akmbert o mçi>mj projecto , que 



(79) 

a mania de desmentir as Procedas 
tinha suggerido a Juliano Apóstata, 
a reedificaqão do Templo de Jerusa* 
lem. Todos sábcm coír.o a^ chara- 
mas devorarão , e conFuna'rao os Of- 
fici.^es empregados nesra obra ; e D'A- 
lembert sabia muito bem , qu? innu- 
meraveis te.^remuniias h^^vião observa- 
do esra prova da vingtn.ci Celestial. 
Podia 1er esre facto cir^un^fa- ciada- 
mente em Amiano Marcelino Au- 
thor incontesravel , 20 meros como 
Pagão 5 e como amigo de Juliano. 
Apezar disto D'Aîejnbvrt e-^creveo â 
Voiíaire a carta seguin;c: 9? Vós sa- 
>5 beis sem dúvida , que existe ac- 
)9 tualmeHte hum Incircumiciso , que 
?) esperando o Pnraizo de Mahomet 
3í veio visitcir o vos^o anrÍ2:o Disci- 
>5 puío da par:e do Sultão Musta- 
5> fà. Eu escrevi oufro dia ncsre 
TÎ mesmo paíz , que se o Rei qjji- 
53 zes^e proferir huma só palavra, 
M îeri^mos huma beiîa occa ião de 
>í reedificar o Templo de Jerusa- 
^9 icm. >j {Carta Je 8 de Etzem- 



( 8o ) 

Iro de 176^.) E^ta palavra nno se 
disse, e o interesse pode n-ais -n'ai- 
ma de Frederico , que o desejo de 
aniqui'ar o iniamc. Ccmo disse o 
me íTío D'AIenibj.t , tcmco perder 
nesta negociação alguns respciraveis 
incurcisos , que lhe ccriao extorquido 
trinra a quarenta miiliÕLS. (Id, i^ 
de Dezembro.) Vt)]taire lisoiig:'an- 
do-se que seria mais feliz com a Im- 
peratriz da Rússia , lhe escreveo. 
í Se V. -M. tiver kuma Conrespon- 
5 dencia aturada coivi Ali Bey , im- 
5 pioro par.'^ com elle a pr tecçao 
' de V. M. , e por Js:o eu Ihesup* 

> plico huma pequena mercê» Vem 
5 a ser : fazer reedificar o Templo 

> de Jerusalém , e chamar para a 
Î Palestina todos os Judeos que lhe 

> pagarião hum grande tributo , e 
I que o farião hum poderoso Se- 
Î nhor. » ( Carta de 6 de ^unho 

de 1771.) 

Era Voltaire quasi octogenário, 
t ainda proseguia nestes arbiirios de 
demonstrar aos jPóvos ; que o Deos 



( 8i ) 

dos Christãos , e seus Profetas , crao 
outros tantos impostores. Frederico , 
e D'Alembert se havião adiantado 
muito na sua carreira ; chegava o 
tempo em que deviáo apparecer dian- 
te daquelle Deus , contra o qual ha- 
via tantos annos que tinhão conju- 
rado. Suas cartas nos dizem porque 
meios 5 e com que constância se ha- 
vião empregado em aniquilar seu 
Império , seus Sacerdotes ^ e seus 
Altares : suas mesmas confidencias 
nos mostrão quaes fossem seus suc- 
cessivos efieiros , e conquistas em o 
reinado da corrupção , e mellior po- 
deremos devisar , e comprehender 
suas fune:tas consequências , quando 
chegarmos ao reinado do terror , e 
dos desastres, 

He esta huma verdade amarga 
para o Historiador , mas elle deve 
ter animo para a dizer : os progres- 
sos desta conspiração anti^christla 
começarão pelas mais levantada? , e 
eminentes classes da sociedade , pe- 
los Reis , Imperadores, Ministros', 
G 



(Sa) 

15 por todos os que comprchende* 
mos debaixo do nome de Grandes 
Senhores. O que receia dizer estas 
verdades aos Principes , deixa as Po« 
testades do Mundo em huma íaral 
cegueira. Continuarão a escutar o 
ímpio , e a protege) lo , e a deixar 
que a impiedade da Corte circule, e 
gyre livremente pel^s Cidades , € 
das Cidades pelas Aldeãs , e Cam- 
pos 5 e o Ceo em li.gar de se abran- 
dar , terá novos ultrajes que punir, 
novos flagelles que derrame sobre os 
Soberanos , e sobre os Povos. Porém 
inani fcsrando , e descobrindo esies 
penosos mysterios ,• guardemo-nõs de 
tirar dclles consequências que são 
mais iunesra? ainda ao repouso dos 
Povos. Guardemo-nos de lhes dizer, 
99 Os VOSSOS Reis sacodírao o jugo 
99 de Jesu Chrsto , vos podeis com 
5? justiça também sacod ir o jugo dos 
99 vossos Rei>í, 55 Estas consequên- 
cia? blasfemar jâo o mesmo Jcsu Chris- 
to . sua doctrjna , e seus exemplos. 
Para felicidade dos-fC^J^s , e para 



( 83 ) 

OS perservar das revoluções , e dos 
de-astres da Rebellião , Deos só se 
lem reservado o poder de castigar g 
ApOír^ta sobre o Throno que occu- 
pa. Resistâo os Christaos á Apos- 
tasia , e vivão sugeiios , e obedien- 
tes aos Principe^. Juntnr a sua im- 
piedade á Rebeliiáo dos Povos , não 
Le suspender o ííp.gello Religioso , 
hc sim atrrahir sobre si mesmo , o 
mais terrvel dos flagelles, á Anar- 
chia. Não he remediar a conspira* 
cão dos Soíistas contra o Altar , he 
consumar a conspiração dos Sofístas 
FediciosLS contra o Throno , e con- 
tra toda a sociedade civil. He imitar 
os Povos muito desgraçadamente il- 
lusns que rebellando-se contra seus 
Principes, sesubmettem ao jugo dos 
Jacobinos para conhecerem com bre« 
vidade, que el!e he de ferro» e que 
goteja sangue : que ioda a sua liber- 
dade consiste na destruição dos Tem- 
plos , na morte dos Sacerdotes , no 
despojo das riquezas , e dos Povos 
opprimidûs , c dos Cidadãos de to- 
G 2 



( 84 ) 

das as classes assustados com o te- 
mor das requisições, dos degredos, 
e das matanças. Sim , devemos pre- 
venir os Povos contra estas desastra- 
das consequências. Mas o Historia- 
dor não deve guardar silencio sobre 
a Apostasia dos Grandes. He preci- 
so dizer-lha , para bem seu , e de 
seus successores para que a mesma 
revolta conira Deos não chegue a 
attrahir sobre elles , e sobre as Na- 
ções os mesmos desastres. 

Na conrespondencia dos Conju- 
rados ha mais de huma carta , que 
mostra , que o Imperador José 1Î. 
estava envolvido nos mysterios da 
conspiração anfi-christãa. Voltaire 
escreveo i m mediaram ente a D'Alem- 
bert. >í E s-aqui huma novidade^ in- 
5> tcressante » Gnni me segura , 
que o Imperador he dos nossos. (28 
de Outubro de 1769.) Para segurar 
a novidade escreveo a P'rederico 
jí Hum Boem.o , que tem muito en- 
» genho , e filosofia , chamado Grim , 
j» me mandou dizer que V. M. ti- 



>5 nha iniciado o Imperador em nos- 
55 SOS santos mysterios {Novembro 
55 de 176^,) Em fím. sabe-se o que 
55 Frederico respondera a esta car- 
5> ta , pela carta em que Voltaire 
55 lhe diz 55 V. M. me lisongeou 
b:istante em me dizer que o Impe- 
rador estava no caminho da perdi- 
ção , eis-aqui huma boa colheita pa- 
ra a Filosofia. (21 de Novembro 
de 1770.) Frederico Wíq respondeo , 
que José IL estimava as obras de 
Voltaire, que as lia , quanto podia, 
e que não era supre?ticiOso. (i2 de 
Agosto de 177c.) Na boca de hum 
homem para o qual a Religião não 
he mais que suprestição , estas pa- 
lavras não são equivocas ; querem 
dizer que José não era m.enos ím.pio 
que Frederico , e todas as suas ac- 
qôes provarão depois quanto elle ha- 
via entrado nas idéas dos Sofistas. 
A guerra que fez á Religião , foi 
primeiramente huma guerra de hy- 
pocrisia , e se tornou depressa em 
huma guerra de devastação , de ra- 



( 8Ó) 

pina , e de yiolencfa. Supprimíò se* 
gundo o desejo dos Conjurados hum 
grande número de Casas Religiosas. 
Expulsou de suas celas até aquelles 
Carmclt s , cuja pobreza não deixava 
â Avareza o menor preiexto de des- 
truicãOi Mudando tudo a seu sabor 
na Igreja fez ver o prelud>ô diquel- 
la famosa Constituição chamada Ci- 
vil pelos legisladores Jacobinos , e 
que fez tantos Martyres Carmelitas. 
Recebeo o Soberano Poniifice com a 
affecração de respeito , e não deixou 
de continuar em atormentar a fé dos 
Bispos , e dos Povos do Barbante. 
Suas perseguições surdas , e suas des* 
truiqòes começcirão naquelles des- 
graçados Paizes a obra que hoje 
consumão os Jacobinos. 

Na mesma Lista dos Adeptos 
protectores Voltaire, e D'Aiembert 
escrevem o nome de Catherin:! II, 
Imperatriz da Rússia. O grande ti- 
tulo , que esta Princeza tinha aos lou- 
vores que lhe davão os Sofistas, era 
sua admiraqão , pelos seus Corifeos. 



( 87) 

Seu meriro para com elles , era ter 
escrito a Voltaire , que todos os mi- 
lagres do mundo , não lavariao a no* 
doa de ter impedido a impressão da 
Encyclopedia. ( V, suas cartas a 
Voltaire 1,253,^8.) Era tam- 
bém para com elles de grande me- 
recimento , ter destribuido a seus Au- 
lico'-. a traducçao de Belisario , e de 
se haver reservado psra si mesma a 
traducção do XV. Capitulo , por ser 
precisamente âqucile em que Mar- 
montel havia refundido todo o seu 
Filosofismo. {Carta de Voltaire a 
ly Alembert Junho de 1767.) Era 
em fim ter convidado a D'Alembert 
para presidir á educação do Princi- 
pe herdeiro. Com tudo Catherina 
em lugar de seguir es conselhos de 
Vol:aire, rejeitou constanremente to- 
dos CS projectos de destruição , que 
ú\q lhe propunha. Mais moderada , 
que Frederico nao se aviltou com o 
tom grosseiro das injúrias , e blasfe- 
mias. Os outros Rus , c Prirc'pes 
do Norte acharão seus títulos eoxB* 



(88) 

muns na carta em que Voltaire es- 
creve a D'Alemberr. 55 Temos por 
nós a Imperatriz Catherina , o B.ei da 
Prússia, o Rei de Dinamarca , aB.ai- 
nha de Suécia , e seu Filho , e mui- 
tos Principes do Império. (23 ds 
Novembro de I770. ) Ou na outra 
carta de Voltaire ao Rei da Prússia. 
5> Não sei o que pensa Mu^^tafá 
55 (sobre a immortalidade da alma) 
55 persuado-me que nem nisso pen- 
3> sa. Em quanto á Imperatriz da 
5> Rússia , á Rainha da Suécia vos- 
35 sa Irmãa , ElRei de Polónia , o 
?5 Principe Gustavo , Filho da Rai- 
» nha de Suécia , creio que sei o 
» que elles pensão, 'j (21 de No^ 
'vembre de 1770.) Desgraçadamente 
estes Soberanos agradecerão a Vol- 
taire, huns , ter-lhes ensinado a pen« 
sar, ede ter livrado os homens do 
jugo dos Ecciesiasticos , ( V, carta 
de Christ iam VIL Rei de Dinamar- 
ca em ijyo ^ e de D' Âlernbert 12 
de Novembro de 1768. ) outros de 
ter sido tão util aos progressos da 



razão , e dà Filosofia. {Carta de 
Gusta-vo III, Rei de Suécia lo de 
Janeiro de 1772.) Ouíros em fim 
ensinando ás Nações , que formas- 
sem votos para que todos os Reis 
lessem Voltaire, elles julgao desgra- 
çados os viajantes , que o não co- 
nhecerão. {Carta do Rei de Tolo* 
fiia 21 de 'Janeiro de ijGy, ) E 
quando vemos os Soberanos abati- 
dos a ponto de fazerem hum idolo 
do inimigo mais encarniçado contra 
o ChristJanismo , he quasi impossi- 
vel esconder a parte que elles toma- 
rão em suas conspirações. Se as des- 
graças da Religião recaem sobre el- 
les , reíeião os cumprimientos que 
D'Alembcrx em estilo baixo , e ras- 
teiro fazia a Voltaire. Vós vedes que 
a Filosofia começa já sensivelmente 
a ganhar os Thronos , vosso illus- 
tre , e antigo protector o Rei da 
Prússia com.eeou a dar a impulsão , 
o Rei de Suécia a continuou , Ca- 
therina imita a ambos , e o fará ain- 
da melhor. Hei-de rir muito se sen* 



(5^) 

do eu vivo , vrr que o Rosário s^ 
vai desenfiando. ( Carta de 2 de Ou^ 
tubro de 17Ó2.) Mas vejão qual se- 
ja o outro Rosário que se vai desen-^ 
grazando. Os Altares cah.ni por to- 
da a parte , mas Gustavo moneo 
assassinado. O Rei Luiz XVI. gui- 
lliotinado , Luiz XVIL em huma 
prizão, o Rei PoniastovVski des hro- 
nado : e os Adeptos filhos de D'A* 
lembert riem, como elle seria, que 
os desastres do Throno succedão, e 
se sigáo tão próximos aos desastres 
do Altar. 

Entre os Soberanos do Norte ha 
ao menos huma excepção que fazer 
a favor de Jorge líL de Inglaterra. 
Se os Sofistas tivessem descoberto 
neile alguma coisa mais que hum 
Principe amado dos Vassallos , e que 
o merece ser : se tivessem visto ou- 
tra coisa mai> que lium Rei bom , 
justo, sensivel , benéfico, e zeloso 
de manter , e conservar a liberdade 
das Leis , e a felicidade da Europa , 
€ de seu Império 5 se elles tivessem 



C90 

descoberto hum ímpio que secundas- 
se rodas as suas machinaçòes , nao 
rerião deixado de o transformar no 
íeu Ante ni r o , no seu Alarco Au« 
relio. Mas elles emmudecem arespei* 
to dfsre homem , e não he pequena 
vantr^gem para hum Principe existir 
nullo na historia de saas conspirações , 
quando a historia da Revolução o 
encontra tão activo para lhe suspen- 
der os desastres , tao gr.inde , e tao 
generoso para consolar as suas victi- 
mas. 

Em quanto aos Reis do Meio- 
d'a, he preciso fazer lhes justiça, e 
dizer , q-e os Sofistas em lugar do 
os contar cnvcQ seus Adeptos , se 
queixão pelo contrario de os achat 
ainda muito distantes do Filosofis- 
mo. Mas em desforra , a lista dos 
Adeptos se augmenta com o nome 
de muitos Pi:t>:ipes 'do Império. A* 
cha-sc no principio o nome de Fre- 
derico Landgrave de Hesse-Cassel , 
que dá a Voltaire sinceros agradeci- 
mentos, pelas lições de impiedade, 



(90 

que délie tinha recebido : e para lhe 
provar quanro havia aproveitado , to- 
ma por divertimento njuntar contra 
Moysés 5 e contra o Evangelho , 
objecqôes a penas dignas de hum 
principiante em litreratura. ( V- as 
cartas deste Frincipe 9 de Setem- 
bro ^ e 1 de Novembro de 1766.) 
Depois de! le , se acha o nome de 
Eugénio , Duque de V/urtemberg , 
juígando-se mais Filosofo que Só- 
crates 5 quando se achava em Fernei. 
(Carta do 1.^ de Fevereiro de 1766.) 
O do Duque de -Brunswick tão fes- 
tejado por D'Alembert em oppcsi- 
ção ao Principe de Duas Pontes , 
que protegia os Frerons , e a cana- 
lha. O de Carlos Theodoro , Eleitor 
Palatino, que convida, e solocita a 
Voltaire para lhe vir dar lições em 
Manhein. {Carta do t.° de Maio ^ 
e a carta 38 em ijC<y. ) 

Entre as Adeptas protectoras se 
distingue Wilhelmina Margrave de 
Bareith, que se ciiaraou Soror Guil- 
Jemeta 3 quando escreveo , e saudou 



( 93 ) 

a Voltaire, jurando-Ihe, que ella se 
edificava mais coin as suas carras, 
que corn as de S. Pauîo. Que osje- 
-suiras , e Jansenistas nada entende- 
rão , e que ella tinha posto hum par- 
ticular estudo em conhecer o coro- , 
çáo humano. Virao na depois disto 
dando suas decisões sobre matérias 
de consciência , sobre a aversão ao 
sofFrimento, e amor ao prazer , qua- 
si como o teria feito Helvécio, que 
teria sido menos vão , se não tivera 
feito mais que repetir sobre todos es- 
tes objectos as lições de Filosofia 
transformada em roca , e fuso. ( V. 
as cartas desta Princeza 25 de 
Dezeynbro de 1751 , e i,° de No- 
Temùro de I75'2.) Sem entrar nestas 
discussões profundas Voltaire se con- 
tentava com o poder de ajuntar no- 
mes novos a esta Lista, Se lhe qui- 
zermos dar credito derdc o anno de 
1766 não havia n' Alemanha hum só 
principe , que não fosse Filosofo, 
quer dizer , que não houvesse. dei- 
xado como elle de crer no Evangc- 



(94) 

lho. (Carta ao Cmde de Argentai 
26 áe De^mbro de ij66.) Ha mui* 
tas excepções que faeer nesta pro^ 
posição: mas eliasficao compensadas 
cora o grande numero de homens 
das primeiras jerarchias do Estado , 
que pensa vão com elle. 

Na Corte de I.uiz XV. os Sofís- 
tas forão especialmente protegidos 
pelo Conde de Argenson , yé^. Me- 
retriz Pompadcur , pelo Duque de 
Choi^eul , e por Mr. de Malcsher- 
bes. Este ultimo lhes foi muito util, 
favorecendo com tona a sua aurhori. 
dade a publicação das suas produc- 
ç6es» Seu ministério lhe confiava a 
observância das Leis, relativas cá im- 
pressão : eiie a? abai 10 todas com 
Iiuma palavra , dizendo quecjUâl-iuer 
livro, ou ímpio, ou Keiig.oso, na' 
da mais era que hum objecto de 
Commerc.'o. Nenhum Ministro foi 
tão amável aos Soíistas como este 
foi. Elles o conside?avão como hum 
homem que tinha quebrado os ferros 
da Luteratura. ( Ca^^ta de Volt airs 



(9?) 

c B^AIemhert 30 de Janeiro de 
1764.) Vinhao chegando os annos 
em que os crimes dos Jacobinos lhe 
deviâo ensinar , e o obrigariao a 
confessar qiie tal foi este Commer- 
cio para os Sofistas Pais dos Regi^ 
cidas. 

Apenas Luiz XVî. sobio ao Thro» 
no , Voltaire e?creveo a Frederico. 
5? Eu não sei dizer se o nosso Rei 
5Î novo caminhará pelas vossas pé" 
55 gadas , mas eu sei que elle tem 
'5 Filósofos por seus Ministros ex- 
35 ceptuando hum só. « ( 3 d^Agos^ 
to de 1775' ) Este Principe teve com 
efFei o a desgraça de viver cercado 
de Filósofos em quanto existio no 
Throno, Teve ao seu ladó aquelle 
Turgor , cujas suppostas virtudes tan- 
to exa'tao os Sofistas , e no qual a 
conrrspondencia de Voltaire , e de 
D'Alembert apenas nos mostrão hum 
iiotrem , cuja única attencao -era es- 
' conder sua impiedade com medo de 
pnjudicar os projectos de sua ambi- 
ção , e íòrtuna. Era com eíFeiío , ern 



(96) 

todo o rigor do termo , hum Ency- 
clopédiste! ; e D'AIembert guardava 
profundo segredo sobre os Artigos, 
que elle iTie havia communicado. 
Quando visrtava A^oltaire , D'AIem- 
bert se encarregava de prevenir o 
Filosofo de Fernei , dizendo-lhe que 
esté Turgot era ham homem clieio 
de Filosofia , hum Cacouac de gran- 
de probidade , porém que linha ra- 
zoes muito fortes para se ncio dar 
a conhecer , porque a Cacouaqueria 
não abria passo para grande fortu- 
na. {Carta de iz de Setembro , e 
8 de Outubro de 1760.) Voltaire 
extasiado com as visitas desta perso- 
nagem deo a conhecer o apreço que 
delia fazia, quando disse a D'AIem- 
bert : se tendes muitos sábios deste 
calibre em vossa Seita , então aca^ 
bou-se o infame, (17 de Novembro 
de 1760.) Foi extrema a alegria 
dos Sofistas Conjurados vendo subir 
ao Ministério hum Adepto tao addi- 
cro a ?uas conspirações ; sua queda 
porém foi muito prompta , e não 



(97) 

pode realizar o grande objecto. Os 
Conjurados lançarão os olhos ^sobre 
Necker, e o íizeráo entrar no lug.ir 
de Turgor. Este Necker he o mais 
ambicioso , e ao mesmo tempo o 
mais hypocrita de todos os Soíistas 
desce século. Sua casa foi sempre 
hum Club de Sofistas , que para o 
appiaudir fizerão soar todas as trom- 
betas da Fama. Fallavão delle quasi 
tanto , como elle faliava de si. Suas 
profundas inrrigas o aproximarão ao 
Throno , e elle lhe preparou todas 
as desgraças. Foi deposto , mas tor- 
noi/ a servir para as continuar , e 
ulrimar entregando o Throno ., e o 
Altar aos Jacobinos. 

Luiz XVI. teve também a seu 
lado aquelle Brienne , que os Scfis* 
tas tinhao querido fazer Arcebispo 
de Paris , para attrahirem pela apos- 
tasia da primeira Diocese , todas aS 
outras do Reino. Este monstruoso 
Prelado não sobio ao Ministério se» 
não para dar a conhecer sua incápa- 
H 



(98) 

cidade , como até então tinha mos- 
trado sua impiedade. 

líesta arte se hia inficionando o 
Ministério de Conjurados impios. 
Se dermos credito aos seus Chefes, 
todas as altas classes da Sociedade 
erão igualmente composras de Ade- 
ptos seus. » Estai seguro , escrevia 
gWq a Helvécio no anno de 1763 , 
que a Europa está cheia de homens 
razoáveis , e que abrem os olhos á 
luz. Na verdade , seu número he 
prodigioso, eha dez annos que não 
descubro hum homem de qualquer 
Religião , e paiz que seja , que nao 
pense como nós pensamos >' quer 
dizer, que não seja hum verdadei- 
ro materialista. Dois annos depois , 
com a mesma confiança annuncian- 
ào os progressos da sua Conspira- 
ção a seu favorito atheo Damilavil- 
le , lhe diz : a victoria se declara por 
nós de toda a parte, e vos affirmo 
que dentro em pouco tempo só ve- 
remos a canalha militar debaixo dos 
estandartes de nossos inimigos. » 



(99) 

Quando elle entra no detalhe de suas 
conquistas , o Catalogo dos x\deptos 
se enche de nomes , que annunciavâo 
a nobreza , e as virtudes de famí- 
lias illustres , e que só para elles fo- 
rão de preço desde o dia , em que 
declaravão homens apegados aosys- 
tema de sua impiedade. Vio-se nes- 
ta lista hum descendente de Grillon, 
hum Principe de Salm , e o Duque 
de Usez , que felizmente acharia no 
dia de hoje outros sentimentos mui- 
to différentes na siia família. Achão- 
se entre estes Adeptos Condes, Mar- 
quezes, Cavalheiros , e Magistrados 
sentados nas cadeiras dos Parlamen- 
tos. Advogados Geraes , taes como 
Duchí , Castiilon , Servan , Lacha- 
iotals ; ,achão-se grandes Senhores 
Suecos , como o Camarista Jenning , 
o Embaixador Conde de Creux j Se- 
nhores Russos como o Principe Gal- 
litzin , o Conde Schouvalow i Se- 
nhores Hespanhoes como o Duque 
d'Alva , de Villa Hermosa , o Mar- 
quez de Mora j e o Conde de Aranda. 
H a 



( loo ) 

Porém com mais especialidade 
eniQ os Escriptores do Século se 
aiiultiplicáráo estes Adeptos. Apenas 
Volraire se mostrou ímpio , o im- 
pério das letras se enchco de Sofis- 
íâs cobertos com a c «pa da Religião , 
que bem depressa depozerão. A^ sua 
frente appareceoaquelle João Jaques, 
cujo nome só basta para annunciar 
hum homem , que podendo disputar 
a gloria do génio, não oquiz exce- 
der senão para dar á impiedade hu- 
ma linguagem mais triunfante , e a 
seus Sofismas hum verniz mais se- 
ductor. BufFon não quiz ver seu no- 
me entre os dos Conjurados , porém 
servio-os a seu pezar com a mania 
dos systemas. Boulanger , e o Mar- 
quez d'Argens não se retractarão se- 
não depois de lhes haverem consa- 
grado muitas de suas producções. 
Ka multidão dos outros Adeptos 
escriptores se distinguem sobre tudo 
Freret , Helvécio , e aquelíe Mar- 
montei , que hoje fazem arrependido 
copiQ la Harpe ^ pias que nãp tem 



( loi ) 

ainda manifestado a mesma coragem. 
Mais que rodos estes Adeptos , mais 
que o mesmo Voltaire com todo o 
seu ódio a Jesu Cjiristo , o aiheo 
Coniorcet nao teve ourro arrepen- 
dimento mais que o da raiva , e des- 
esperação. Se elle morreo como vi- 
veo , seu maior arrependimento en- 
tre as chammas vingadoras , será o 
de n^.o poder dizer mais. Não exis' 
te Deos, 

Se se quizesse comprehender de- 
baixo do nome de Clero tudo o que 
em França trazia o scmivestido Ec- 
clesiastico , e todos aquellcs a quem 
se dava em Paris o nome de Abba- 
âes ^ poderiamos dizer , que desde o 
principio da Conjuração , Voltaire , 
e D'Alembert tiverão Adeptos até 
nos degráos do Altar. Logo se lhes 
alistarão os Abbades Morelet , Beau- 
deau , Barthelemi , Raynal , bem co- 
mo hoje ainda estão alistados os Ab- 
bades Noel , e Syeys. Porém , nem 
o mesmo Po\^o confundia estes En- 
tes amíibios com o verdadeiro Cie- 



( I02 ) 

ro. Este corpo com eíFeito não se 
compunha de todos aquelles ho- 
inens , que adoptarão seu uniforme , 
huns para terem parte nos Benefícios 
da Igreja , deixando as suas funcqoes , 
outros por huma sórdida economia , 
e para se introduzirem nas socieda-- 
des com hum vestido mais simples, 
que elles alias deshonravão com seus 
escritos , e costumes. O Clero nâo 
tinha verdadeiros membros , senão 
os que pertencião ao serviço do Al- 
tar , e deste número , Briene era o 
único que D'Alembert contava no 
número de seus Adeptos. O resto 
dos Pastores não era de todo inno- 
cente a respeito dos progressos de 
conjuração contra Jesu Chnsto. Sem 
dúvida não se encontrava, entre el- 
les , ou não se via mais que hum 
pequeno número de verdadeiros ím- 
pios 5 de homens que tivessem per- 
dido a Fé. Mas nâo basta que os 
Apóstolos conservem intacto o de- 
posito das verdades religiosas , o 
exemplo , mais ainda que as lições 



( 103 ) 

deve repellir a impiedade, e desgra- 
çadamente entre estes homens dados 
ao serviço do Altar, se achavão mui- 
tos, cujos costumes não eráo dignos 
do santuário. A affectação que os 
ímpios , e mundanos mostrao em 
exaggerar estes abusos, não nos deve 
servir de motivo para os dissimular^ 
mos , he preciso que a nossa confis- 
são sirva de exemplo aos successores. 
Mas a verdade deve fazer lium ob- 
sequio á historia , dizendo , que o 
corpo do Clero permaneceo bom , 
e fiel. Por graça do Deos que elle 
prégava ao Povo, elle o soube mos- 
trar 5 quando vio a impiedade , ufana 
com seus progressos , deixar cahir 
a mascara. Então se mostrou mais 
forte que a mesma impiedade , dei- 
xando-se morrer , ouvindo sem te- 
mor chegar os rigores de hum lon- 
go degredo. Nem seus primeiros 
Pastores , nem seus Doutores tinhao 
esperado por esie tempo para se 
oppôr aos Conjurados. Christovão de 
Beaumont , o Ambrósio de Paris y o 



( 104 ) 

Cardeal Luvnes. Mr. dePompigiían , 
Bispo de Pey , Mr. de Beauvais Bis- 
po de Se ne/. , e huma grande parte 
dos Prelados Francezes oppo^erao 
suas religiosas instrucçoes ás instruc- 
çÓes dos Sofistas. A Sorbona rasgou 
o:î véos á impiedade com suas cen- 
suras. Os Abbâdes Bergier , Houte- 
ville, Duguet , Qiienée, Gerarc , e 
outros muitos fazião reviver os Jus» 
tinos , e os Athcn.ígoras contra os 
Porfyro , e Celsos modernos. Os 
Oradores Christãos premuaiáo sem 
cessar seus ouvintes contra a impie- 
dade. Estes esforços retardarão os 
progressos da Conjuração. Poucos 
annos depois da primeira appariçao 
da Encyclopedla , era já tanta a con- 
fiança de D'Alembert , que escreveo 
a Voltaire ,dizendo4iíe » Deixai tra- 
balhar a Filosofia , que em menos 
de vinte annos a Soborna , toda Sor- 
bona como he, excederá Lausana 5> 
quer dizer , certo Ministro de Lau- 
sana , que tinha enviado pelas máos 
de Voltaire os artigos mais Ímpios 



( »oy ) 

para serem inseridos na Encyclope- 
dia. {Carta D^Alemhert de zi de 
Junho de i75'7.) Voltaire amplian- 
do a Profecia , lhe escreveu no an- 
no seguinte » dejxai passar vinte 
annos . e Deos terá a sua demissão. » 
(25 de Fevereiro de 1758.) 

Tudo cora eíFeito annunciava em 
cada parte da Europa , que o reino 
d;í impiedade náo escava muito dis- 
tante. A conrespondencia destes Con- 
jurados , os mostra assidues observa- 
dores de tudo quanto se passava em 
torno délies , escrevendo huns aos 
outros , humas vezes >> que o mun- 
do se desabusava , e que de toda a 
parte se a;inunciava huma revolução 
nos espíritos ; outras vezes »> que a 
5ua Filosona se fortificava n' Alema- 
nha Semptentrional , e que penetra- 
va até na supresticiosa Boémia , e 
Áustria 5 queouitimodia dos Theo- 
logos , e Defensores da Religião ti- 
nha amaniiecido na Prússia , e que 
hia chegando á Polónia. Que a Rús- 
sia seguia os mesmos passos , que a 



( io6 ) 

mesma revolução lavrava na Itália , 
e na Hespanha , que ainda que o 
Povo permanecia na ignorância , a 
mesma Filosofia abrangia já o Po- 
vo, que não havia vinte pessoas em 
Genebra que não abjurassem Cal vi- 
no 5 como abjura vão o Papa. Que 
havia Filósofos até nas lojas dosoF- 
ficiaes, que se não encontrava hum 
único Christão desde Genebra âté 
Berne. Qi.ie a Ingiareira se enchia 
de Socinianos, que aborrecião , ou 
desprezavão o que Juliano Apóstata 
aborrecia, e desprezava , isro he, o 
Deos dos Chnstãos. Que a Filoso- 
fia em fim podia ser batida , mas 
que já não podia ser vencida, n 
{Carta de Voltaire i^ de Abril de 
176^ — 4 de Setembro de 1767 
— 20 de Dezembro de 1768 — 
8 de l<Jõvembro de 177:5 - — 8 de 
Fevereiro de 1776. ' — De Federia» 
CO carta 143 anno 1765'. — De 
D\^lembert j de Novembro de 177o, 

è^c» 

O orgulho dos Conjurados podia 



(107 ) 

exaggerar estes successos , nias naô 
deixou de ser verdade , que nos úl- 
timos annos. de VolrairCj e deD'A- 
lembert a geração religiosa se extin- 
guia. As palavras — - Razão , Fi- 
losofia ^ Preoccupação ^ occupárão o 
lugar das verdades reveladas. As ex- 
cepções , que se podiao fazer na Cor- 
te 5 nos Tribunaes , e nas Classes 
superiores , cada dia se tornavão mais 
raras. A impiedade passou da Ca- 
pital ás Províncias ; dos Senhores , e 
Nobres aos Mecha nicos ; dos Amos 
aos Criados. Mas estes não forao só 
CS desgraçados successos de que Vol- 
taire se podia lisongear. Tinha-se le- 
vantado como cabeça dos Soíistas da 
impiedade , e antes da sua morte, 
se vio também levantado cabeça dos 
Sofistas da Rebelliao. Tinha dito 
a seus primeiros Adeptos , pulveri- 
zemos os Altares, não fique para o 
Deos dos Christaos hum só Tem- 
plo , hum só adorador , a sua esco- 
la não tardará em d'zer m quebre- 
mos todos os Ceptros , não haja na 



( io8 ) 

Terra hum só Rei , e hum só Thro- 
no. Os arquivos dos Conjarados So» 
fistas da impiedade , nos bastarão, 
para demonstrar a exisîencia , os au- 
tJiores , os meios , os Adepros , os 
progressos desta primeira conjura- 
ção , dirigida toda contra o Deos 
do Christianismo. Suas confissões , 
e seus escritos nos bastarão ainda 
para mostrar a Conjuração, que elles 
formarão como Solistas da Rebel- 
liio , aquella Rebellião , que diri- 
girão contra os Reis. Toda a mar- 
cha destes novos attentados , que ex- 
poremos na segunda parte , nos con- 
duzirá até á morte de seus primei- 
ros Authores, 



Fim da primeira parte. 



( 109 ) 

PR P: FACÃO 
Do Redactor Portuguez. 



o 



S golpes que os ímpios co- 
bertos com a capa da FiJosoíia des- 
carregarão sobre a nossa Santa Re- 
hgião , ousando sem rebuço atacal- 
Ía , e proscrevella em os primeiros 
frenesins da Revolução , tinhao si- 
do muito d'eante mão prerr. edita dos 
como vimos em a primeira parte 
deste tratado. A perseguição tinha 
sido systematica , e conduzida cora 
todos os esforços de huma vigilante 
malicia , aié ao m.omento da explo- 
são. Desde a mais insignificante bro- 
chura daqueilas que entulhaváo to- 
dos os dias as ruas , e os Eotequinç 
de Paríi- , até a enorme , e immen- 
sa compilaqâo , que se chama £»- 
cyclopedia , tudo se encaminhava a 
perverter ânimos fracos , e dispor 
corações já corrompidos pelo crime. 



( lí© ) 

para a grande obra da iniquidade , 
que se devia descaradamente paten- 
tear á face do Universo , quando 
os Soíistas seni rubor , e sem rnedo 
dissessem nalnbuna da Conven- 
ção , que era preciso esrabelecer p 
Naturalismo sobre as ruinas do E- 
vangelho ( sacrílegos , mas inúteis 
projectes ! ) Esta destruição <3a Gr-» 
dem Religiosa , devia necessariamenr 
te conduzir os desasizados, frea^tiT 
cos , e iT;UÍto volúveis Francezes^ 
para a destruição da ordem polití* 
ca , e civil, em que os Povos tran* 
quillamente exlstião. A huma á^*- 
graça se devia succéder a outra , sem 
que as cabeças , que se dizião cal« 
culantes , podessem prever o profun- 
do Abysmo em que se hiao preci* 
pitar a si , e precipitar os homens. 
França deve as suas desgraças áquel- 
]es mesmos Génios , a quem ella 
adorava , e reconhecia como timr 
bres , e brazões da espécie humana j 
formarão a sua ruina politica com 
aquellas mesmas luzes , com que di- 



C "I ) 

rião que illustravão os Povos. As 
6uas Theorias em Politica , produ- 
zirão os mesmos eíFeicos que havioo 
produzido as suas Theorias em Mo* 
raL Destes milvados enthusiastas 
nascerão os abalos, que tem sotîrido 
os Thronos da Europa. A anjura- 
çao contra os ?YÎ0Darcas , he tao 
hn'tveT?2\ como a Seita que a for- 
mou. Tiverão , e ainda conservão 
ramificações muito espalhadas , e 
aindâlavra sua pestifera comagião. 
He verdade que os olhos do homem 
Christão, e verdadeiro íiel , desco- 
brem hum manifesto, eseusivei cas- 
rígo da Justiça Divina contra esres 
ímpios mnchinadores da destruieãa 
da at^thoridade Monarchica. Quei- 
xavão-se que vivião debaixo do ju- 
go do poder arbitrário , e estão ge- 
mendo agora debaixo do mais atroz 
despotismo , e mais pezada tyian- 
nia que os Séculos virão. Nem hum 
só dos que tanto escreverão , nem 
iium dos ocos Declamadores , que 
âturdião o Mundo com suas lamen- 
I z 



( 112 ) 

f3ç6esr,vâ proraertião aos Povos a 
felicidade no abatimento da Monar- 
chia , colheo o mais pequeno fruto 
das suas fadigas ; e se algum délies 
existe encapado ao ferro , ^o degre- 
do , e á proscripçáo , he para per- 
manecer obscura , e desesperada tes- 
temunha dos males que causara aos 
seussemeliiantes. O homem de bem, 
o verdadeiro Patriota , o Portuguez 
virtuoso , desejaria com todo o co- 
ração remediar tao grandes, tao fu- 
nestos males , cujos syriTptoraas- se 
tem manifestado tanto em alguns de- 
sertores da nossa conhecida fidelida- 
de , e adhesao aos nossoi Principes, 
Hum dos prmeiros remédios do mal , 
he conlíe:elIo ; e hum dos grandes 
serviços feitos á Pátria , 'eá Relk 
gi^o j he manifestar estas maquina- 
ções surdas , esta > marchas das tré» 
vás , e âã perfídia , para pôr^itï 
câUtéla ânimos innoce/ites , e-véd^r 
desta maneira, que se desenvolva o 
gcrmem pernicioso da desordem , e 
auarquia. Assim se estreitarão mais 



( 113 ) 

OS ilaço^ que unem os verdadeires 
aiHîgos da Pátria 3 daReli^áo, e do 
Thrcno. 

Algumas almas tímidas ^. € pou- 
co seosiveis á deliciosa impressão de 
iuima consciência pura, e o^^ie, se fe- 
licita com o coaheciraentõ de haver 
cumprido com os deve/es Patrioâ» 
cos.,; poderão dizer , que me arris- 
co, íbu iro na manifestação destçs ií^ 
pios segredos, e que poderei iocor- 
rer m mdjgnaçao dos Peareir-cs Li- 
vres , e íi.uminados que formigão 
entre nós. Em primeiro lugar , que 
eóíâ^ão por pusillanime que seja , 
wmerá hum bando de miseráveis 
obscuros, e a:é famintos , hum tro- 
pel de ignorantes iníatuados , huns 
autómatos verbosos , íâoestaveis nos 
Bore.juins como os mesmos bancos 
em que se assentao ? O primeiro de? 
ver do homem honrado he denun- 
ciar esta pesrifera canalha ao Tiibu- 
nal do Género Humsno. Misères 
Pip;nieos ! Qjem pod.rá temer e^ 
peainhar esies insectos , que ainda 



( "4) 

entre nós se atrevem a militar de- 
baixo das ordens de hum ridiçulo 
novellista , que ao longe ladra , tris- 
te, e indigente Redactor do Correio 
Braziliense. Sao estes os homens te- 
míveis cm quem não assoma o me- 
nor rajo de sizo commum ! Armão- 
sede insultos , mas estes insultos 
são pulverisados de hum só golpe 
pêlo sagrado fogo do Patriotismo. 
Nunca os temi, e nunca me^caiei, 
nem nos calamitosos dias do nosso 
captiveiro. Perigasse a minha exis- 
tência , eu appareceria com hum me- 
recimento diante de Deos , e ainda 
agora morrena contente , se a mi- 
nha morte salvasse a liberdade -da 
Pátria , a conservação do Throno^t 
e a gloria da P,.eligião, ^n 9,^ 3 

Conheça pois o Povo Portoguex? 
quaes fòrao as manobras dos amoti- 
nadores no abatimento da Alonar-^ 
quia. Não quero que o meu traba-v 
lho tenha agradecimento , eu já de> 
ante-mão o levo em cumprir todos 
os deveres que de mim exige a mi-* 
Ilha amada Pátria. 



( un 

r^ '. >: kili>r ' — <^ 

-oietîo SEGUNDA PARTE. .. 

Conspiração Aos SoHstas da RtheU 
. Hão contra os Monarcas , e prU 
- mciras maquinações , que pre-^ 
■^^pardrao a fatal Revolução Fran^ 
,. iceza^ 4 

o??o . a 

xTl Qdcîîes mesmos homens, que 
se diziao Filósofos , e que conjura- 
Fâo na ruina do Christianismo , sâo 
os ra^smos , que conjurarão tambeni;, 
na ruina dos Monarcas, Os anaes j 
e as memorias existentes dos mes- 
mos damnados Sofístas , são as pro- 
vas manifestas de huma semelhante 
conspiração. Além destas authent iças 
eoníissoes , vemos em seus escritos, 
que até se gloriavão de haveretn 
conspirado contra os Reis , como 
havião conspirado contra a Religião 



( Itó ) 

ác Jcsu Christo. Elles mesmos des- 
cobrem , € publicão todos os-artifi- 
cios de ambas as conspirações r « 
nos assòi^líuo a constância, que tive* 
rão em começar , e continuar estas 
tramas como hum verdadeiro titulo , 
€ credor do- nosso rcspeiiQ , eadmi-^ 
facão. . . . 

O primeiro testemwjího de <^ue 
a Historia' se deve lembrar , ^^^ o 
de Condorcet, Depois de h ater re- 
presentado como rebelde , e como 
Ímpio hum papel tao notável em a 
Revolução , este entonado Solista, 
intenta y em Jiuma miiko. magra pro*- 
duccâo, descobrir a hnarA:ha do eri^ 
genho humano na escola da rírzaOé 
SuppDC seus leitores eh -'gados ; ao 
meio do Século XVÍÍI., e eis-aqui 
arrama, que elle nos paten éa co^ 
ïfDO huíH tioféo de sua Filosofia ini* 
eendraria*- . ■■ . \m'a:i> 

:j> De repente se levantou , GíZf^ 
narçceo. na Eoropa huma ciasse de 
homens menos occiípados em inda- 
gar 3 e d\íscobrir a verdade ^.que eai 



( 117 ) 

propagalla : homens que se votarão 
á perseguição das preoccupacóei; nos 
mesmos asylos Cin que o Clero , as 
Escolas, os Governo? , e Corpora- 
ções antigas as tinh^o acolhido , e 
protegido; homens que fizerão glo- 
ria de destruir os erros populares, 
mais ainda do que dilatar os iimires 
dos conhecimentos. 

Em Inglaterra Coijins , e Bo- 
limbroke, em França Bayle , Fon- 
tenele, Voltaire, Montesquieu, e 
as escolas formadas por estes homens 
combaterão a benefício da verdade, 
emprv^gando sem intermissãa as ar- 
mas , que a erudição , a filosofia , o 
engenho:; e o talento de escrever po- 
dião fornecer a razão tomando to- 
dos os tons , e empíegando todas 
as formas desde o burlesco até ao 
-pnthetieo , desde a compilação a 
mais sabia, e a mais va^ta., até ao 
romance , e epigramma , cobrindo a 
verdade com hum vco ,. não tao es- 
pesso que não deixasse o prazer de 
d advinhar. Amim^vao as preoccu- 



< 118 ) 

paçòes com habilidade , para' lhes 
descarregar depois golpes mais cer- 
tos , sem ameaçar ninguém, e con- 
solando muitas ve/cs os inimigos 
da razão , pareciao que não deseja- 
vâo na Reiigipo , mais do que hu* 
ma seminolerancia , e na Politica hu- 
ma semiilberdade. Atacavão o des- 
potismo, quando combatiao os ab- 
surdos Reâigiosos , e o culto , quaiv* 
úo se levantavão contra o Tyranno î 
aracavão estes dois flagellos no seu 
principio , quando mostravao que 
iião queriao mais que combater <3S 
abusos 3 dessipavâo -estas funestas ar^^ 
vores em suas raizes , quando paféP 
ce, cjue se Hmitavão ao corre âe^^ 
guns ramos ociosos , e infruetiferosr j' 
humas vezes dizendo aos amigos dá* 
liberdade-, que a suprestição , que co^ 
bre o despotismo com hum véofíiat,^ 
penetrável, deve ser a primeira vi^ 
ctima que se sacrifique ^ e a primeíí^ 
ra cadeia ique se deve despedaçara 
í)titras vezês^, pelo contrario, elles 
a deauiiciavâo tíos Despojas como 



( "9) 

trerdadeira inimiga de sen poder, e 
atemorizgndo-os com o qurídro de 
suas hjpocriías maquinações, e san-- 
gmnanos furores , raas não deixan- 
do jamais de reclamar a independên- 
cia da razão , e a liberdade de es* 
crever, como ii um direito , e salva- 
ção do. gcííero humano. Lei^antan- 
do em fim , como hum grito de 
guerra » Razão , Tolerância , Hu- 
manidade. )í 

í Tal foi a nova Fil;)sofía , obje?: 
ctQ do ódio coraiTmm das numero* 
sas classes que parece não terem ou- 
tra alma , e outra existência mais 
que as prcoccupações. Seus cabeças 
tiv^rão sempre a habilidade de es« 
capar á vingança , expondo-se á in- 
dignação, souberão igualmente fur- 
tar se á perseguição não se escoa* 
dendo tanto, que oífuscassem a glo- 
ria de que se coroa vão '> ( Esbosso 
do quadro do engenho humano por 
Condorcet, époc. 9.» ) 

, Com eíFeito a Rehellião , e a.» 
i|Bpkdade çscQlhêrãp a pessoa, c^ 



( I20 ) 

a penna de Condorcet para expôr a 
epoca j o objecto, os meios, e to- 
dos os arfifícios da maldade dciquaj- 
lar conspirações , que primeiro se 
formarão contra a Reiigáo , e de- 
pois contra os» Monarcas. E este 
Adepto tão especialmente iniciado 
nos nivsíerios ik>s So6siasdeo a co- 
nhecer tom evidencia que-. Ov jura- 
mento de destruir os Tfcronos , se 
devia seguir immediatameme ao de 
destruir os AJtares. Elle retrata ao 
c^naturai os Soiistas seus Confrades , 
^cjusndo diz , que elles tomavLO to- 
dos os tons , e empregavão todas 
as formas , aivdmando de hum lado 
os Soberanos para os animar contra 
a Religião , e de outro lado con* 
temponzavão com a Religião, pro- 
curando tornsr-lhe odiosos os Sobe- 
rariOs , e depois disto clamando que 
a Religião era a primeira victima 
que se devia sacrificar , para çami'- 
(.nhar por este estrago , á ruina , e á 
r. morte dos Monarcas. ,? 

Não he só a confissão de Con^ 



( «I ) 

áorcef a que nos attesta a reiîniao 
de ambas as conspirações. Quasi ro* 
dos os Sofistas que supervivérao aos 
seus primeiros autliorcs , para serem 
fesremunhas de seus eifeiros em â 
Revolução Franceza , trahallião por 
artribuir esta gicria aos seus respe- 
ctivos Patriarcas. O athco Lamt- 
iberie apenas vio chegar a Revolu- 
ção, gritou logo >> aproximárão-se 
os -d irosos instaures , eai que a. Fi- 
Jbsofia deve apnarectr triunfanle.- 
Seos mesmos mim gos confosao eue 
ella produzio cjs acontecimerros qiie 
diçringuîrao o lim do Século pa^ss» 
do. O mesmo Sofista se^ listnigera 
t?6m a esperança de que produzirá 
os'iBesmos eífeitos até no Ex?ypío , 
fia Assyria , e na Índia ( v»^ cbs. sc- 
iure a fysic. hist. nar* diseurs, prc- 
ikn.) Ó Comentador, e Contisua- 
idor de João Jaques , prcmecte- a 
fwesma ventura aos Sofiftas (Suppl. 
^ao Contrat, social j.^ pan. Cap.- H.) 
Apenas se atacou , e se demoli© a 
©aetilha . oSofisia Aifocx^a-escrevep 



( 122 ) 

a hum Cavalheiro , que detestava â 
insurreiqão :=: Senhor Conde , nao 
se illuda , e repare , que isto náo 
he acqao de huma tempestade , a 
Revolução e?íá feita, e consumma- 
da ; ha muitos annos que os maio- 
res génios da Europa a haviâo pre- 
parado , e em todas as Cortes tem 
sequazes , e partidistas. ( Inda mal 
que tantas provas desta horrive! ver- 
dade temos visto em a nossa Lis- 
boa») 

Estes testemunhos , e outros ain- 
da mais indubitáveis , e sobre tudo 
os elogios , que ressoarão tantas ve- 
zes na Tribuna dos Legisladores Ja- 
cobinos 5 a favor dos Soíisras , não 
nos deixáo lugar á menor dúvida 
sobre a conspira^^ão tramada de mui- 
to longe , contra o Throno , por 
aqueiles Adeptos da impiedade, que 
depois se tornarão em Adeptos da 
RebeJlião. Com tudo, Voltaire não 
representou aqui o mesmo papel , 
que havia representado nas conspira- 
ções contra o Altar. Entrou nesta 



C '23 ) 

eonipiração quasi a seu pezar , e le-^ 

vada, ou arrastrado pe!a indole do 

sea álosoíisir.o , e pelo exemplo de 

seus mesmos discipuîos , pouco in* ri 

terveio aqui asna propria inclinação*'*! 

Atnnva os ^Soberanos , se podessêi» 

achar €m todos apad rinh adores .dá>i 

sua impiedade. Vós amais a raaão^^ 

e :a hberdade, lhe escrevia D'x^ieni*t<- 

b^t ■, >€ não se pode amar huma y p 

sem querer liem a outra. (19 deja-^ 

neiro de 1^69.) Esta razão, conti- - 

núa-elle , líaó he mais.que a fifoso- 

fiav, -.e esta liberdade não he rnais^-^ 

que a4iberdade Republicana. Comf- 

etieitcK^^ -ainda que Vo^K-aire tivesse^"- 

alguma affeicao aos Reis , e ao»i- 

Grandes, ainda que í\\q na suaca-î^i 

sa de campo representasse aparte de-'-" 

huma Personagem illustre , vio-geP^ 

esrei>oinem , sempre inquieto em suaêX^ 

cartas e escritos , passar Insensivei-- ^ 

men:-é de todos os principies dsit* 

igualdade, e liberdade -anti-religio-^" 

sas^,- a todos os da igualdade^ e li--/ 

b^^dadc anti-íraonar^quíCAs. Jíòi^ex.^^j 

K 



( 1^4 ) 

na primeira edição de suas Episto» 
las se havia comentado com dizer : 

3) São diversos os môrtaes, 
í> Seus estados sáo iguaes. 

Seus discípulos quererião na ver* 
dade , q^e elle dissesse, e escreves* 
se antes o inverso de huma seme- 
Ihanie trova: 

>> Ha nos mortaes igualdade, 
» Nas ordens diversidade. 

Tudo isto conseguirão deste dó- 
cil mestre , temeo ficar abaixo de 
seus disc'pulos , c envolveo-se nos 
seus senti menros , írostnmdo o mes- 
mo odio aos Reis, que havia mos- 
trado á Religião. 

Natureza nos deo cinco sentidos 
Os Monarcas tem mas? Seu corpo, 

e alma 
São feitos ci^outra espécie , ou de ou- 
tra massa ? 

(V.Var. daEdi^ao deKelI.) 



( iif ) 

Esta foi â mésma linguagem,^ 
que se escutou á Populaça , no mo- 
mento de desfhrortarem Lurz' XVL 
Com tudo Voltaire, que linha pos- 
to em versos estás rapsódias do vil 
Jacobinismo , íiuctuou ainda entre 
os Reis 5 e as Republicas. De hum 
lado não podia deixar de admirar 
os Soberanos , cuja historia elle es- 
crevia , de outro indo considerava 
as Monarquias como hum governo, 
debaixo de cujo jugo o espirito hu- 
mano permaneciaF em escravidão , 
( Carta ao Conde de Argenson 8 de 
Agosto^ 1743)5 c escrevia também z 
D'Alembert (guardai-me o^ rtieu se- 
gredo sobre tudo dos Reis , e dos 
Ecciesiasticos. ) (12 de Dezembro 
r/f 175"-;. Pouco apouco se foi cos- 
tumando a descarregar golpes contra 
os Reis" , e contra a Nobreza , e 
muito mais contra òs Ecclesiastkosi 
Eis-aqui o que elle tinha feito de- 
clamar nas fatíoascto Théaíía 

K 2 



( ni ) 

55 Esses Padres não sao tudo o que 
o Povo 

3í iCégo até agora , c crédulo ima- 
gina : 

3>, Augmenta seu saber, nossa igno- 
cia. 

Édipo Trag. 

Não houve miserável casa de 
Opera , onde se não repetisse mil 
vezes depois : 

99 Hum Soldado feliz, foi Rei pri- 
meiro , 

» Não carece de Avós, quem ser- 
ve a PaLria. 

Merope Trag. 

Este? versos forão tão caros , e 
preciosos aos jacobmo? , porque Vol- 
taire soube encerrar nelies com gran- 
de dexrtr.dine tcdos os princ.pios 
da sua Revojuç|-3. (Quanto mais se 
avr nçava em 'dade , mais suas dif- 
férentes obras se enchião de pança- 



X IÎ7 ) 

das , e sarcasmos contra os Reis, 
Em fim nós o veremos declarado 
Chefe 5 e Presidente do Club , em 
que 03 Sofistas continuarão com o 
maior affinco sua conspiração contra 
o Throno. Alguns dos nossos Re- 
volucionários pprecião desconhecer 
os serviços que elle lhes havia feito 
nesra matéria. Condorcer o vingou , 
dizendo que =: sem Vohaire ainda 
a Europa roda estaria supresticiosa , 
c que continuaria ainda a permane- 
cer escrava. ( Vid. de Volt. Eàiqâo 
de Kell. ) Os SoRstas do Mercúrio 
Francez assentarão que esta apolo- 
gia de Voltaire era muito fraca , e 
escreverão zz >> Parece que he im- 
possível descrever dignamente a^ in- 
finitas obrigações, cm q-jc o género 
humano deve estar a Voltaire, o As 
circunstancias da actual Revolução 
não dão huma excel ente occasiao 
de as publicar, =; Vohaire nãovio 
tudo o que fez , mas elle fez tudo 
o que nós estamos vendo. Os obfei*- 
vadores illuminados , os que soube- 



( I2Í)) 

rétn escrever a Historia , provarão 
/aos que sabem reflectir, que o pri- 
/meirp auihor desr^ grapde Re vol u- 
rqm, que espanta a ÊMrOpa, e que 
<íerraina a esperança entre todos os 
Povos , e a inquietação em todas as 
Cortes , he seíiri dúvida Voltaire. 
Foi elle o que fez alluir amais for- 
midável barreira do despotismo 9 o 
poder Religioso , c Sacerdotal. Sc 
clie não quebrasse o jugo dos Ec- 
cleçiasticos , nunca se quebraria o 
dos Tyrannos. Hum , c outro peza-; 
vão juntamente sobre as nossas ca^^ 
beç^s, e seconservavao tão unidos, 
ç ligados que saçodi4o q priweiro, 
era infallivel a ruina dp outro. A aly 
ma do homem só pára na sua inr 
aependencia , quando cahe na escra- 
vidão. Voltaire a resgatou costumanf 
do-a a, julgar por tod^s as face^ 
aquelles que a assoberba vãa O Juí- 
zo dos sábios , prepara as Revolu- 
ções , e çi Povp 5 hç qv^em as con- 
clue. ( Meifû. ik Fraííf4 secçta fen 
r4 7 ^€ Jg(hSto de 4790,) v-^io^í^v 



( 1^9 ) 

Desta arte os Soíísras conjurados 
reconhecião , e publicavão a pane 
que Voltaire tivera na Revolução , 
que começou pelo assassino dos Ec- 
clesiasticos , para conduzir Luiz 
XVI. ao cadafaL^o. Se os serviços 
de DAlembert não se annuncião era 
todos os seus escritos públicos , as 
suas cartas a Voira ire , não são na- 
da equivocas. Elias d'zem com as- 
sas clareza , que elle fizera con ra 
os Reis , como contra Ghristo , tudo 
o que lhe era possivel fazer , sena 
se expor á publicidade, sobretudo, 
fazendo executar pelo"^ outros o que 
*elle não podia executar por si mes- 
mo. Observa-se este homem surda- 
mente turbulento , humas vexes dan- 
do por cartas parabéns a Voltaire, 
por ter contribuido pa'-a a propaga- 
ção dos sentimentos de hum Filoso- 
fo Republi ano juntamente cm a 
liberdade, exhort.mdo-o a combater 
pro arts , é^ focis , e 'ogo queixan* 
do-se de não po'ier combater como 
elle, c pela mesma causa , confes- 



'( 130 ") 

s2ndo que tinha as mãos ligadas pe- 
lo despotismo ministerial , e sacer- 
dotal , e finaimcnte não querendo 
que o seu Confrade ignorasse, que 
conservava dentro de seu coração 
tanto ódio , como elle con.-ervava 
aos Desporas. (Cart, a Volt. n) de 
y^n, de 1769, e 25* de Janeiro de 
1770.) 

Poderão dizer entre nós os se- 
quazes desta cáfila devastadora , que 
se pode muito bem aborrecer o des- 
potismo , sem detestar os Reis. Pois 
saibão , que os Déspotas contra quem 
clamavao , e vociferavao Voltaire , 
e D'x\Iembert não são os Impera- 
dores da Turquia, do Mogol , ou 
da China, são os Reis , debaixo de 
cujo dominio os Sofistas vivião na 
Europa. Como Superstição , Fana- 
tismo , e Religião são para elles hu- 
ma mesma coisa , assim também es- 
tes nomes de Déspotas , Reis , Ty- 
rannos , Soberanos são sinonymos 
na sua escola. . ^ ■ 

.;íA impiedade de Voltaire tinha 



( rsi ) 

produzido este ódio ao poder Mo- 
nárquico: este sentimento £m o pri- 
meiro gcÁo da Revolução. Os sys- 
xemas da Seita o corroborarão , e 
foríalecêrão. Hum Adepto , que sen- 
do Ministro de Luiz XVI. se deve- 
ria oppór CO -n maior denodo, e vi- 
gor a es^as idéas contra aauthorida- 
de dos Reis , foi o Marquez de Ar- 
genson. Para o chamar á Hoílanda , 
Voltaire lhe propunha sempre a igual- 
dade, a liberdade, as municipalida- 
des republicanas , de que elle gosta- 
va , e que observava naquelles pai- 
zes. O Marquez de Argen?on que 
fazia mais alguma coisa, se as esta- 
belecesse em Franca. A este malva- 
do se deve a primeira idéa da nova 
divisão do Remo , em outros tantos 
estados m.enores chamados no minis- 
tério de Necker administrações Pro- 
vinciales, e no domínio revolucioná- 
rio de Target, e Mirabeau , Depar- 
tamentos. Desde o primeiro passo 
que deo Luiz XVL para estas ad- 
ministrações ^ as Províncias se eii- 



cherão àt Políticos , cjue não dèlxa- 
váo ao ^ei mais do que o odioso 
da autlijriiade. Antes di Revolu- 
ção jí existia entre eilas huma con- 
respondencia , e huma verdadeira li- 
ça, para seguirem hun plano uni- 
forme en tudo aquillo qu? devião, 
GU conceder , ou negar ao Rei , e 
Luiz XVI. foi desde log) para es- 
tas Províncias o que Target , e Mi^ 
rabeau quizerão , que elle fosse. 

Ao iWarquez de Argenson suc- 
cedeo Montesquieu com seu E^piri' 
to das Leis, Este livro está cheio 
de erudição^ porém fudo o que os 
Francezes nelle aprenderão foi juî- 
garem-sc escravos dos Reis , persua- 
dindo-se que nao chegaááo a ser li- 
vres , sen 10 quando chega>sem a es- 
tabelecer a^ueila disuncqão de po- 
deres , qie elle tornou tão famosa, 
ou en fat ca. Poder executivo , po^ 
der legislativa , poder judiciûria. 
Porque onde quer que o poder Ic^ 
gislativo 'íeache unido ao poder exe* 
cutivo, camo os Francezes viâo no 



( 133 ) 

seu Rei , acabou-se a liberdade , por* 
que deve-se temer que o mesmo Mo- 
narca , ou o mesmo Senado facão 
Leis tyrannicas para as executar 
tyrannicamente. ( Èsp. dí:s Leis Liv.^ 
IL Cap. 6.) 

Havia muito tempo que 05 Reis 
promu ígavao Leis em França , e os 
Francezes ainda não sabião que ti- 
nhão por seus Monarcas T>éspjjtas , 
e Tyrannos, Elles amavão estes 
Reis , e até erão conhecidos p:^Ia 
sua adhesâq a estes Reis , e nenhum 
Povo amou , e até he impossível^ 
que elle ame os Déspotas, e os Ty- 
rannos, Hum Déspota , hum Tyran- 
no he o homem menos aecessivel pa« 
ra o seu Povo , e o revolucionário 
Garat escreveo , que o Throno dos 
Reis de França era tão accessiv<íl , 
que os voíos da Pátria sempre che-> 
gaváo a elle. A Franqa prosperava , 
pra o Império mais rico em habitan-» 
tes \ o Commentador de João Ja^ 
quês nos diz > qi>€ a sua população 
ifia sempre ^m augmentQ , e qutj 



(IH) 

80 no reinado de Luiz XV, tinha 
crescido c )m miis dois m'IIioes , e 
quinhentas mil ai nas, (Supl. ao Con- 
tr. socialj ejoão Jaques rinha ditoi 
O Go/crno en que os Cidadãos po» 
voáo , e se multiplicâo mais, he in- 
fallivelmente o m^*lhor * pelo contra- 
rio , aquelle onde o Povo decresce , 
c míngoa , he o peior , e continua 
— calculadores , \r\'^ál , contai , e 
comparai — VIontesquieu em lugar 
de medir, não rinha feito mais que 
hum systema. Nao o accuse mos da- 
quellas obscuridades voluntárias da- 
quell^s innocentes artifícios , a quem 
D'Alembert di tanto merecimento, 
(Elog. de Montesquieu ) digamos 
antes que elle não tinha comprehen- 
dido toda? as consequências de seu 
systema. Elle fa 'ia pela' Franv:^a tu- 
do quanto seus inimigos quererião 
iazer coíitra a França juntos no Con- 
gresso de Haia em 1Ó9Í , quando 
jurarão não depor as armas antes 
que os Reis de França ^cacsem su- 
geitos aos Estados G<íraes de se» 



( i3f ) 

Reino. Elle foi o pai daquella com* 
niissiáo legisladora , que se apossou 
des Soíiíjtas , dos Advogados , dos 
Mediccs , dos Caixeiíos, e de vin- 
te milhões de ferneticos 5 que senão 
poderão jamais entender huns aos 
curros , sem que houvesse alguém 
que os entendesse a elles , depois que 
o ptder legislativo lhe cahio nas 
mãos. 

João Jaques Rousseau appare- 
ceo,.e ccn^ummou a obra de Mon- 
tesquieu. Discorreo como hum Al- 
deão Democrafa srbre os princípios 
de que ^ on^esquJeu só tinha tirado 
consequências favorave-s á sua Aris- 
tocracia — Disse pois o esquentado 
Jaques que >> o maior de todos os 
bens era a igualdade , e liberdade ; 
que não dava huma passsda , que 
não encontrasse ferros ; que o poder 
legisla: ivo não podia pertencer se- 
não ao Povo i que o Povo se nao 
podia submetrer a nenhum outro So- 
berano i que este Povo a pez ar de 
todos .os seus juramentos não perma- 



( 13^ ) 

nece ligado a governo algum esta- 
belecido. Todos os seus ajustes , não 
são mais que huma formalidade pro- 
Tiscria 5 que el4e dá á administração 
'até ao ponto em que lhe apraz dar- 
Ihe outra muito diversa : que a di-* 
gnidade destes homens charaadog 
Reis , não lie mais que huma cora- 
missão 3 hum poder de que o Povo 
os fez dcpozitarios , que elle pode 
limitar, modificar, assumir, quan- 
do bem lhe parecer. >y (Contr. soe. 
passim.) 

Os Sofístas se apossarão com an- 
ciã dos prir;cipios de Montesquieu^ 
e de todas as consequências que dél- 
ies firou o Jaque . Tinhao até en* 
t^o caminhado sem ordem , e sem 
systema contra os Soberanos. Vol- 
taire tinha largado mil sarcasmos , 
e os Adeptos não fazião mais que 
repetiUos , então se ajuntdrâo , <; 
adoptarão todas as idéas Democrá- 
ticas do Sofi-ta de Genebra ; forma- 
rão' por frm a liga refinada porCon* 
dorcec, aquelia liga , cujo objecta 



I 



( 137) 

era cortar pelas proprias raizes as 
duas grandes arvores da Rei gião , 
e da Morarquia , para lhe? substi- 
tuir a arvore da sua I herdade , e 
igu 1'iade. Seus Adeprcs 5C multi- 
plicarão entre os enxan^e? do? escri- 
prores , com especialidade entre os 
Jorn listas Didr.stas ^ e Publicistas 
tão cntonadcs , corro ignorantes, e 
ir.encirosos. Souherão ordenar a mar- 
ca , ecittribuir os papeis , huns con- 
tinu ^-ráo mais espec almente a sua 
guerr.í contra o Altar , outros con- 
tra o Throno. Mas desde o onno 
de 1762 até á Revolução , poucas 
producçoes apparecêrão destes ver- 
mes da litterarura, e tedioso empre- 
go gazernl , que não viessem des- 
carregando os m.ais tunesios golpes 
cont-a o mesmo Throno , e Altar. 
O MunHo se vio innundado de suas 
dintribas contra os Soberanos, e de 
suas blasfémias contra P'eos. 

Montesquieu tinha d to ,* que he 
iruito difficil ser virtuoso em hum 
governo Monárquico. Helvécio re- 



( 138) 

'forçando a liçâo , ensinou no Povo , 
que a propriedade deste governo he- 
embrutecer , e avjJtar os espíritos ; 
que a verdadeira Monarquia nao he 
mais que huma constituição imagi- 
nada para corroiviper os costumes, 
e escravizar os Povos ; e que por 
virtude da constituição deste gover- 
no , CS mesmos Povos são arrasrra- 
dos invencivelmente para o avilra- 
menro. 5? ( Prefação do Tratado — ^^- 
Do Hom.) ' : 

Jaques , o plngiario Jaques , ti- 
nha escrito , que se a authoridade 
dos Reis vem de Deos , he como 
as doenças- Raynai lhe succedeo pa- 
ra nos dizer , qu?? os Reis sâo Bes- 
tas ferozes , que devorão as Nações 
(que diria este grande Arquitecta 
da Revolução, se a ^ua inquieta exis- 
tência tivesse chegado ao Império 
do humano ,ecarinho:rO Bonaparte?) 
Outros vierão depois para nos dizer 
C)ue os Reis sáo semelhantes ao Sa- 
íurno da Fabula .' que devorava seus 
próprios filhûs.Xiue o governo Mo,^ 



( 139 ) 

narquico pondo forças estj-anhas nas 
mãos cie hum só homem , deve por 
sua mesma natureza , tentallo a abu- 
sar de seu poder para exercitar o 
despotismo , e a tyrannia , que são 
os mais terríveis ílagellos das Na- 
ções. Cará para encarecer isto mais , 
veio dizer aos Povos =: vossos Reis 
são os primeiros algozes deseusvas- 
salios : a forca , e a estupidez sáo a 
primeira origem de seu Throno (e 
são estos os mesmis-imos Francezes 
que acciamarso Bonaparte! ) (syste- 
mn da Razão) . Seria preciso copiar 
volumics inteiros para repetir todas 
as declamações sediciosas , de que 
os Adeptos encherão as suas produc- 
çõcs. Diderot que tinha engrossado 
com eilas o seu — sysrema da Na- 
rdreza — as reúne todas neste úni- 
co voto frenético — quando terei 
eu o prazer de ver o derradeiro Mo- 
narca enforcado com as tripas do 
derradeiro Sacerdote ? =: 

Desde o anno de 1765' , este 
ódio dos Sofistas, c o juramento, c 



( HO ) 

voto de desn'iîir o Throno com o 
Altar , erão já tão evidente? , e ti- 
iíhão Já em Paris hum tât) grande 
número de prosélitos , que p-oucos 
diâs bastarão ao Lord Ortbrt , mais 
conhecido pelo nome de Horácio 
Walpole, para descobrir toda a ex- 
tensão da conspiração- Citarei para 
prova a sua carra ao Feld Mardi ai 
Conrrav , darada deste mesmo anno 
a 28 de Outubro , e œnceb;da nes- 
tes termos. 55 Poucos dias de vida 
restao já ao Oelhm , niorie infalii- 
velmenre. A perspeciva de sua mor- 
te enche os Pilosofos da maior ale* 
gíia , porque temem seus esforços a 
respeito do restabelecimento dos Je- 
suítas. Falla^vos dos Filósofos , e 
dos seus sentimentos , vos parecerá 
coisa esfrrmha, ehum desusado des- 
pacho de Politica. Porém, compre- 
hendeís vós acaso , que coisa sejao 
Filósofos , e o cjue signifique esta 
palavra ? Primeiramente elie designa 
aqui quasi todo o Mundo , em se- 
guPÁÍo lugar , significa homens , que 



( 141 ) 

d'/baixo do prerexro. da guerra , que 
elles iazein ao Cstholicisino , huns 
procurão a subversão de toda a Re- 
ligião"^ curros (e destes he o maior 
rsiímerr:) a desrruição do poder Mo- 
nárquico. Taivez que me digais, co- 
mo posso eu saber isto, que apenas 
seis semanas ha que esrou em Pa- 
ris , levando as primeira? três fecha* 
do no meu quarto? Sim, porem nas 
primeira? rresfiz innumeraveis visitas, 
e em rodas eilas ouvia estes diseur- .^T 
SOS. Ccníinado , co.uo estou na mi- ^."'''"'5 
nha casa, recebo centos , e centos "^ "'^''' 
de visitas, e tenho tido mui longas.^ 
e circunstanciadas conversações com 
muitns pessoas , que penão como 
vos digo , e co:n outras de senti- 
mentos opposées 5 mas que estão mui 
bem persuadidas que este projecto 
existe. Uitimamente entre outras ti- 
ve comigo dois OfRciaes , ambos 
elles de idnde madura. Cusrou-me 
muito embaraçar que nao viessem 
ás mãos i e nó calor da disputa me 
descobrirão coisas , em cujo conhe- 
L 2 



( 142 ) 

-cimento eu não poderia entrar se- 
não depois de muitas indagações. 
(V.obr'as deWalp. T. V. Liv. 28.) 
■f- Os progressos , que esta carta an- 
nuncía . se íizerao tão públicos , e 
táo evidentes, eue aquelle mesmo 
Rei da Prússia , que por tanro tem- 
po proregeo , e suas conspirações 
contra o Altar , não se pode occul- 
tar a si mesmo as ccnsequeneias fa- 
taes que ellas deviao ter a respeito 
Teste- do Throno. Indignado , e estimula- 
munhodo^Q Qg denunciou ao público , como 

■o^^ .^ homens excessivamente dc?preziveis , 
Prússia. , i- ' 

e ao mesmo tempo desgraçadamen- 
te perigosoS'.^ >> Os encyclopedistas , 
dizia elle nos seus diálogos dos mor- 
tos , reformão rodos os Governos : 
a França , segundo seus projectos ^ 
ha de vir a parar em iium estado 
republicano, cujo Legislador, será 
o Ceometra D'Alembert. Os ency- 
clopedistas sao huma seita dos cha- 
m.ados Filósofos , nascidos entre nós , 
ha dojs dias. Imaginao-se superio- 
res a tudo quanto a antiguidade pro- 



(143) 

diizio neste género. Elles ajuntao ao 
dtsjíoro , e desCuramen:o dos Cyni- 
cos , a impudência de publicar quan- 
tos paradoxos lhes vem á cabeça. >> 
Depois de os haver retraíado como 
hum tropel de vadios , e desvaneci- 
dos , o mesmo Frederi^ro não ce.-sa 
de clamar , e de aconselhar aos Reis , 
que mettáo esres do. dos prejudiciacs 
na casa dos Orares , para que alii 
possão ser á sua von:ade os Legis- 
ladores d' outros Orares seus seme- 
lhantes , ou mandallos governar hu- 
m?. Provincia que tivesse merec'do 
hum áspero castigo pela sua rebel- 
lião ( Prim. Dialogo dos morros pe- 
lo Rei da Prússia) . Desgraçadamen- 
te este conselho não loi abraçado 
pelos Soberanos , e os progresses 
dos Sonstas forao crescendo a olho. 
Nós lhes podemos dar seu jusro va- 
lor , não menos que pela mesma de- 
núncia que deo desta vil canalha ao 
Parlamento de Paris Mr. Seguier , 
Advogado Geral em o anno de 
1770. 



"Af. eob 



( 144 ) 
Teste- „ Levanîou-se entre ncs huma 
dos"i\k- ^^^^^ impia , e escandalosa , huns fi- 
gistrados, ^^^^ aliucinados, huns fanático- ver- 
dadeiros , huns visionários ijlusos, 
que se arrevem a cobrir corn o man- 
to, ou capa da Filosofia. Liberda- 
de de pensar , eis-aqui o grito dos 
seus sequa-es ; e este griío se rrm 
feito ouvir de hum lado a outro la- 
do da Terra. Com hum braço que- 
rem abalar os Tbronos , e com o 
ontro , destruir es Altares» Seu in- 
tento he extinguir a crenqa , dar no- 
va vareda , nova direcção nos espí- 
ritos sobre as antigas instituições re- 
ligiosas: , e civis. Posso dizer, que 
a revolução está executada , os pros- 
élytes se multiplicáo, e suas niaxi- 
mas se propí^gao. Levantarão o Es- 
tandarte da Révolu çû o , e com es- 
ta aff/crada independência procurao 
fazer-se célebres. O Governo deve 
tremer, sq consentir ^ ou tolerar hu- 
ma Soira volcanica de incrédulos, 
que so busca sublevar os povos com 
o ridículo pretexto de osillustrar. >3 



( 14^ ) 

( Pvcquisltoria de i o de Agosto de 

O CiCro aproveirando-se desta 
occasião 5 em que os Magistrados ^e 
queixavão com tanta amargura , le- 
vou as mesmas queixas , e as mesr 
mas denúncias aos pés do Throno; 
os Escritores , os Oradores Ecciesias- 
ticos clam.avao , e brc^davão com o 
mesmo zelo , como vemos pelas elo- 
quentes Pasroraes dj Beaumoiu , e 
peias Obr^s, de Bergier , que nao 
lem réplica , e das quaes eu ouvi 
escarnecer a dois miseráveis Rábuias 
tão estúpidos Pedreiros Livre*^ 5 co- 
mo são estúpidos dois Sebasiiafiistas. 
O Bispo de Senez , e o Abbade 
Beauregard se distinguirão entre o 
Clero pela sua efficacia , e triunfan* 
te eloquência contra os pestíferos de* 
clamadores da liberdade , e igualda- 
de , a queíTí a Justiça Divina por 
visivel castigo, deo agora para liie 
imporem hum jugo de ferro , Jiuma 
alluvião de Reis, de Duques, e de 
Condes tirados dos A jogues , e àos 



( 146) 

mesmos lugares da prostituição. He 
memorável , he digna de nosso res- 
peito a espécie de inspirascão , de 
que se vio repentinamente possuido 
este ultimo j pregando na Cathedrai 
de Paris , treze annos antes da Re- 
volução , descobrindo os projectos da 
Filosofia moderna , fez resoar as 
abobedas do Templo com hum tom , 
e hum emfasi verdadeiramente profé- 
ticos , e suas palavras se verifica- 
rão com eífeiro pela Revolução. 

99 Sim (disse elle) contra o Rei , 
e conrra a Religião con^-pirao estes 
malvados. Elles tem nas mãos o ma- 
chado , e o raaitello, esó aguard;1o 
o momento favorável , para destruir 
o Throno 5 e o Altar. Sim: vofsos 
Temip'os, Senhor , serão despoja- 
dos , e destruídos , vo?s3s Festivida- 
des abolidas, vosso Nome blasfema- 
do , vosso Culto proscripto — Mas 
que escuto eu : Grande Deos que 
vejo ! Aos cânticos inspirados , que 
fazião resoar estas abobedas em 
honra vossa . succède m cantos lu- 



( 147 ) 

bricos , e profanos ! E tu Divindade 
infame do Paganismo , impudica Ve- 
nus , ru virás aqui mesmo OvCupar 
atrevidamente o lucrar do Deos vi- 
vo , fentar-te no Tlirono do Santo 
dos S m tos j e receber o incenso sá- 
crilego de teus novos adoradores ! . . 
55 Contra este Discurso os Sofisras 
gritarão — Sedição, Fanar^sir.o- — 
i.s Douíor:s da Lei julgarão des- 
cobrir nelle iuim excesso de zelo , 
com effeivO, tudo desde muito lon- 
ge se encaminhava surdamente pa a 
se verificar e^ta Profecia. Os Con- 
jurados p:;ra apressarem seu comple- 
mento tinhão lançado mão de outros 
meios , e procura vão fi-zer correr o 
veneno da impiedade , e da rebeí- 
lião até nos corações d.iquella por- 
ção do povo , que habita os Campos , 
e as Aldéas , inficionando suas mes- 
mas escolas. Com o ue. texto de que 
a esta qualidade de genre faltava a 
instrucção necessária para seus mes- 
mos trabalhos. Duque snai , e seus 
Adeptos constituindo outra espécie 



( 148 ) 

de SïOiîstas chamados Bcomvnistas ^ 
í^ue se occupavao de Agricultura , 
Commercio , Administração ^ e Co* 
branca de rendas; propozerao a Luiz 
XV. que estabelecesse , c muhipli- 
eàsse escolas gratuitas 5 em que os ra- 
pazes se instruíssem , especialmente 
nos princípios de Ágricuhura. O 
Principe, que amava sinceramente o 
povo, lançou mão do projecto com 
muito prazer, porém primeiro, por 
felicidade quiz ouvir Mr, Bertim, 
5? Ha muito tempo, dizia este Mi- 
nistro , contai ndo este facto , que eu 
observo as diversas Seitas dos nos- 
sos Filósofos , e ainda que tenha 
de me arrepender de muitas faltas 
eommettidas contra a Religião, com 
tudo, eu conservo ao menos os pria - 
çipios em toda a sua integridade , 
e pureza. Conheci , que o intento 
dos Filósofos era apossar-se da edu- 
cação do povo' com o pretexro de 
que os Bispos, e Sacerdotes nâo se 
podião empregar tocos em certas 
miudezas. Não duvidei de respon- 



( U9 ) 

der soRei — Guardaivos Senhor, 
de seamdar estes Filosofo?. Em vos- 
so Reino n'io falrao escolas gratui- 
tas, ou quasi gratuitas. Existem es- 
tas escolas em todos os Lugares , e 
AIdéas. Os Livros enviados por es- 
tes Filósofos fazem os Camponeze? 
menos laboriosos , e mais sysrema- 
ricos : receio que os não facão pre- 
gu:ço^03 5 vãos , invejosos , discorre- 
dores , sediciosos , ímpios , e em 
fim 5 rebeldes 

?) Luiz XV. se mo5trou satis- 
feito com estas razoes , porém cer- 
cado continuamente por estes ho- 
mens , me vi onrigado a combater 
a boa opinião que o fnziaa ter so- 
bre estes Economistas , e Filosofo^. 
Resolvido em fim a lhe dar huma 
prova d? seus projectos , interroguei 
muitos daquclles Mercadores de fei- 
ra , que girao pelos campos venden- 
do livros aos nisticos , e que eu sus- 
peitava serem como erão . Agentes 
do Filosofismo entre estes bons cam- 
poneses, Estes mesmos negociantes 



( «50 ) 

viîilino muitas vezes á minha casa 
de campo oíferecer-me livros. Eu 
Hie dizia — Qf^Tc livros podem vos- 
sos trazer-me ? Sim dúvida trazem 
por ahi nessas alfo.jadas Catecismos 
da Dotrina í'hri?íá . e livros de de- 
voção , Folhinhas j ou Sarrabaes ? 
Trazem Reportorios ? Sem dúvida 
são estes os livro? , que os rústicos 
podem 1er com raai^ prazer , e mais 
fruto. A estas palavras eu vi que 
ípuitos destes Zansjanos se surrião. 
Nno , me responderão elles , nós não 
trazemos estes livros , nós fazemos 
melhor forruna com Voltaire, e com 
Diderot , e outres Filósofos — E 
eu lhes tornava — como pode isso 
ser ? Cs camponeses podem a caso 
comprar Voltaire , e Diderot ? Q^Jem 
lhes deo dinheiro para livros tão ca- 
ros ? A resposta a esta questão , foi 
sempre esta. — - Nós lhes vendemos 
mais baratos que hum Lunario per- 
petuo , que CS segredes da Nature- 
za , e que a Arte de deitar Galíi- 
nhas , e de tirar Pintos sem Galli- 



( îyî ) 

nbas. Damos-lhe cada volume por 
hum rosrao , ( tiez soldos) e aiîKia 
ganhanios muito. Depois d-^ outrab 
perguntas , muitos me confessarão ., 
que nada lhes cusravao estes livros , 
que recebião grandes pacotes délies 
sem saberem donde lhes vinhao , só 
com a fídvenencía , de que os ven- 
dessem pelos campos por tão medi- 
co preço, c^uQ mais pareciao dadc-s, 
eue vendid.s. jj 

Tal era o testemunho de Mr. 
Eertin , ej^to roesrr;o se lhe ouvio 
diztr muitas vezes no seu retiro de 
Aix la Chapelle. Luiz XV. a quem 
elle deo parte , compreliendeo em 
fim o projecto dos Sofístas , mas 
apenas tomou contra elles poucas , 
e inúteis medidas. Os Conjursdos 
continuarão a se servir destes Zán- 
ganos das feiras. Huma dss provas J. 'Jn 
que nem todos os Ministros pensa- 
rão como Mr. Bertin , he que Mr. 
Bourdon primeiro Juiz de Lisicux , 
e encarregado da Policia rendo manr 
dado prender hum destes Adcllos, 



?£j 



( rs^ ) 

que Vendia ao povo os Jivros mais 
íiTipios , e sediciosos , e a quem o 
módica preço porque os dava tiiilia 
feito suspeito , entrando na cadeia 
com toda a frescura , só preguntoii 
em que dia partia o Correio para 
Paris , e em que dia poderia ter 
resposta da carta , que hia escrever ? 
Com a re.-^posta , quelhederáo, tor- 
nou , ora pois , nesse mesmo dia vós 
tereis ordem de me pôr nomeio da 
rua , e de me entregar os livres que 
me confiscarão. A ofdem veio cqbci 
eíFeito no mesmo dia que elle tinha 
marccido. 'íii^/r í 

Acade- Resta em um saber de que co- 
mia secre- vil de ladiôes partiao estas obras, 
ta dc3 ou produccocs espalhadas cem tanta 
drTíl^ls- P^^-"-^^o 5 "^^^ ^^ peies campos , e 
tas ' ou Aldeãs de França , mas por todas as 
Club de Cidades , e Povoações da Europa, 
Holbac. para inficionar ^os -homens com o 
duplicado espirito sonstico de corru- 
pção , € de rebeliiãoi Os remorsos 
tie hum Adepto arrependido desço* 



( in ) 

brír^o , e patentearão esta invenenâ- 
da fente. ..:. ; 

Poucos dias depois das strQ.ckJar 
à€< de cinco , e seis d' Outubro, 
Mr. Leroy Intend, ntc das caçggas^ 
e monrari-as de Sua Mages ade.j.é 
Académico , indo jantar a caça d^ 
Mr: d^^^ngevellers , rompeo o véo 
aos íbnesros inystefios. Cahio natu- 
ralmente a cofíyetsaçao sobre .o$.''dç'- 
sastres da revoluqao. .Acabadoo-ja.ar 
tar V o. mesmo dono da casa , que de- 
pois: publicou, este facto , iáiss<'' ap 
tal Mr. Leroy, . — n Eis-aqui ren* 
des Senhor , eis-aqui tendes a obra 
da Filosofia ! „-?-t. Aterrado o Aca- 
démico com estas palavras ,, lhe tor- 
nou — 5? a quem dizeis vós íjso ? 
Ainira , que tão desgraçadameore .« 
conheço ! Ah ! Dentro em poucos 
dias eu acabarei ás mãos do senti- 
mento , e dos remorsos. — A res? 
peito desta palavra >' remorsos n 
com que elle terminava quasi tcdas 
as suas frases, se lhe prcguntou , se 
eíle havia éi tal maneira contribui* 



( 154 ) 

do para es'.a revoluçlo , que está 
- certeza lhe houveíse de causar re- 
morsos ? Sim , respondeo elle , eu 
contribui , e muito mais do que ea 
quizera ter contribuído. Eu era Se- 
cretario daSoGÍed:de , aquém vós a 
deveis , porém eu tomo a Deos por 
testeinunha , que nunca me persua- 
di queella chegasse a estes termos. 
J9 Morrerei sim de pena , e de re- 
morso^. 55 

" Obrigido a erpHcar-se sobre es- 
ta Sociedade occulta , cuja existên- 
cia era ignorada por rodos os da 
partida , o tal Académico continuou 
99 Esta Sociedade era huma espécie 
de Club, que nós outros os Filoso* 
fos tinhamos iormado. Faziamos nos- 
sas Sessões entí casa do Barão de 
Holbach 3 e receando, que se desco- 
brisse o objecto, tomámos o nome 
de >> Economistas 5» ecreamos Vol- 
taire, ainda que ausente, Presidente 
honorário , e perpetuo. Os -mem- 
bros , ou sócios principaes , erao 
D'AIembert, Turgot , Condorcçc^ 



( ir? ) 

Diderot , e também aqiielle Lamoi- 
gnon , Guardados Se) los deFranqa^ 
que se matou no seu mesmo Par- 
que , e todos aquelJes , a quem Vol- 
taire em SUJÏS cartas dá a senha da 
conspiração , ou as leiras iníciaes 
destas palavras, 5? Esmagai o infa- 
me >5 estas palavras , queriao dizer 
entre nós 5> destrui , pulverizai o 
Crucificado , e procurai abolir sua 
Religião* 

Toda esta declaração era inter- 
rompida de espaço a espaço com 
proPafidos gemidos , e dolorosos so- 
luços , e este Adepto sinceramente 
arrependido ^ continuou 53 Eis^aqui 
quaes erao nossas occupaçoes. A 
maior parte dos livros que ha mui- 
to tempo apparecem contra a Re- 
ligião , Costumes , e Governo são 
obras nossas , e dos nossos confiden- 
tes : estes iivros erao compostos em 
commum , ou por ordem da Socie- 
dade «e encarregava de sua com- 
posição algum dos indivíduos. An- 
tes que reimprimissem erão rnanda- 
M 



( 1^6 ) 

dos ao nosso tribunal , alli erão re- 
vistos j acrescentávamos ) ou tiráva- 
mos , segundo o exigião as circuns- 
tancias. Sahia a obra debaixo do ti- 
tulo que nós todos escolhiamos. To- 
dos os que apparecem attribuidos a 
Boulanger , ou a Freret depois da 
sua morre , não saiiírao de outra 
parte senão da nossa sociedade. De- 
pois de approvados , fazíamos impri- 
mir alguns em papel fíno , para 
nos indemnizar dos gastos da im- 
pressão , depois imprimia-mos im- 
mensa qiwntidade de exemplares em 
papel barato e ordinário, estes erão 
mandados aos Livreiros > e Zanga- 
nos para os venderem ao povo por 
quasi nada. Eis-aqui o que fez che- 
gar este povo ao termo em que o 
vemos hoje. Eu o não verei por 
muito tempo , porque a dor , e os 
remorsos acabarão depressa a minha 
existência. íj 

Todos sentem o horror que de- 
ve causar e^ta relação , e o horror 
qu3 inspirava ao desgrajado Adepto 



(rj7 ) 

que a fez , o acompanhou até á se- 
pultura. Em consequência desta de- 
clararão , que nos dá por membros 
de seu Ciub todos aquelles , a quem 
Volraire fallava em Jesu Christo com 
o nome de infame , he preciso ajun- 
tar a este catalogo os já nomeados 
Helvécio, eDamiiavile, Officiaes de 
fazenda, Phiriot escriptor sem talen- 
tos mas grande ímpio , e aquelle 
Sccrercrio da Academia Franceza 
>5 Ssurim >> reputado homem de 
bem , mas que por fim se deixou 
conromper com huma pensão de três 
mil livras , que liie dava Helvécio; 
hc preciso augmentar ainda este sa- 
criiego rol com os nomes do Earao 
de Holbach , do Conde de Argen- 
tai , amigo, e confidente de Voltai- 
re , do Barão Suis?o Grim , que de- 
pois detestou solemnemente sua an- 
tiga allianca com toda esta despresi- 
vcl canalha ^ também La Harpe os 
abomicou por fim , e de hum modo 
íal que se fez credor da admiração, 
.€ estima pública. Com este fgi Vol- 
Ai 2 



( IJM 

taire mais reservado; nunca uzou da 
formula ordinária quando lhe escre- 
via , como uzava com os outros con- 
jurados. 

Este Club infernsl existia já em 
1760 , porque nesta época appa- 
recerão os dois livros intitulados 
:=: Antiguidade desenvolvida := e 
Exame dos Apologistas do Christia- 
nismo 5 que o Adepto Leroy diz se- 
rem compostos por toda a Socieda- 
de , e com effeifo são dignos desra 
fonte. Havia pois vinte annos que 
este Club de Sofístas inficionava o 
Universo com producçoes tendentes a 
destruir , e arruinar o Altar , e o 
Tiirono , quando se vioapproximar a 
Revolução Franceza. Voltaire a an- 
nunciava havia muito como infallivel , 
porém accrescentando » Eu não te- 
rei o gosto de ser seu espectador, e 
testemunha yy Os Francezes cheg^o 
a tudo tarde , mas em fim chegão. 
A luz está de tal maneira espalhada , 
que ha de romper na primeira occa- 
sião. Fehzes os mancebos, que hão de 



( IJ9) 

vêr tio gríindes coisas 5) (Csrta a 
Mr. Chauvelin 2 de Março de 1764.) 

Não foi culpa sua , nem de seas 
discípulos, níío presenciarem ao me- 
nos huma parte destas subversões po- 
liticas. Já tinha dado o aba'o ás idé- 
as religiosas , queria ao menos ser 
testemunha do que elle preparava a 
todos os Governos. Nao lhe bastava 
deixar >5 como éle diz , em Genebra 
alguns mentecaptos , que acreditas- 
sem o Evangelho , queria também 
destruir todo o Governo desta Re- 
publica , para fazer hum ensaio dos 
TiOvos princípios de igualdade , e li- 
berdade , em que queria que os ho- 
mens permanecessem. 

Toda a Europa soi-ibe as pertur- 
bações , que agitarão Genebra.desde 
o anno de 1770 até o de 1782, po- 
rém o que se ignora são as cauzas , 
e os agentes secretos das revoluções , 
que destruirão seu Governo , e consti- 
tuição. Neste pequeno Estado , o po- 
vo he dividido em muitas classes , a 
dos antigos habitantes de Genebra , 



( láo ) 

ou de seus descendentes, era a li ni- 
ca admirtida aos conselhos , e prin- 
cipaes dignidades. As que ha pouco 
tinháo entrado no dominio da Repu- 
blica , gozavao da sua prorecçáo , 
mas nao cntravão jamais em o Go- 
verno público. Porém Montesquieu , 
e João Jaques vierao ensinar a estes 
homens , e a dizer-lhes que erao es- 
cravos em hum Governo , que os ha- 
via admittido , e que tinhão perd 'do 
os grandes direitos do homem , a 
igualdade , e a liberdade , e isto só por 
que erao obrigados a observar a lei , 
que elles nao tinháo feiro. Voltaire 
que receava sempre ficar atrás de seus 
discípulos, se havia declarado parti- 
dista destes imaginados direitos. Cria 
que estavão quebrantados na Consti» 
tuição de Genebra. Comeqcu de in- 
sinuar todos Qs seus novos príncipios 
á quelles inexpertos Colonos , e se- 
meou a zizania da divisão entre el- 
les ; e o Conselho convidou muitos 
para se estabelecerem em Fernei , e 
em Versoi. Comejou também a es- 



( I6I ) 

crever furiosamente a favor da De- 
inocracía , e da iniiltidâo Legislado» 
ra , com tanto zelo , com quanto n' 
outro tempo este monstro contradi- 
ctorio tinha escripto a favor da Mo- 
narchia. Nestes Libellos , q'JC elle 
fazia girar com o irrisório titulo de 
z: Idéas Democráticas , ^os Colonos 
de Genebra a:rendéráo não só que o 
mais tolerável de todos os Governos 
he o Republicano , porque nelle se 
approximão mais os homens á igual- 
dade , e liberdade natural , mas que 
he hum dever sagrado que c?.da in- 
dividuo tenha também voto no que 
diz re?peiio ao bem universal da So- 
ciedade • porque o Governo Civil he 
a vontade ce todos executada por 
hum só, ou por muitos, em viríude 
das leis que todos haiao estabelecido, 
e que em fim iodas as disrincGoes de 
nobres , e de mecânicos , náo queriao 
dizer outra coisa mais que n: Se- 
nhores , e Escravos. 7^ 

Os Sofistas náo deixarão Voltai- 
re só no campo para combater, tra- 



( 1^2 ) 

balhárâo com elle nestes grandes en- 
saios da Democracia. A estúpida Sei- 
ta niveladora o ajudou com todos os 
soccorros , e esforços de Clavier e , do 
botafogo Segere , e do Semi-Syeys 
Beringer Bovier ,6 Advogado ge- 
ral Servan ^ aquém Voltaire chama* 
va o Grão Mestre da sua Filosofia , 
concorrerão desde Grenoble com to- 
das as munições necessárias. Amea- 
çarão pois o Senado de Genebra 
com todo o furor dos habitantes do 
campo , se lhes não desse o livré 
exercício dos direitos naturaes do 
homem , affiançando-lhe a sua posse. 
(V. Ephemerid. do Cid; anno de 
177 1.) A' força de intrigas , e de 
escriptos sedeciosos , chegarão em 
fim a realizar seus intentos contra es* 
ta Republica. A sua Constituição foi 
restabelecida por Mr. de Vergones , 
porém o ferm.ento ficou intacto para 
k vedar de novo todo o Jacobinismo 
de Voltaire , quando apparecesse o 
Apóstata SouIavlCj e outros Agenteç 
do Robespierre. 



( 1^3 ) 

O ensaio que os Sofístas íizei-ao ^j^^^ ç^.^l 
ao mesmo tempo em França , nao em Fran- 
tinha outro objecto. Os me mos Par- ca 
lamentos 5e enganarão com estes 
malvados amotmaciores ; em suas 
contestataçoes com. Luiz XV. ptdi- 
r1o a convocação de Estados Geiaes 
{Cortes) , e se persuadirão vêr triun- 
fante a sua causa naqucllcs famosos 
manifestos , de que foi Redactor Mr* 
de Malliesherbes , pedindo que viesse 
aNa^:ão exercitar por seus Represen- 
tantes , a authoridade , e reassumir 
seus Direitos imprercriptiveis. OsSo- 
fistas d' Aristocracia também se en- 
ganarão como os Parlamento-^ Não 
consideravão nesta convocação , mais 
do que o meio de restabelecer sua 
antiga influencia : ignor.ívao que os 
Soíistas da Democracia estavão prom.- 
ptos afazer dominar seus Direitos de 
igualdade. O laço estava armado ; a- 
penas a Igualdade de^truisse em Fran- 
ça a distmcçâo das ordens, no mes- 
-«10 instante se levantava a canalha 
Legisladora j Voltaire c Jaques triun- 



( 164) 

fàvâo sem dúvida : Desgraçados ! o 
frucío de suas fadigas foi Bonaparte 
para esmagar a canalha Legisladora, 
c os Pedreiros livres de todos os pai- 
z€S debaixo de seus pés de ferro , e 
de sua diabólica Tyrannia. 

Com tudo nem Vo'raire , nem seus 
primeiros cúmplices deviao presenciar 
esta revolução geral , que elle com 
tanto prazer pronosticava , ecom tão 
viva esperança aguardava, impacien- 
te sempre cora sua dilação. Seus dis- 
cípulos querião ao menos que elle 
fosse íestemunha do que elles tinlião 
feiro em Paris , que era a Metrópo- 
le da sua impiedade. Havia muito 
que por hum Decreto , e por huma 
Lei pública tinha sido banido desta 
desgraçada Capital , e não podia en- 
trar nella sem se justificar das blas- 
fémias , que tinhão provocado con- 
tra elle as Sentenças do Parlamento ; 
D'x4lcmbert , e a sua Academia resol- 
verão vencer este grande obstáculo. 
A pe^ar de alguns restos de respei- 
to á Religião, custou-Uie pouco ai- 



( lá? ) 

Cíinçar que o primeiro Author de to- 
dos os conloios sacrílegos 5 eanclmo- 
narchicos , viesse gozar no seu seiO 
os frucros de rodas as suas flidigas. 
Voliaire era bem conhecido por Che- 
fe dos ímpios , mas era pouco conlie- 
cido como o cabeça das conspirações 
contra os Reis. Determinou-se quô 
as Leis se calarião a seu favor na 
sua voira a Paris. Eis-aqui tudo o 
que pertendião os Conjurados, 

Esie iiomem , cuja longa vida nãò 
tinha sido mais que huma longa têa 
de blasiemi:;s , e conspirações t^o 
formidáveis para o Throno , como 
para o Ahar, foi recebido na Capi- 
tal dos Reis Christianissimcs com 
todas as acciamaçóes concedidns aos 
Hercôs na volta de suas victorias 
contra os inimigos da Pátria. Todas 
as Academias celebrarão a sua che- 
gada , e foi celebrada no Palácio dos 
Reis 3 em que dahi a poucos annos 
iuiz XVI. devia estar prisioneiro , 
e victima da antiga conspiração dos 
ímpios. Houverão grandes festejos 



( i66 ) 

en honra do octoginarío blasfemo î 
e bêbado com as continua? acclama- 
coes , bradava :i= Vós quereis que 
eu morra de gloria ! :=: Só a Reli- 
gião vestia luto no meio destes ba» 
chanaes infames , mas Deos a vingou. 
O ímpio que tmha medo de morrer 
de gloria , devia morrer de raiva , e 
desesperação mais ainda que de ve- 
lhice. No meio de seus triunfos iiu- 
nia violenta hemorragia lhe foi dan- 
do cabo da vida. D'Alembert, e Di- 
derot muito assezoados correrão a ca- 
sa do medonho specrro para susten- 
tarem sua constância nos últimos -mo- 
mentos , porém só forao testemunhas 
da sua ignominia , e sua mesma af- 
fronta. Voltaire se vio reduzido a 
cr.amar os Sacerdotes , Ministros da- 
que]]e mesmo Christo , daquelle per- 
Tcndjdo infame , cuja ruina elle havia 
jurado tantas vezes. Existe o proces- 
so verbal de suas retractações. FoL 
lançado solemnemeníe em as Nota? 
de Mr. Momet , Tabellião público de 
Farís : aljii^se lê da me^nia letra de 



( 1^7 )• 

Volîaire a carra que escreveo a Mr. 
Gualîier , pedindo-Ihe o quizeî^se ou- 
vir de confissão , com a declaração 
seguinte , assignada pelo seu próprio 
punho. :i: >> Eu abnixo assignado > 
declaro que achando-me ha quarro 
dias atacado de vómitos de sangue 
na idade de 84 2nnos, não podendo 
ir pessoalmente á Igreja , o Senhor 
Padre Cura de S. Sulpicio quiz rer 
a bondade de ajuntar aos ourros fa- 
vores que lhe devo , o de me man- 
dar Mr. Gaultier, Presbytero , cem 
elie me confessei , e se Deos dis- 
pozer de mim , declaro que mor- 
ro no seio da Igreja Carholica , em 
eue nasci , esperando , e confiando 
muito na Divina Misericórdia , que 
perdoará rodos os meus crimes , e 
delicros. E seatéc.gora tenho escan- 
dalizado a Igreja, eu peço perdão a 
Decs , e á Igreja. Hoje 2 de Mar- 
ço de 1788, Assignsdo =: Voltai- 
re := e como testemunhas =: O Ab- 
bade Mignot meu Sobrinho , =: e 
o Marquez de Viileyieiiie , meu ami- 
§0. 



(i62 ) 

Acíisa scrí esta declaração tám- 
bcm pelotica de sua antiga hypocri- 
5Ía ? Assim parece , se considerar- 
ïTiOs , c nos lembrarmos de suas pas- 
sadas acções de Religião, explicadas 
por elie inesmo. Seja o que for : he 
cerro . que Voltaire consentie que es- 
ta declaração fosse levada ao Cura 
de S. Suípicio , e ao Arcebispo de 
Paris , para declararem se era suíH- 
ciente , e estava concebida em ter- 
mos hábeis , e capazes. Quando o 
Abbade Gualtier vinha com a res- 
posta , já lhe nao foi possível che- 
gar á cabeceira do enfermo. Os Con- 
jurados tinhão dobrado as Sentinel- 
las , e lançado mao de todos os re- 
cursos para que o chefe da Seita não 
confirmasse a retractaçao. O venerá- 
vel Presbytero achou todas as portas 
atarracadas ; c ainda que Vohaire o 
mandasse chamar , nunca mais lhe 
fallou ; só os Demónios liverao en- 
trada franca, e livre accesso áquella 
cama , em que gemia o arrependido 
octoglnarip. Bem depressa começa- 



( i«9 ) 

rao nelle as scenas do furor', e da 
raiva , que se forão succedendo até 
seu ultimo bocejo. Então D'Aletn- 
berr, e Diderot, e outra infame re- 
lê , que entulhavão sua antecâmara , 
mo se chegarão a seu leito , senão 
para serem testenTjUnhas de seu pro» 
piio aviltamento, em o aviltamento 
de seu mestre , vendo-se obrigados 
a fugir , cheios de espanto com as 
pragas , e imprecações que o mori- 
bundo vellio contra elles vomitava. 

jj Fugi daqui , bradava elle , dei- 
xai-rne , canaiha pestifera , vós sois a 
causa do mireravei estado em que me 
vejo. Fugi daqui serpentes , eu po-^ 
dia mui bem passar sem vós, e vós 
náo podieis passar ?em mim. Que 
desgraçada gloria alcancei eu com- 

V03C0 ? » 

Estas horrendas rnildicëes erao 
acompanhadas da memoria á^ sua 
conjuração coníraChri>to. Se-js mes- 
mos Adeptos lhe ouvirão , entre per- 
turbações , e medo, chamar, invo- 
car , e blasfemar alternacivanicn:e 



( 170 y 

aqaelle Deos, antigo objecto de setr 
odio , c de suas conspiraçoe?. Corn 
intercadentes suspiros , acompanhados 
de remorsos pungenrissimos , bradava 
de coíUÍnuo = Jcsu Christo =; Je- 
su Chrsio ! Outras vezes (que es- 
pantoso horror ! ) se queixava , e se 
doliia de se ver desamparado de Deos , 
e dos homen?. A mão que em outro 
tempo escreveo a sentença de hum 
Rei impio no meio de seus festins, 
parece que escrevia agora ante os 
olhos de Voltaire aquella sua antiga 
fórmula de blasfémia :=: abatei , pul- 
verizai o infame. « Elle queria des- 
terrar de sua alma espantada esta 
lembrança atroz : mas era este o 
momento , em que elle mesmo devia 
fer pulverizado , e abatido debaixo 
dos pés áo infame que o hia julgar* 
Seus Médicos , e entre elles Tron* 
chem vin h ao para o socegar , mas 
sahião logo assombrados clamando, 
que elles acabavão de ver a verdadei- 
ra imagem do ímpio expirante. O 
Marechal de Richelieu foi testemu-- 



I 



( 171 ) 

nha deste medonho espectáculo , e 
fugio depressa gritando =: Na ver- 
dade isto he coisa- terrível , não ha 
valor que po?sa sustentar por hum 
instante a vista deste quadro assus- 
tador. 

Assim morreo a 3c de Maio 
de I7i8. Consumido, e ralado mais 
por seus próprios furores , que pelo 
pezo dos annos este homem de blas- 
fémias , pai dos Sofisras conjurados 
contra o Aliar, cúmplice , cabeça, 
e emulo de seus próprios discipulos 
conjurados contra o Throno. Julga- 
rão estes que com Voltaire perdião 
tudo, mas ficavão-íhe Fuas arm.as em 
suas volumosas impiedades , e com 
effeiro as velhacari:iS , e artehcios de 
D'Alenibert podiao mui bem supprir 
o génio , e o caracter do fundador 
da Seira. 

•A Junta secreta de Paris para a Morte de 
educação, e coiventiculos dos cam- DAlem- 
pos , e aldêas , as conrespondencias ^^^* 
com as Justiças dos lugarejos lhe de- 
vem sua origem. Ccnrinuou a diri- 
N 



( I7Î ) 

gT a Academia occulta , até que foi 
preciso ir comparecer diante do mes- 
mo 1 ribunal de Deos a que Voltai- 
re tinha sido chamado. Em Novem- 
bro de 1783 foi atacado da ultima 
enfermidade , e Condorcet temendo 
que seus remorsos não dessem aos 
Adeptos o mesmo espectáculo de re- 
tracta coes , se incumbio, e encarre- 
gou de o fazer invisível , e incom- 
municavel. Quando o Cura de S. Ger- 
mano se apresentou como Pastor pa- 
ra exercitar as funccôcs de seu mi- 
nistério , Condorcet veio à porta , e 
lhe vedou descaradamente a entrada , 
quem não dirá qne era o Demónio 
que estava vin^iando aquella preza? 
Apenas ella foi devorada , o orgu- 
lho de Condorcet rrahio o seu segre- 
do. D'Alembert tinha realmente sen- 
tido os mesmos remorso? que havião 
atormentado Voltaire. Estava deter- 
minado a recorrer ao ultimo meio de 
salvav^ão Gue lhe restava , chamando 
os Mini'îtros de Jesu Ci:ri-to : Con- 
dorcet teve a ferocidade de ccmba- 



r 



í 



( 173 ) 

rer , e destruir este ultimo arrepen- 
diniento. Toda a historia deste me- 
donho combate se lê naquella pala- 
vra de Condorcet , quando relatou 
as circunscancias da morte de D'A- 
lembert tz Se eu 7íãu estivera com 
elle , àe certo virava a casaca, 

O mesmo Diderot , heroe dos Morte de 
Atheos , foi, entre todos os conju-^^^^''^^' 
-rados o que esteve mais próximo á 
verdadeira expiação de suas blasfé- 
mias : porém isto mesmio he hum 
mysterio que o orgulho dos Soíistas 
se apraz de envolver entre espessas 
sombras , que a historia deve ras- 
gar , e dissentir. 

Diderot linha por Bibliothecario 
hum mancebo , que soube ganhar 
sua coníidenciâ com os assiduos ob- 
séquios , e bons officios em sua ul- 
tima enfermidade. Aterrado hum 
dia com os symptomas oue obser- 
vou curando ascliagas do Filosofo, 
foi a toda a pressa dar parte a hum 
respeitável Presbytero. Ò Abbade le 
Moine residia então na casa cha- 



(174) 

niada das Missões Estrangeiras na 
rua do arrabalde de S, Gçrmano ; 
com o parecer , e conselho deste 
Ecciesiastjco entrou na Igreja , e co- 
meçou a rogar a Deos Iheinspiriisse 
o que devia fazer para a salvação de 
hum homem , cujos principios elle 
detestava , mas que não podia deixar 
de considerar como seu bemfeitor. 
Acabando sua Oração tornou a casa 
de Diderot , e no mesmo dia curan- 
do-lhe as chagas de que estava co- 
mido , lhe diFse desta maneira r= 
55 Senhor Vós me vedes hoje mais 
que nunca inquieto sobre vosso des- 
tino , não vos admireis , conheço 
quanto vos devo , vossos benefícios 
me fazem subsistir , e vós me hon- 
rais com huma confidencia que eu 
não podia esperar ; cu st a- me ser in- 
grato 5 e sem dúvida , eu mereceria 
este nome , se eu vos encobrisse o es- 
tado de perigo em que vos contem- 
plo, quando vejo os symp^omas des- 
tas chagas. Vós rendes dispc^sirôes 
que fazer, e sobre tudo piecauçòes 



( 17?) 

que tomar relativas ao Mundo em 
que idesenrrar. Sei muito bem, que 
sou hum mancebo , porém vós Se- 
nhor persuad.s-vos que vossa Filoso- 
fia vos não deixa huma alma que 
deveis salvar ? Eu não o duvido , e 
he impossível que eu me lembre da 
sorte que espera o meu bemfeitor , 
sem que lhe advirta quep-ocure evi- 
tar a desgraça eterna. Vede que ain» 
da he tempo , e desculpai o aviso , 
que vos faz o meu dever , e a obri- 
gação em que me constituem os vos- 
sos benefícios. >> 

Diderot escutava enternecido es- 
te tocante discurso , e deixou escor- 
regar algumas lagrimas ; prometteo 
pezar o que acabava de ouvir, pro- 
metteo ddiberar-se sobre o partido 
que devia tomar em huma siruaçao, 
cuja importância elle bem conhecia : 
o mancebo esperava com impaciên- 
cia o fi lí destas diliberacóes. O pri- 
meiro resultado foi conforme a seus 
df-sejos : foi dar parte a Mr. le 
Moine, que Diderot pedia hum Sa- 



( n^ ) 

cerdote para se pôr em estado de 
comparecer diante de Deos. Le Moi- 
ne lhe inculcou Mr. de Tersae , Cu- 
ra de S. Sulpicio. Com eíFeito Di- 
derot vio a Mr. de Tersae , e o vio 
muitas vezes , preparava -se para es- 
crever huma retracracão pública de 
seus erros , mas desgraçadamente os 
Adeptos vigia vao o seu Coriféo. 
Com o pretexto de não haver ainda 
proximidade de perigo , e que o ar 
do campo lhe seria mais favorável , 
persuadírão-no que tentasse este re- 
curso para se restabelecer. Occultou- 
se a sua ida , e os desgraçados , que 
o arrastaváo , conhecido mui bem 
oue sua vida não promettia já lon- 
ga duração. Vigiaváo-no de contí- 
nuo , e não o deixarão sem o ver 
morto. Expirou-lhe nas mãos a 2 ^ 
de Julho de 1784. E continuando 
depois a enganar o público os Ade- 
ptos Carcereiros , trouxer ao em se- 
gredo seu cadáver para Paris , e es- 
palharão o boato que a morte o co- 
Jhêra estando á meza , e publicarão 



k 



( ^17 ) 

por toda a parte , que o mais famo- 
so Atheo morrera tranquillamente, 
c sem remorsos no seio de seu arheis- 
mo. O púbiico lhes deo então cre- 
dito , e esra manobra da malicia , e 
perversidade seguio aré á? porcas do 
inferno a sua desgraçada preza , e 
sérvio para fortiHcar a impiedade 
daquelles , a quem o arrependimento 
de Diderot poderia ter conduzido 
aos caminhos da verdade. 

Dos primeiros authores da con- 
juração contra Christo , só restava 
Federico II. Aborrecido , e enjoado 
com os Sofistas , nem por isso dei- 
xava de ser impio. Veria com a ul» 
tima indifferença cahir os Alçares , 
mas não morreo sem prever , e co- 
rheccr que a queda dos Altares tra- 
zia comdgo a dos Thronos : assim 
como não morreo sem hum vivíssi- 
mo pezar de ter contribuído para a 
sua ruina com a indiscreta protecção 
que deo aos Soíistas dentro em seus 
Estados. Occulta rão-lhe sempre to- 
dos os principios do systema forma- 



( 178 > 

do contra aquella aiithoridade que 
elle conhecia indispensável para a 
conservação da ordem pública , a 
pezar disto , com sua natural pene- 
tração descobrio os projectos da sua 
igualdade , e liberdade democráticas : 
e vendo quanto havião lavrado em 
França estes funestos princípios, não 
duvidou escrever estas memoráveis 
palavras zi: Representa-se-me Luiz 
iXVL como hum Cordeirinho cer- 
cado de Lobos velhos , e feliz dél- 
ie je escapar das suas garras \ Em 
seus últimos annos ainda conheceo 
melhor quantas desgraças se prepa- 
ravão aos Povos , e até á Fua mes- 
iTia Nação com estes princípios , 
quando disse =: Ainda que me cus- 
tasse a mais illustre das minhas vi- 
ctorias , eu quereria deixar a Reli- 
gião no estado em que a deixei quan- 
do sobi ao Throno =: Desta ma- 
neira aquelle mesmo que tanto ri- 
nha protegido os Sofistas conjurados 
contra Christo , morreo com o bem 
fundado receio da sua conspiração 



( 179 ) 

contra os Reis. Com ttado estes ho- 
mens já tão formiJavei'- por sua fu- 
nesta influencia na opinião dos Po- 
vos , não trabaíhavão sós na ruina 
universal. Nos covis cccultos dos 
Pedreiros Livres se tratava de inys- 
terios conhecidos , havia muito no 
Club de Holbach. Esta he sem dú- 
vida a parte mais inte-essante deste 
Tratado , he preciso fazer conhecer 
ao iVj undo esres mesmos mysrerios , 
para que o Mundo saiba donde sa- 
hírão milhões de braços , com que 
a Revolução Franceza ajudou as 
conspirações dos Sofistas da impie- 
dade , que são os mesmos Solistas 
da rebeltião. Eu vou dar a conhecer 
ao público as diversas espécies de 
Pedreiros Livres , fonte exuberante de 
todas as nossas desgraças ; e creia o 
mesmo público que sãcí tirados ao 
natural os quadros que lhe vou ofFe- 
recer , sem exaggeraçao \ appareccrá 
a verdade núa , e he preciso áesáQ 
já advertir que existe em Inglaterra 
huma espécie de Magoes, que em 



( i8o) 

nada se parecem com os nossos , e 
com os abomináveis Francezes. Esta 
Sociedade Ingleza he puramente fi- 
lanthropica , isto he , amiga da hu- 
manidade , e não acho entre nós com 
que a compare, senão com a respei- 
tável Irmandade da Misericórdia , 
que he pela ^ua instituição hum dos 
mais illustres timbres da Nação Por- 
tugueza. Ora se o espirito não he o 
mesm.o o qu? anima a Sociedade In- 
gleza , os fins , e os effcitos sic 
iguaes , isto he , acudir aos miserá- 
veis de toda a qualidade. Bem se 
vê que esta companhia não tem pa- 
rentesco alga m com a dos malvados 
Pedreiro> Livres , como tem.os expe- 
timentado entre nós , e cofTtO vimos 
cm França. Estas viboras tem der- 
ramado todo o veneno que he ori- 
gem das universaes desgraças. 

Até ao dií Î2 de Agosto de 
1792 os Jacobinos Francezes nao ti- 
nhão ainda datado os fastos de sua 
revolução senão pelos annos de sua 
pertendida liberdade. Neste dia Luiz 



( i8i ) 

XVL depois de quarenta eoito ho- 
ras, declarado pelos Rebeldes deca- 
hido de iodos os d,reiros ao Thro- 
no , foi conduzido prizioneiro , e ca- 
tivo ás torres do Templo. Neste 
mesmo dia a a?semblea dos rebeldes 
declarou que á data da liberdade se 
devia ajunrar em todos os actos pú- 
blicos a data da igualdade. Este 
mesmo Decreto foi datado desta ma- 
neira 7^ Quarto anno da Liberda^ 
de ^ e dia primeiro de Igualdade. ;= 
Neste mesmo dia , e pela primei- 
ra vez se rompeo o segredo tão es- 
timado pelos Pedreiros Livres, e tão 
prescripto em seus covis com toda a 
religião do juramento mais inviolá- 
vel. Quando se leo pois o famoso 
Decreto, gritarão 5 cu uivarão estes 
lobos esfaimados , estes ladrões da 
tranquillidade , e socego público. :=: 
Eis-?.qul chegada a nossa hora ! A 
França inteira se acaba agora de con- 
verter em huma Loja universal de 
Pedreiros I,ivres. O Universo intei- 
ro será daqui a hum instante Pedrei- 
ro Livre, í=í 



( ï8a ) 

O Abbade Barruel , de cujos fs- 
critos vamos extra hindo e?tas memo- 
rias diz assim a pag. 131 de seu 
Resumo =5 Eu fui testemunha des- 
tes transportes , e eu escutei os Pe- 
dreiros Livres até alli tão circunspe- 
ctos e reservados , eu escutei os mes- 
mos Veneráveis das Lojas responder 
sem rebuço ás questões que os ho- 
mens lhe fazião espantados de seu 
extraordinário contentamento :rí Sim , 
eis-aqui o grande objecto, o grande 
jfim dos Pedreiros Livres conseguido. 
Igualdade , ^ Liberdade • todos os 
homens slo iguaes , e irmãos , todos 
os homens são livres. Esta era toda 
a essência do nosso Código , o ter- 
mo de nossos desejos , e o nosso 
grande segredo. =:^ Eu escutei àt 
sua mesma boca esta declaração , e 
fe.ta diante daquelles , a quem até 
alli chama vão os profanos. Já não 
ped'ao segredo, mas o dizião com 
tanto aííiii^o , qu^ mostravão que- 
rer , que toda a Franca o soubesse 
para gljria dos mesmos Pedreiros 



( i83 ) 

Livres , e para que os reconhecesse 
como os verdadei'-os authore? de to- 
da aquela revolução de igualdade, 
e liberdade , de que ella dava tao to- 
cante exemplo ao Universo. :=: 

Tal era com effeito o segredo 
geral dos Pedreiros Livres. Havia 
mais de quarenta anncs qie a pri- 
meira lic5o que sedava nestas lojas, 
ou covis , era a declarac^ao expres- 
sa, e forma desta Igualdade, e Li- 
berdade. Este era o grande Sermão , 
que se pregava sempre na Loja do 
Grande Oriente de Paris. Estas pa- 
lavras Igualdade ^ e Liberdade erao 
os termos que explicavão tudo, po- 
rém nem touos os Pedreiros Livres 
as entendião da mesma maneira. Pa- 
ra huns , a explicação destas pala- 
vras era hum segredo innocente , e 
para outros , era hum segredo mions- 
truoso. 

Muito antes da sua confissão pú- 
blica . havia hum m.eio m.uito fácil 
de conhecer , que a Liberdade , e 
Igualdade erao o grande objecto des « 



( 184 ) 

tas pestíferas associações , e diabóli- 
cos conventiculos. Mil vezes se lhes 
jDUvia dizer , que elles erão todos 
iguaes , e irmãos , que em seus co» 
vis não havia nobres nem mecani- 
íTOs, nem pobres , nem ricos , nem 
Vassallos , nem Reis. A maior par- 
^e de suas cantigas celebrava sem 
descançar esta Igualdade , e esta Li- 
berdade. A palavra Irmão na sua 
boca não queria dizer outra coisa 
mais que homens perfeitamente li- 
vres , e perfeitamente iguaes entre si. 
A Sociedade não queria dizer outra 
coisa mais que Liberdade , e Igual' 
àade. 



( i8y ) 



Para dar aos Leitores huma idést, 
7nais clara destes perijersos rnys^ 
terios , traiiscrevtrei aqui a con^ 
fissão que de si raesmo faz o Ab* 
bade harruel ^ quando depois de 
grandes solicitações se deter mi- 
7Î0U a dar o seu nome a esta 
Seita, 

í=í >j 1 1 Avia muiro tempo que 
os Pedreiros Livres me importuna- 
vão , e sorciravao para entrar na 
Congregação , e queriao absoluta- 
mente que eu me alistasse ; sempre 
me neguei , até que elles tomáráo o 
particio de me alistarem contra mi- 
nha vontade. Fui convidado para 
jintar em casa de hum amigo, onde 
a Irmandade se devia ajuntar. Aqui 
foi ond^ eu me vi o u nico profano 
no meio de tantos Pedreiros Livres. 



( lU y 

Acabado o jantar , fôrão despedidos 
os creados , e se de ;er minou a for^ 
mação de huma Loja para me ini- 
ciarem Eu persisri na minha- cons- 
tante negativa , dizendó-lhes que nãô 
era homem que desse hum juramen- 
to sobre hum segredo , cujo objecto 
me era inteiramente incognito. Dis- 
pensárão-me deste juramento , e a 
pez-ar disto, eu continuei a recuzar- 
ine. Mas elles con inuárão' a dizer- 
me , que nenhum irial havia , nem 
t.Q encontrada na Maçonaria , que 
a sua moral era excellente ; a que 
e'j respondi^, se não seria melhor a 
do Evangelho? Não me repiicárão, 
e coh inuáríio a se formar em Loja, 
e foi então que eu vi dar começo a 
todas aquellas m.omices', macaqui- 
ces , e cei-emonias pueris , que se 
achão descritas em diver-os Livros 
maçónicos como Joahm , e Booz^ 
Quiz evadir-me apenas vi este ridí- 
culo appararo , porém a casa era 
grande , os criados estavao preveni- 
dos j e as portas todas- bem fecha- 



( i87 ) 

das. Não tive maïs remédio que fi- 
car passíva\,:.'eàúx2ir coDtinoar a 
comedia. FuL kirerrcgado , :e a tu^ 
da respondia sem poder conLerorH 
zo. >EAs-rrio;aqui ótclsr^áoMprcfí^/^'^ 
e pouco áQ\)oh companheiro. Dere-? 
pente fui éíiSir^ào ao. tcr-œLSO gráo^ 
isto he f a ; Mestre, Para' me confc'» 
rirera este giáo me levarão a, huma 
gTftnde £ala^ c foi aqui onde- vi mu-í 
dar.' a>^cena ; e-tornar-se mais seriai 
Aiiída que; Jirc dispensarão de, quês-» 
toes insignificantes , e rediosas. Por 
manas :horas ^ eu não deícobria em 
ttjda.isto nials doquie briíícos , pue- 
rilidades^ « cecemonias btitlescas , e 
chocarriùes. Em fim clv^gou huma 
pergunta ^ q«íe o Vtneravd me fez 
eem multai .pausa , e gravidade. e= 
Estais VÓS; meu Irraão , estais vós 
disposto 5 e determinado a executar 
iddas as Oardens do Gr^o-JVlestre da 
Maçonaria; com prefej^íHcij^.^^L loásíi 
as ordens tíe hum Rei , dç htiai It»t 
perador, e de outro qualquer Sobe4 
rano ? A resposta; que lhe -dei, foi 
O 



(i88) 

s3 Nâo ri O Vhipravd espantado 
leplicotc 22 Qire coisa , he: FãH À> 
€8áo eatr^is em nœsa Sodedade pa-» 
Fa trahir ; e publicar DOSEÒsFegredoa? 
N^o ^bcis qjue nao hp huma só de 
Bçjssaa e-ipc das , ^ qiho iJÍío(fsteja:^oírt» 
pta a, tîaepassar o coraçiào .de ífaa^lt 
qiïer traidor ? íz; . Ne-îéai me^ioá pnsH 
gunta , € en> todas iJS']amôaçaaçîi« 
tom seriôque aacoirlpeqliasrácBt^aii^ 
da eu nao descobria) rnaás: da qoo 
hum brinco , e combiweitafjos^aciíA 
dePnef»atlví>mentç > accpescouandoO 
^ue facilmente se pódq ^a^ii!)QKLXa 
Nãq Jia^coisá mais' gaknt&.qushia 
Yossa:vsdf^siçâo yi coiro pts^gohiii 
irahiiií v(«^ro6 «egredoK^ se«u/íiii;acnb 
trazido por força^ , ' e ^ agorajain^ 
da nâo escutei s egiícdocplgu mi? i!^ 
^racjs saber íie preck» a proràeteï 
dr X)bcdieïicia a humihbmerpiciaic-ab 
filo tdnlíéçô 5 € áe acRÍintèrçssesido 
Macoifâriâ podem qommometteraM 
gum.doíi fíicus deiíerâÉ^Í AiOeosmtiK 
Seríferrs- sjj arnda he^îempof^^n'oq 
nada iei de Acosso» ç^ys tátios ^ )^ ic 



( i89 ) 

«OS çegiiîx) que nada me importa 

-saber, rn.r^n v 
y"^ O Femr^v^i'ieiïTiCfU' ainda ater*- 
xando-nie de novo , mas eu insistia 
-sempre , e reirucava , Não ^ e ccn- 
îiniiei =: se em vossos my?terios se 
•encerra coisa coiítraria á consciên- 
cia , e á honra , vós coni^^ecerefs en- 
tão quem eu sòu , e sabei q«e não 
me escutareis outra palavra , qfue náo 
«eja o meu eterno ^VJ^. ir- nj* 
, A' excepção do F^Kera'i^hczpû^ 
tflz , roda a recua dos outros irnuãos 
-fjermanecia silenciosa. Lá no seu co- 
lação não deixarião de rir îdesta'sco- 
na -^ mas cada vez se tornava maás 
eéria entre mim , e .o^^Vm^raveí 
Multiplicava as preguntas a' rer 9C 
me arrancava hum ^/;«. Eaiestavt 
estafado, ^ tifl}tó os olhos: tapados'^ 
ftrcanquei o lenço , e aiirei com elle 
ao ^kâo ; e ijatendo o pé na casa, 
tiie Tferomei:^ iv/j^ cora tcda a força ^ 
ci^fiffiícacra dia iínpatiencia. Aqui foi 
que 5 loja toda bateo as ^ alraa? em 
sliwi de appiauso geral, 0.^w«?r^ 

O 2 



( 19^ ) 

vel mudando de tom . ^ começou xie 
elogiar a minha constância , dizen*- 
<io =: eis-aqui a gente que nos faz 
conta 5 homrns de caracter, e que 
sabem ser firmes. Ao que eu res*- 
pondi zi: Quantos tem suas mercês 
achado , que resisião as suas brava- 
tas ? Todos os que. aqui esráo de- 
rão hum redondo iSirn ás questões 
•que seme fízerão. Por isio eu á\ep 
que em vossos mysrerios ha coisa 
contraria ao dever da honra , e da 
consciência. Este tom decisivo, que 
^u tinha adoptado , interrompeo a or^ 
-dem do Parlamento Maçónico , ot 
Irmãos se chegarão a mim dizendo»- 
íne, que eu tomava as coisas muito 
á letra ^ e cm hum iar muito sério i, 
mas que a pezar de minha teimosa 
resistência , eu não deixaria de ser 
tidmittido. Com elfei to levarão a«tia 
para diante, derao-mt a ^enh».^í;e 
o passe pjia o terceiro gráo , como 
o havião feito para os dois primei- 
ros. Ainda mesmo neste gráo eu njjo 
pude peneirar o segredo> porém dis- 



( 191 ) 

scrão-me, que se cu o queria saber 
que assistisse á recepção de algum 
Irmao em huma loja regular. Pro- 
mecti assistir ás suas Sessões regula- 
res 4. com tanio que se me não fal- 
tasse de juramento , assim o promet- 
térão , e desempenharão a sua pala-: 
vra. Somente quizerão que assinasse 
o meu nome na lista , que se costu- 
mava mandar ao Grande Oriente , 
isto mesmo não quiz eu fazer pedin- 
ëo-lhe tempo para deliberar. 
• c Chegou o dia marcado para a 
recepção de hum noviço , fui avisa- 
do , e deixo de descrever asceremo- 
nias 5 e provas desta recepção , por- 
que na verdade tudo me pareceo ver- 
dadeiro brinco de rapazes; só posso 
dizer que tudo quanto se conta na 
ts Chave dos Mações , em seus Ca- 
tbecismos , e outros Livros desta es- 
pécie y he a mesma verdade sem des- 
erepancia , ao menos pelo que perten- 
ce ao^ três grãos que eu receai , e 
vi- conferir a outros. 
-o. O artigo mais importante para 



C i?^ ) 

mrfn , era peiierrar, e saber corrrceN 
teza o grande segredo da Maçona- 
ria. Chegou o irioœenso em que ò 
admirtido teve ordem de se chegar 
ao Venerável : eniao todos os ír^ 
mãos quf* csravao com. as esnâda^l 
BU3S nas mãos , se formarão era duas 
alas cruzando a? . espadas daquella 
maneira a^ que os. Pedreiros Lí^rre© 
chamão í =; ; ^ aboheda de aça. liï 
noviço passou por baixo desta abo-^ 
beda , c cheppu a hgraa espécie <iè 
Altar levantado fobre degráos nô to- 
po da Loja. O Venerável semado 
em.hum ganapé levantado como hurò 
Throno por detrás do Altar, Jh^r^ 
citou huma comprida arenga sobre 
a inviolabilidade 'do segredo* , -<^«c 
se lhe havia confiado, tfobre o perigo 
a que se expunha se quebrantasse xx 
juramento que hia dar , moscrando-^ 
Uie as espadas p rompras para. atra- 
vefsarem os traidores , protestando- 
\h.Q, que não escaparia ao golpe da 
vingança. O recipiendario Jurou , 
^ue queria que lhe varasBem: o co- 



i Í93 ) 

5%ç3o, que lhe cortassem a^caheca^ 
que- lhe ajTaDcas?em as tripas , e que 
«depois de iBuico bem morco o cjueî»- 
inassem , c que lançassccp as cinxis 
50 mar e ao vento , se elle faltasse 
á fé jurada. (Quem rio «amais eíw 
iiada de horrores , e de parvoíces 
semelhantes ?.) Acabada a prostesta- 
cão , o Fentravel lhe disse estas pa- 
lavras / que eu cons«"vo bem na me- 
moria, que tal era a anciã com que 
eu as escutava ; = Meu amado Ir- 
mão o segredo dos Pedreiros Livres 
consiste nestas palavras, ru IgfíoJ' 
^de , e Lièerdade ; todos os bo- 
Tnens são i^uaes , e Ihres , todos 
9s homens 'são irniãos. O Visnera- 
wel não disse mais nada , e seguio- 
•sea eéa Maçónica. 
-i*f Ao priflcipio não pude deixar de 
rir , e de diier aos Imao' , que ^ 
este era o grande segredo dos Pe- 
dreiros Livtes V h^via muixò teíiipò 
^aeeuisibia esre segredo. Ceir. ef- 
felíO v»;e - pôr estas palavras 'f-e enrert- 
de qu«4ís hòmsâs-nao iwscêráoí^i- 



ra scp escravos , ^oîa? para gozar de 
huma verdadeira liberdade debaixo 
do império das Leis , e se por igual* 
dade , se quer dizer , que sendo to- 
^os filhos de hum pai commum , 
de hum mesmo Deos , os homens se 
devem amar , e njudar .muruamente 
como irmãos , via muito bem que 
não tinha necessidade de ser Pedrei- 
ro Livre para aprender estas verda»» 
des, qce eu asachava muito melhor 
nó Evangelho , que nestes brincos 
de creanqa>\ Pélas respostas que me 
derão conheci que a maior parte 
dos que aJli es ta vâx) assim o enten- 
dia , mo querendo penetrar mais,,c 
conrentando-se com as banqueradas 
em que de ordinário acabavaõ estas 
scenas em apparcncia ridicuias. Po- 
rém em fim chegou o tempo , em que 
os espíritos se virão mais dispostos 
.para o conhecimento interior deste 
(Segredo, e foi então que os Pedrei^ 
.iros Livre? íizerão de huma innume- 
.ravel multidão destajs Loja^, verda? 
4piro? viveiros do jacobinismo^ 



( ^vs ) 

^r- 'Havia- annos que eu estava ini- 
tiado nesfcs priiTieircs gfcios : eis-^ 
ique rompe a Revolução Franceza. 
Em todas as minhas conversações 
^om muitos Pedreiros Livres , me 
foi facil conliecer todo o pendor fi- 
losófico para huma igualdade , e li- 
berdade desorganizadoras , que fazia 
ha muito tempo o objecto das prò- 
íducçòes dos nos os Sofistas. Eu ti- 
nha . além disro , estudado ^^ e a- 
profundado bastantes Livros Maço^ 
nicos , e cheguei em fim a compre- 
hender , que a ultima explicação des- 
ta igualdade , e liberdade nâo era 
mais que a abolição , e proscripção 
de todas as Leis- Religiosas e hurri 
ódio jurado ao governo Monárqui- 
co. Isto mesmo communique! eu a 
aíguns Pedreiro? Livres , que ^u re- 
putava homens de bem , e me ccnir' 
fcssárão que tu tinha razão , c que 
elles mesmos tinhão observíi^jo coí* 
sas que os fazião persuadir do que 
eu lhes dizia. Com tudo en re. estes 
homens existia hum , que resistia for- 



( 196 ) 

temente ás minhas reflexões , qtfe me 
julgava preoccupado , e possuick) àe 
hum enrbusiasnio , que me obrigava 
a julgsr verdadeiras as minhas reâ^ 
xôes. Tivemos ^ esrè respciro con- 
testações muito sérias , em tím eu 
desejava persuadilio y .eelie ccmfts- 
sou que iiijida resta vão mystcrios rú 
Sociedade , que elle não compreíieiv 
diíi , e cuja explicação se Iheíiav^ia 
negado aié alli , mas sempre teiman- 
do que estes mesmos mpterios não 
teriâo diífcrente explicação da que 
tinhão o5 hvero^liècos do Compas- 
so , da Esquadria;- da- Trolha , e 
da outra salgalhada da Maçonaria. 
Eu sabia muito bem , que «ó huáfi 
passo ihé rescãva para entrar no co- 
nheciraeujto' dos; mysteriosi ulteriores , 
e pari: ciiegar ao gráo ^' em qwe o 
^éo^ se lhe riis^ab'se, ií^lle mesmo de. 
sejava muito, saber; o «que isto pode- 
ria ser v û«é para me atacar depois', 
c- mo/trarrUie, a^njustiqa das minhas 
preoccupaçoes : contrïi os Pedreiros 
Livres. Pcmcos dias erio passados, 



( 197 ) 

er5-que o veio entrar em minha caça 

em hum eirado , que só seus mesmoâ 
discursos podem dignamenre pinrar. 
=: Ah ! (gritava eJle) Ah meu 
amigo , meu amigo ! Vós tinheis ra- 
Vós. dissc?:es a verdade ! On* 



^^ I 



eao 



de escava eu mectido ! Ah ! Meu 
Deos , ondecnavs eu merrido ! . . Eu- 
não percebia arsás estas interjeições,' 
roas elle estiva tão suflFocado , que 
quasi não podia conrinuar. Sentou* 
se como affrontado , e desfalecido.^ 
repetindo com tudo , de espaço a es-^ 
paço =i Onde estava eu mertido 5 
Ah ! Meu amigo, agora vejo qu« 
tifiheis razão ! Eu queria que me exk 
plicasse. com miudeza o que tinha 
v^sto , c ouvido . ma? elle sóiuentc 
me tornava :=: Tendes razão , tem 
des razão ^ e isto he rado o qu« eu 
vos posso dizer. Desgraçado , ihe 
(ornei eu então , eu vos peço pen» 
dão ,. vós acabais de dar Juim jura-f 
mento execra vel , e eu me^mo vos 
induzi .,- e vos persuadi esta acção. 
Piorem crede ; que nunca me passou 



( 198 ) 

pela Icmbranqa tão arroz juramen'* 
to. Conheqo qu£ era melhor ignorar 
o fatal segredo , que adquinilo a 
hum semelhante preço. 

Tinha então começado a Revo- 
lução Franceza , este novo Adepto 
tinha já perdido seus bens , perden- 
do seu? empregos , com tudo ellè 
me disse que podia bem reparar es-» 
te golpe da Fortuna 5 sequizesse ac- 
ceitar o que se lhe rropunba. Se eu 
quizer , dis^e elle , transportar-me 
» Londres, a Bruxellas, a Constan- 
tinopla , ou outra qualquer Cidade , 
nera minha mulher , nem meus fi- 
lhos 5 nem eu , temos necessidade de 
mais nada. Sim , lhe tornei eu , po- 
rém com a condição de irdes pre- 
gar a Igualdade , e Liberdade , e 
toda a ilevolugão =í He verdade 
disse, o eis-aqui tudo o que eu pos- 
so dlzcr-vos. Ah meu Deos y onde es* 
tava eu metrido ! Não me pregun- 
teis mais nada ! 

.ci;:^Bastava unicamente a affectaçao 
do segredo sobre esta^ pim^iras pa- 



( ^99 ) 

lâvraç das Pedreiros Livres =: Igual- 
dade , e Liberdade para se conhe* 
cer que ellas tinháo iiuaia explica- 
ção ^ ou-interpctração, que a Scãca 
devia occakar aos homens de Esta- 
do , e aos Ciíefes da Religião. Eis- 
aqui para que se exigiao , e prati-^ 
cavão tantas piro vas, tantos, juramen- 
tos para. se- chegar ao conhec mano 
intimo do ultimo mysterio dos Fe* 
clreiros Livres, 

Ota para dar ao Leitor huma 
idéa cabal destas verdades , eu vou 
expor a historia aliegorica que se ex-! 
5)lica pela exposição destes uitimos, 
e recatados, segredos. Esta historia 
he a mestna que se conta ao inicia- 
do , quando se lhe confere o gráo 
de Mestre Pedreiro Livre. A Loja , 
em que se confere este. gráo está ar- 
mada de preto., no meio da casa es^ 
li hum ttímulo levantado sobre de^: 
g<ráosi., .e íDberto eora hum panno 
éé Eça 9 cœ Irmãos estão sentados 
á roda de '-vizeira cabida ,-e aspecto 
melancoHco ( he esta huma das en^ 



( 200> 

tamisadas mais ridiculaS 'âAs ^\hok 
do homem de sizo , e 'capazes <íe 
fazerem nr hum pre^o dò limoeiro.) 
Quando o Aaepto he zácmuido ,0 
yefíeravel \hc conca. a seguiflie His* 
toria ( bem capaz de fazer idorrné* 
cer Jiuma créança*) suo Bieq irrjB 
- f> Adonirão , rescoihidò ipor Sá* 
lomão para pagador dosOíBciaes àè 
Pedreiro, deCarpineeira:, e de Can- 
tei ro , que trabalhavão no Templo-; 
tiflha hum rbl , ou folba', de três 
mil, e para dar a cada hbm o jon* 
Haí que lhe pertencia os tinha divi* 
(^ido em tr£s classes , i,^ Aprendif 
Z€s> 2i.a Gtímpanheiros,>3'^ Mes^ 
três. Dec a cada huma destas clãS^ 
ses huma Senha , e lhes ensinou Ò 
jTiodo porque se deviãò tocar pari 
s^^ra conhecidos. -Ctóuhuma das 
classes dci^ia. conservar emrmuito se* 
grédo icsta txnha , cestas gararu>í 
jQS, pam serem distindu» «s indivi-* 
duos* ^ Três companheiros querendo 
possuir esta Senha , para cobraren» 
Oíjoriíal deMestces, :se<£s<ioudéráa 



(f 20T - )) 

ao Templo yí e se po^táç^o; depois 
orda. Jiaflí- enfisoa différent portai 
A>c;híxm'.-'fii"nDqae AdoiiDáo costcma* 
«a>:.éeGbar-él 'Jb>mpk) , p^'prinîciro 
ocmpanlwo'jcgue i c enconírou lhe 
pevtp_qucJèrBÍtessQ atenha de Mes* 
VG^;- ■ Aâomrái© , ai a o esrándo pelos 
atttof p iev.<)D ' n.i cabeça huma gran- 
òs pancsda com- hum sarnafo ; cpie- 
ícndo^Tugir fnar> oawrat. porta! v ^Ihe 
fez »o òurna ccisnpanheiro a mesma 
perfifvinm v-£r^:lí;e dirjiiricu pelas cos- 
wlias c: horoa (igrarrdí^arpochKída 'com 
ktína pe^^ ^r. qriíxíurgir pela Quíra 
pD^ra^^'r*re^G^fIlesnno encontro, com 
ao djiffiJEoiçg ^cpe lo ccmprheJro o 
colheo com hm^iaimárreHo por hu- 
na fònrc y cfújrjõ «tirou redomiamen- 
íc nOvx:ha(^>: froírto qae fea , ct3s trei 
afsássmos i tí> eriíeirárãou delMtiyo . de 
haut grande ^qnonte dío entulho i^ e 
lhe pozcrSo- ^m cinaai.'bàïti grapde 
FamodeAc^a y para se conhecer 
G lugar cãade linhâo enterrado ocan 
daven A aosencia de ÂdoRÍraa fct 
desesperarei Sabaiâo^e^òs^ Mestres 



(^ 2or )) 

Pedreiros \^ foi buscadp por totîa a 
parte, em fîm hum Rcdrciro achôo 
o seu cadáver , c pegando- Ifae pdr 
hum dedo^ o dtdo se làe'îdespegou 
da mão ; pego u-lhei.pelo pulso , e o 
pulso se despegou do b-riâço^;Espan^ 
tado o Pedreiro , gritou t= Alac-Be- 
nac :=: que significa, segundo a in-^ 
terpetração dos nossos Pedreiros tia 
A carne -ídeixa os ossof x: Temen< 
do rodos que Adonirão nâa houvesi 
se revelado a Senha , itados os Mes-( 
três Pedreiros convieráo em a vúUm 
dar, substitiiindo-lhe as pakvras s=i 
Mac-Bçnac =2 palavras . veneráveis 
que os i Pedreiros Livi^s ijàmais pTo*t 
nuncião fora das Lojasl > > ,0 

- Acabada esta ri diculgc historia a 
Adepto fica sabendaDrí^ que o seui 
maior cuidada daquelle^ dia cm dian^ 
te cjevc'îfer JDnscar a palavra perdi-: 
da por Atàaniráo, e vingar a morri 
te deste ma r tyr dp segredo Maço-- 
bíco. m ui tos Pedreiros l não desœ-» 
brem neste conto da carochinha ,- 
mais que liuma historia íabulosa: da; 



( 203 ) 

ultima ridicularia , e com todo o 
n: Mac-Benac :=: não se embara- 
çao com ukrior indagação do for m i- 
úAvcl segredo. Porém o monncnto 
em que estas ninherias se tornão mais 
sérias he o da iniciação ao gráo de 
=2 Escolhido =: Este gráo tem duas 
partes, huma se appllca á vingança 
de xA.donirão , que se começa agora 
a chamar z^ Hirão , :r e a ourra 
he a indagação da palavra , ou da 
doctrina sagrada , que ella exprimia , 
e que foi perdida. 

Neste gráo todos os Irmãos ap- 
parecem vestidos de preto , e trazem 
a tiracolo do lado esquerdo hum pa- 
pelão 5 em que está pintada huma ca- 
veira j dois ossos 5 e hum punhal , 
e á r oda esta divisa ^ Vencer , ou 
morrçr 7=1 Tudo respira morte , e 
vingança no uniforme, e na catadu- 
ra dos Pedreiros nesta occasiáo. O 
Aspirante he conduzido á Loja com 
os olhos tapados, e com humas lu- 
vas salpicadas de sangue. Hum ade- 
pto Gcm hum punhal na mão o air.ea- 
P 



( ^04 ) 

ça de lhe varar o coração para cas- 
tigar o crime de que elle he accusa- 
do. Depois de muitos terrores , se 
lhe perdoa a morte, promettendo o 
Réo que presente está, vingar o Pai 
dos Pedreiros Livres , matando o 
seu assassino. JMostra-se-Ihe depois 
huma caverna so-.nbria , e he preci- 
so que elle entre , e os amigos de 
fora Ihebradão que mate tudo quan- 
to lhe resistir , que se defenda , c 
que vingue o Mestre porque só des- 
ta arre pode ser admittido ao gráo 
de Escolhido. Levando pois o pu- 
nhal na mão direita , e huma lan- 
terna na esquerda , entra , encontra 
hum Fanrasmão , e ouve huma voz 
que lhe diz '^ Crava esse punhal , 
m^ta , que esse he o assassino , vin- 
ga o nosso Mestre Hirão =: O ini- 
ciado dá a facada , o Fantasmão 
cahe, o sangue corre, e a voz con- 
tinua a dizer-lhe z:2 Corta a cabeça 
â esse assassino. Eis a cabeqa do 
cadáver se acha aos pés do Inicia- 
do , pega-lhe pelos cabellos , e vem 



( iõí ) 

coi« elta em triunfo mostrando- a a 
c:ída hum dos irmãos , € he por is» 
£o julgado digno de ser Escolhido. 

Neste passo o Adepto se achava 
feito Pontífice , e sacrificador com 
rodos os seus irmãos. Revestidos 
dos ornamentos sacerdotaes , offere*- 
cem pão, e vinho, dizem elles se- 
gundo a ordem de Melchisedec j o 
objecto desta ceremonia he estabele- 
cer a Igualdade Religiosa , e mos- 
trar que todos os homens são igual- 
mente Sacerdotes , e Pontificts , cha- 
mando desta maneira todos os Pe- 
dreiros Livres á pertendida religião 
natural , persuadindo-lhes que a re- 
ligião de Moisés, e de Jesu Chris- 
•to pela distincção que fazem de Sa- 
cerdotes 5 e Leigos , violarão os di- 
reitos naturaes da Igualdade, e Li- 
berdade Religiosa. Houve mister que 
apparecessem todos os criínes , todos 
os attentados da Revolução , para 
<que alguns Adeptos confessassem que 
«tinhflo sido logrados com a spporen- 
cia ida atrocidade deitas .tão ridicu- 
P 2 



( 2G6 ) 

Ias como sacri legas cérémonies pra- 
ticadas neste gráo de Escolhido. 

O Pedreiro Livre , cujo zelo não 
afroxava depois de rer passado por 
estes tenebrosos exames , e infamis* 
simas provas, passava ordinariamen- 
te aos três gráos da Maçonaria Es- 
coceza , e nellesfabia , que em qual- 
quer estado , em que até alli haja 
existido , fora hum estado de perfei- 
ta escravidão. Por este motivo não 
he admittido á presença dos Irmãos , 
senio com huma corda ao pescoço 
pedindo encarecidamente que lhe des- 
atem os laços. He preciso que elle 
se apresente em huma aptitude mais 
humilde ainda , quando do segundo 
gráo de Mestre Escocez quizer su- 
bir ao terceiro , a que os Pedreiros 
Livres chamão Cavalheiro de Santo 
André. O Irmão que aspira a esta 
honra he. mettido em hum quarto 
bem fechado. Aqui se lhe deita ao 
pescoço huma corda com quatro 
noz corrediços^ he estendido no meio 
do chão á luz de huma lanterna ^ e 



( 207 ) 

aqui o deixão só para meditar sobre 
a escravidão a que ainda está redu- 
zido , e para aprender a conhecer o 
preço da liberdade. Hum dos irmãos 
chega em fím , pega cora huma das 
mãos na ponta da corda , e tendo 
na outra huma espada desembainha- 
da em acção de lha enterrar até aos 
copos 5 o ameaça , se elle se atre- 
ver a oppor a menor resistência. O 
Candidato não he declarado livre , se- 
não depois de ter passado por hum 
sem número de perguntas , e sobre 
tudo depois de ter jurado pela saU 
vação da sua alma , de não revelar 
jamais os segredos que lhe forem 
confiados. He coisa inuti! fazer aqui 
menção de todos estes juramentos. 
Cada gráo tem seu juramento parti- 
cular., e todos elles são terríveis, e 
espantosos. Todos sugeitao o Aspi* 
rante á mais terrivel vingança , ou 
de Deos , ou dos homens. 

No primeiro gráo de Cavaíieiro 
Escocez o Adepro sabe que he ele- 
vado á dignidade de supremo Sacer- 



dote : recebe hutna esp(?cie de ben- 
ção em nome do Im mortal , e InvU 
sivel Jeóva^ A Sciencb Maçónica 
lhe nao he dada ainda senão como 
a de Salomão , e de Hirão renova- 
da pelos Templários ; nnas nó se- 
gundo gráo se lhe ensina , que eHá 
tem por Pai o mesmo Adão. Este 
primeiro homem , e depoiá Noé < 
Nembrod , Salomão , Hugo de Pa- 

Í;anis , fundador dos Tempbrios , é 
aques Moley , seu ultimo Grão-Mes- 
trc, se íizerão os grandes sábios da 
Maçonaria ^ e os favorecidos de Jeo- 
vá. Em fim no terceiro gráo ^e Ihô 
mostra , que a famosa palavra pot 
tanto tempo esquec da ^ e perdi. la 
desde a morte de Hiráó , era o no- 
me de Jeóva. Eila íoi achada , di- 
zem elles , pelos Templários por oc- 
casião ds huma Igreja que oé Chris-- 
ráos querilo edincar em Jerusalém, 
Cavando a terra naquelle lugar en?» 
que 'existira o Temp o de Salomão , 
se descobrirão três pedras que servi- 
rão de fundamento ao antigo Tem* 



C io? ) 

pio. A forma , e a união destas très 
pedras prenderão a attenção dos Tem- 
plários. Cresceo ainda mais seu as- 
sombro quando vírao o nome de 
Jeóva gravado na ulrimn. O respei- 
to que este nome lhes inspirou tor- 
nou este monumento precioso. As 
três pedras forão secretamente rrans» 
portadas para Escócia. Os Cavalhei» 
ros do Templo íizerão delias o ali- 
cersc da primeira Loja. Seus herdei- 
ros , successores do s^:gredo são ho^ 
je em dia os Mestres perfeitos da 
Maçonaria , e os Summos Sacerdo- 
tes de Jeóva. 

Ora não he muito difEcuIroso ad- 
vinhar este segredo. Reduz-se a ver 
em o Mestre Escocez , o Su m mo 
Sacerdote de Jeóva , quer dizer da 
Religião do Deismo , que fora suc- 
cessivamente a de Adão , Noé , Nem- 
brod , Salomão, e a dos Cavalheiros 
do Templo , e que deve ser hoje a 
única Religião perfeita do Mestre 
Pedreiro Livre. ( Vejão-se z: Os 
gráos dos Mestres Escoce /.es impres»- 
SOS em Stockolmo, an. ce 1784. 



(210) 

Os Pedreiros Livres Escocezes , * 
que houvessem penetrado bem o sen- 
tido das ceremonias , e dos juramen- 
tos , se podião considerar como li- 
vres , e Sacerdotes da Religião na- 
tural. Este Sacerdócio os livrava de 
todos -os mysrerios do Evangelho, 
e de toda a Religião revelada. Com 
tudo he preciso confessar , que mui- 
tos destes Pedreiros Livres náo che- 
gavâo a penetrar o sentido interior 
de toda esta iniciação , e por isto 
havia óutròs gráos destinados para 
se introduzirem pouco a pouco no 
conhecimento dos últimos mysterios. 
Restava dizer-lhes , que esta famo- 
sa palavra de Jeóva tinha sido rou- 
bada por aquelle que havia abolido 
o culto do Deismo. Este era o ob- 
jecto , e a matéria de hum novo gráo , 
dividido em outros gráos chamados 
de Rosa Cruz. Neste gráo tudo mu- 
da de cor, e de tom , e tudo he re- 
lativo ao Autlior do Christianismo 
sacrificado sobre o Calvário. As pa- 
redes da casa , em que se conferia 



( iil ) 

est€ gráo cstavao armadas de baeta 
prêta , e no fundo havia hum Al- 
tar V e por derrás hum véo trans- 
parente que deixava ver três cruzes , 
e a do meio se distinguia pela ins- 
cripção ordinária dos Crucifixos. Os 
Irmãos com paramentos sacerdotaes 
estavão sentados no cháo em silen- 
cio profundo , com ar triste , e affli- 
cto , e com a cabeça recostada na 
mao , em sinal de dor, e conster- 
nação. 

Na abertura da Loja , o Presi- 
dente perguntava aoírmão, primei- 
ro espião , que horas são ? A respos- 
ta era concebida nestes • termos ::=: 
He a primeira hora do dia, e oins- 
tante em que o véo do Templo se 
rasgou , em que as trevas da cons- 
ternação se espalharão pela supernce 
da terra, em que a luz se obscure- 
ceo , e em que as ferramentas cies 
Pedreiros Livres se quebrarão. 
(Quem vio tamanho excesso de de- 
mência, de impiedade, e de desa- 
foro ? ) em quç a estrelia resplande» 



( ili ) 

sente desappareceo , em que a pe* 
dra cubica se fez em migaJhas , c 
cm que se perdeo a Palavra, n =:$ 

O Adepta que tem seguido na 
Maçonaria os progressos de seus 
descobri iTjentos , não tem necessida^ 
de de aovas lieôes para perceber a 
essência deitas palavras. Vê muko 
bem que a dia em que a palavra ís 
icóva =í se perdeo, iie precisamente 
a dia ^m que J. C. Filho de Deos 
morreo peii salvaqio dos homens , 
consummoii o grande m/srerio da 
Religião Cbristá , e destruio toda 
outra cjualquer Religião , ou Judai- 
ca , ou Natural , ou Filosoíica. Quan- 
to pois num Pjdreiro Livre perma- 
necer mi is apagado a esta pertendi- 
da Religião natural , miis saberá 
detestar o Aurhor , e consummador 
da Religião revelada , por isco a 
palavra qae elle encontrou nos gráos 
superiores , não he o objecto das in- 
dagações deste novo grão que rece- 
be, e pnra o híbituar á blasfémia, 
ao âo horror , e desprezo contra o 



( i«î ) 

De©5 ck>ChrfêîUnis;Tio, cortieqa es- 
te ridicule dialogo entre o Venera-^ 
vel ^ e o Adepto =:' De que paiz 
he sua mercês R. dajijdea =: Por- 
que Cidade passou ? Por Nazarethr 
tu Qiiem foi o seu Conductor ? Ra* 
fael =2 De q^e Tribu dcscéncîe^ 
De Judá =: Ora de-me cá as qua- 
tro letras iniciaes destas paUvras. 
si; J. N. R. J. =2 Meus irmãos ^ 
grita então ô Vemravel , achou-se 
a palavra. Seja dada a luz ao nos?©» 
caríssimo írmáo ; e todos lhe devemr 
dar os parabéns. Toda a Lojd reti* 
ne em applausos por este importan- 
te descobrimento. Em que Consis?# 
pois este descobrimento ? Em dar á 
palavra J. N. R. J. huma interpe- 
tração , que não faz de J. C mais 
que hum Judeo ordinário , conduzi- 
do por outro fadea, chamado Ra- 
fael, á Cidade de k-rusaíem , para 
ser punido de seus cr me*?. Neste 
sentido pois , a palarra J, N. R. J. 
se torna a palavra estimada pelos 
Rosa Cruz-. Esta explicação ^ e tu* 



("4) 

do quanto delia resulta contra a Re- 
ligião Christâ , teria escandalizado 
hum grande número de Adeptos, e 
por isto não he revelada a toda a 
cáfila dos iniciados. Quando os Ve» 
mraveis descobriâo em alguns os 
sentimentos de homens honrados , 
(porque esta canalha só admittia 
aos últimos mjTsterios os maiores pa- 
tifes conhecidos) diziâo-lhes que tu- 
do isto era huma convenção feita en- 
tre os antigos Chrístãos para conser- 
varem a memoria do mysterio da 
Paixão , em os tempos das persegui- 
ções. Só a suprema classe dos Ro- 
sa Cruz possuia a verdadeira expli- 
cação da palavra :=:. J. N. R. J. e 
da blasfémia que a Seita lhe havia 
anexado. Para estes perros ,*e ver- 
dadeiros ladroes do socego público , 
Jesu Chris to não era mais que o 
destruidor da Religião natural , que 
elles procuravâo estabelecer no Mun- 
do. Elles sedeviâo ainda reunir hum 
dia ás ordens do seu Grão Mestre , 
ç conquistarem a Ilha de Malta , 



(11? ) 

(que disparares!) para a fazerem o 
berço da Re:igião natural , vingan- 
do a destruição dos Templários com 
a destruição dos Cavalheiros Alal- 
tezes , que tinhão herdado seus bens. 
Ora o Filosofismo do nosso Século 
temendo que todas estas impiedades 
não chegassem ainda , e nso bastas- 
sem para formar os verdadeiros Pe- 
dreiros Livres , inventario mais 
gráos 5 entre os quaes se distingue 
soDre tudo o gráo , a que elles cha- 
mão =i De Cavalheiro do Sol. ~ 

Chegando a este gráo , he im- 
possível dissimular quanto o Código 
Maçónico seja incompaiivel com os 
menores vestigios do Chrisrianismo. 
Neste cráo o Venerável toma o no- 
me de Adão , e o Adepto toma o 
nome de =:^ Verdade =: Este Ade- 
pto z=^ Verdade zz he nesta occa- 
sião o introductor, e eis-aqui as li- 
ções que elle dá ao iniciado , reca- 
pitulando rodos os Emblemas que 
aré alli tem visto na Maçonaria des- 
ta maneira, z3-!i^33^.'n g^i. 



(zi6) 

>) =í Sabei desde )á, que OS très 
primeiros movei v , que tendes visto 
íaes conxï a Biblia , o Compasso, 
e a Esquadria = tem huma occul- 
ta signiiícnçáo 5 que vós ainda não 
compreiíendeis. Pela BibJia he pre- 
ciso que entendais , que não tendes 
outra lei mais que a de Adão , que 
o Eterno tinha gravado em seu co- 
ração. Eíta Lei , Jie a que se cha- 
îna ZjCí natural O Compasso vos 
diz , que I>eos lie o ponto central 
de todas as coisas. Pela Esquadria 
se nos descobre , que Deos fez todas 
as coisas iguaes. A pedra cubica 
vos diz , que todas as vossas acções 
devem ser iguaes, relativamente ao 
summo Bem. Se me preguntais qaaes 
sejão as qualidades de hum Pedrei- 
ro Livre para chegar ao centro do 
Summo Bem , :responder-vos-hei , 
que ;parQ isto he pi^ciso ter esma- 
gado a cabeça da Serpente da igno^ 
rancia mundatla , )ter sacodido o ju- 
go das preoccupaçoes da infância a 
respeito dos mysteriqs dâ .Religião 



(217) 

dominante do paiz , em que se nas- 
ceo. =: Todo o Culto Religioso 
náo foi inventado , senão peia espe- 
rança de commandar , e de occupar 
o primeiro lugar entre os homens. 
sr: Eis-aqui , meu caríssimo Irmão 5 o 
que he preciso saber combater, eis- 
aqui o inonistro debaixo da figura 
de Sei penre , que he preciso extermi- 
nar. Eis-aqui a pintura íiel daquil- 
lo , que o cego vulgo adora , e res- 
peita com o nome de Religião. Foi 
o profano , e cobarde Abiron , que 
se tornou por iium 7elo f?ratico o 
instrumento do rito monacal , e re- 
ligioso , descarregando os primeiros 
golpes na cabecja de nosso pai Hi- 
rão 5 isto he , que solapou o? funda'-^ 
mentos do Celeste Templo, que o 
Eterno linha levantado na terra a 
sublime Virtude. A primeira idade 
do Mundo foi testemunha disto que 
vos digo. A Lei mais simples da 
Karureza fazia de nossos pais , os 
homens mais ditosos. 

O monstro do orgulho eppare* 



(2l8) 

ceo na terra ^ levantou ía frente, a 
se fez ouvir a todos os homens feli- 
zes daqueile tempo ; prometteo-lhes 
a felicidade , dizendo-liies com pa- 
lavras assucarada? , que era preciso 
dar ao Eterno hum culto, mais visí- 
vel , e mais extenso , do que aquel- 
le que até alii se lhe fiiifaa dado no 
mundo. Esta Hydra de cem cabeças 
enganou , e ainda engana os homens , 
que vivem debaixo de seu império, 
e os enganará até ao momento, em 
que os escolhidos apparccerem para 
a combater , e destruir inteiramente. 
Lições lâo Ímpias não tem ne- 
cessidade de reflexão. Conhece-se 
com evidencia que se encaminhão a 
fazer dos Adeptos os mais declara- 
dos inimigos da Religião revelada. 
Em fim nas ultimas Lojas o gráo de 
Kadosch vinha ao mesmo tempo 
consummar no coraçío dos Adeptos 
o ódio dos Altares, e dosThronos. 
A este gráo tinha sido promovido 
o Adepto de que acima fallei, nem 
nae admiro do estado de abatimento 



( 219 ) 

d que elle estava reduzido ; era hum 
resultado das provas , por que tinha 
passado» Alguns Adeptos do mesmo 
gráo me disserão depois , que não 
havia recurso nos meios fysicos , que 
não havia fantasmas , nem terrores , 
de que não lançassem mão para ater- 
rar o animo, e provar a constância 
do Aspirante. Mr. Monjoie nos fal- 
ia de huma escada , por que fízerão 
subir o Duque de Orléans, obrigan- 
doo depois a precipitar-se do ulti- 
mo degráo. Esta foi a sua prova , 
elle a deo , mas tinhão-se tomado 
as precauções necessárias para o co- 
lherem sem damno. Imagine-se hum 
profundo subterrâneo , hum verda- 
deiro abysmo 5 donde se eleve huma 
torre até ao ultimo fastigio da Lo- 
ja. Ao fundo deste abysmo he con- 
duzido o Iniciado , por meio de sub- 
terrâneos , onde tudo o que se en- 
contra inspira horror , he fechado 
jio fundo , prezo , e muito bem amar- 
gado, He deixado nesta situação , c 
pouco a pouco se sente levantado 

a 



(220 ) 

por meio de rruíqninas , que fâzefo 
hum morim medonho , sobe lenta- 
mente suspenso desde o fundo des- 
tes poços .rejT^brò^os , e sobe rruiras 
vezes horas inteiras , recahe de re- 
pente , como. senado estivera suspenso 
em seus' laços. Em muitas occasiões 
he preciso sobir ,';e tornar a descer 
entre s s mcsrras ^ní^ustiás , e guar- 
dsr-se bem de exhalar hum só -ar* 
luím único gemido , que indique a 
menor perturbação, ou iïisto. E^ta 
descripção apenas dá a cpnhecer hu- 
ina parte das provas , de que nos faí^ 
Ião homens que as tem dado pro- 
te^tandoy que lhes he impoísivel fa^ 
zer de''toda-s huma exacta descri- 
peão , e fíel pinrura , pOrque perdem 
os seriticios a ponto de nío saberem 
onde existâo , que Jhes sao precisos 
alguns cord'aes , ou confortât ivos-, 
que aind^ que lhes ieisfi ruão as foi'^ 
cas 5 lhes mo deixao á faculdade 
d0"íêfleírtir. Isto basta , ; e a conse- 
il -jenciá dèsfas provas ^he fazer do 
^Iniciado ' \mm verdadeira assassino^ 



( 221 ) 

A ultima scena desta Tragedia atro- 
císsima , he por-lhe ante os olhos 
ter bonecos, que representao o Pa- 
pa Cleraen:e V. , o Rei Fiiippe for- 
moso, e o Grão Mestre de Malta, 
As cabeqas dos três bonecos estão 
cobertas com as insígnias da sua di- 
gnidade. He preciso que o desgra- 
çado fanático jure ódio, e morte a 
estas três cabeças proscriptas fallan- 
do com Oaseus sucessores. Mandão- 
IUq que corre, estas três cabeças, que 
são como no gráo de Escolhido , ou 
verdadeiras , se as pod^m encontrar , 
ou cheias de sangue , se a coisa não 
he mais que huma representação, 
clamando =: Vingança , Vingança, 
zn Depois desta prova atroz , o Ini- 
ciado pega nestas cabeças ensanguen- 
tadas , corre com ellas a Loja , em 
que estão reunidos os AdepDOs , ;apre» 
senta-as ao que faz de Presidente, 
gritando íz: Neksn,^ tM osmatpi.rts 
Depois^ disto- he; -admitt ido : ioiulti* 
mo juramenta Eu ouvi ar -Hum idos 
Adeptos ,. que Jio insí ante' tie dai 



f 



( 221 > 

este juramento estava diante deíie 
hiriTv Adepto com huma pistola na 
miáo , ameaçando-o com a morte, 
se o horror do seu crime o obrigas- 
se a suspeíider-se ; e perguntado es- 
te homem , se com effeito acreditas- 
se por verdadeiro o ameaço , respon- 
deo , ainda que o não acreditasse, 
ao menos não deixei de temer que 
se realizasse. Em fim o véo se ras- 
ga , e o Adepto conliece , que a 
verdade não lhe tinha srdo desco- 
berta senão em parte , qae esta Li- 
berdade , esta igualdade , de que se 
lhe tinha falia do na sua entrada na 
Maçonaria , consistia em não co- 
nhecer superior algum na terra , e a 
não devisar nos Reis, e nos Ponti- 
íices mais do que homens iguaes aos 
outros honíens , (\víq não tem outro 
direito no Throno , oo no Alrar j 
mais daqúeaqueile que o povo lhes 
tem querido dan, «que este mesmo 
poAíDi.iho pode tirar, quando muito 
beta quixer , que a ukimo dever ode 
hum Pedreira Livre 5-flue quer le* 



( 2^3 ) 

«antar Templos á Igualdade , e á 
Liberdade , he procurar Jibeitar a 
cerra deste duplicado fiagcllo , des- 
truindo todos os Altares , que a cre- 
dulidade , e a superstição levanta- 
rão , e todos os Thronos , onde se 
náo vêm sentados mais que Tyran- 
íios , que dominão sobre escravos. 

Desta arte se consummao todos 
os mysterios das ultimas Lojas de 
Pedreiros Livres. A sua marcha he 
lenta, e complicada, mas quão pro- 
fundamente estão de>combinados , e 
como cada gráo conduz directamen- 
te ao fim da Revolução ! Desde o 
primeiro grão de Aprendiz , vai o 
Adepto dando sucessivos juramentos , 
e cada vez mais atrozes. O ultimo 
gráo , hc o de Kadosch , e neste hc 
o Adepto constituído o assassino dai; 
Leis , e dos Pontífices para vingar a 
inorte do Grão Mestre Moliay da 
ordem dos Pedreiros Livres , succes- 
sores das Templários. A Religião 
que se deve destruir para achar a 
f ertendida palavra de verdade , he 



( 224 ) 

a Religião Christã , e todo o Culto 
fundado sobre a Revelação. Esta 
palavra em toda a sua extensão he 
a Igualdade, e a Liberdade, que se 
deve restabelecer pela exrincqao de 
todos os Monarchas , e abolição de 
todos os Cultos. iií 

Esta Liberdade , e Igualdade-^ 
desorganizadora , e destruidora de 
todas as a uthorida des , ha mais de 
meio Século , eí-a o objecto , e o 
emprego dos Pedreiros Livres mais 
adiantados na participação dos últi- 
mos mystcrios. E eis-aqui o motivo , 
por que esta Seita deve ser ccnside» 
rada como conspiradora. Esta era a 
doutrina maiscspcv:'iaimeiue propagar 
da nas Lojas , e foi cila a que dis* 
pôz primeiro em França , e depois 
cm quasi todo o resto da Europa 
Legiões de Adeptos que secundas- 
sem j e ajudassem a Revolução Fran** 
ceza. Houve mister muito tempo pa- 
ra que a Seita fizesse prevalecer seus 
princípios sobre todos os Irmãos; e 
teria achado bem poucos , se o Fi-: 



< 2^5- ) 

lesofismo do Século nao os dispozes- 
S€ para tudo o que seus antigos mvs- 
terJQS tinhão mais contrario ao res- 
peito da Religião , e dás Leis. A 
Conspiração dos Sofisras tinha inun» 
dado o Universo de producçoe san» 
ri-chrisiãs , e anti-realistas , e por 
isto foi fíicil aos Adeptos inspirar ací 
çommuin de seus discípulos todo o 
espirito de sja Igualdade , e de su i 
Liberdade desorganizadoras. Os mes- 
mos Soíist^s entrarão em grande nú- 
mero nas Lojas , c então se virão 
na mesma linha os Adeptos de HoIt 
bach , e os Adeptos da Igu.iid.Hde, 
Em huma , e OLitra conspiração ha- 
via o mesmo ódio contra Chriso , 
e contra os Soberanos. Só falrava 
âos Soíistas de Holbach braços , e 
ferros que lhes podião fornecer o re- 
gime da^ Lojas dv.s Pedreiros Li- 
vres. 

A' frente deste regime em jF ran- 
ça havia huma Junta geral denomi- 
iiada =; O- grande Oriente — de- 
faâiíio das apparentes ordens dç Grão 



( 226 ) 

Mestre , mas eíFectivamente governa- 
da pelos profundos Adeptos, e que 
servia de ponto central da conres- 
pondencia das Lojas. Esta fatal Jan- 
ta era ao mesmo tempo o Tribunal,^ 
e o Conselho supremo , cujas ordens 
jião podião ser violadas, sem que os 
transgressores incorressem na pena 
de perjuros. Junto a este Tribunal 
residião os Enviados , e Depurados 
das Lojas espalhadas por diversas 
Cidades , encarregados de lhes trans- 
mittir as ordens , e de as fazer exe- 
cutar. Cada Loja tinha seu Presiden- 
te com o titulo de Venerável ^ cuja 
obrigação era fazer executar as Leis 
do Grande Oriente , e dispor os 
Irmãos para a observância dessas mes- 
mas Leis. Todas as instrucçóes erão 
transmittidas em jiuma Jingoagem 
enignatica , ou por huma cifra es pe-^ 
ciai , e por caminhos occultos. Cada 
huma das Lojas mandava todos os 
seis mezes as suas contribuições pa» 
ra a manifestação desta Junta Cen- 
tra!. ■ As que não exisiião. debaixo da 



("7) 

inspecção do Grande Oriente , tinhao 
seu governo especial debaixo da ins- 
pecção de huma Loja Mãi , que ti- 
nha o seu Grão Mestre , e conser- 
vava suas conrespondencias. Todas 
estas partes da Constituição Maçó- 
nica erão conhecidas ; ou pouco mais , 
ou menos , sabidas por cada *hum 
dos Confrades. Mas os últimos se- 
gredos não erão communicados a 
todos , mas chegava o desgraçado 
tempo em que a respeito da Revo- 
lução Franceza tão zeloso se devia 
mostrar o Irmão mais noviço , co- 
mo o Adepto mais adiantado , mais 
consummado , e jubilado. Para isto 
foi preciso encher os primeiros lu- 
gares, ou as primeiras Lojas de to- 
da a espécie de estouvados, até de 
aldeões grosseiros , de OíHciaes sem 
princípios , que os ímpios seduzião 
continuamente , e de todos aquelles 
a quem apraziao as declamações , e 
as calúmnias dirigidas contra o Cle- 
ro , contra o Soberano , contra os 
ricos, e poderosos. 



( 228 ) 

Com este mesmo regime , nao 
era impossível organizar' em Erança 
Lojas -de salteadores .c distribuir- 
lhes os papeis de Soldados, e até de 
carrascos em a Revolução. Todas 
estas inacaquices diabólicas , todas 
estas ceremonias , ou ridiculas , ou 
abomináveis, sedirigiâo a franquear 
o caminho para a Revolução > c fa- 
zeíla approximar. Na iilston^^ secre- 
ta das Lojasv , he preciso ir buscar 
huma ddta 26 annos atrás para ver 
como -a Junta Central do Grande 
Oriente de Paris começava a sondar 
as disposições dos irmãos para se 
realizarem os seus mysierios. O pre* 
texto irri*orio de vingar os Templá- 
rios sérvio por algum tempo de en- 
cobrir seus ulteriores projectos. He 
preciso que se descubra esta infernal 
trama , e que se conheça a origem 
de tantos males que affligem a hu- 
manidade. ■ » »" 

Existem em Londres ( continua 
Barruel ) existem em Londres mui- 
tas pessoas de toda a condição > rai- 



C i^9 ) 

litares , magistrados , negociantes 
que íòvio n'ourro tempo admictidos 
aos i^egredos profundos dos Pedrei- 
ros Livres , e que agora procurao 
expiar com o arrependimento o? des- 
varios , a que os havia conduzido hu- 
rna similhanre associação ! Ha algu- 
mas personagens , a quem a Revolu- 
ção Franceza abrio os ollios , e ou- 
tras que não esperarão que elia rom- 
pesse para detestar os congressos 
Maçónicos que a prepararão; econ- 
fessão que hum dos extravagantes 
projectos dos Pedreiras Livres era 
a conquista da Ilha de Malta para 
nella estabelecerem o berço da Re- 
ligião natural para esta , e outras 
similhantes quimeras enviavão Mis- 
sionários a roda a parte , que devião 
affervorar todas as Lojas, e todos os 
Pedreiros para a fatal obra promo- 
vida com tanto calor havia 26 an- 
nos. Este negocio era tratado já com 
tão pouco rebuço , que a Corte de 
Luiz XVL o não pedia ignorar, En- 
ITÇ tantos 5 tão numerosos , e tão 



( 230 ) 

varjos Adeptos deviâo encontrar-sc 
muitos , que considerassem a Revo- 
lução como o mais terrível de todos 
os flagelios i com efFeito existem mui- 
tos , que assim o pensarão , e entre 
elles hum Grande , cujas actuaes des- 
graças meobrigão a não declarar seu 
nome. Sua honra, e probidade, ti- 
rão .toda a «uspeira de mentira , ou 
engano ao que elle annuncifl. 

Interrogando , se entre os Pedrei" 
ros Livres vira alguma coisa que se 
encaminhasse á Revolução France- 
za , eis-aqui o que elle respondeo 
= Eu fui Orador de muitas Lojas , 
e tinha chegado a hum grão muito 
eminente , e até aqui não descobri 
coisa alguma na Maçonaria , que po- 
desse ser prejudicial ao Estado. Ha- 
via muito tempo que eu não appa- 
recia nas Lojas , quando em 1786 
me encontrou em Paris hum dc« 
meus Confrades. Estranhou-me o ha- 
ver' deixado a Seita , e me pedio en- 
carecidamente que tornasse para à 
sociedade , q que assistisse a liuina 



(231) 

Sessão, que devia sernuito irnpor- 
lante. Com effeito aprcsentei-me no 
dia aprazado , fui muito bem aco- 
liiido 5 e festejado :-: jj Ouvi coisas 
que eu vos não posso dizer , porém 
coisas , que me escandalizarão , e as- 
sombrarão de tal maneira que fui 
immediatamente procurar o Minis- 
tro de Estado, e lhe disser Senhor 
tenho huma pergunta que vos fa* 
2er, conheço toda a importância, e 
iodas as consequências que eila pô- 
de ter, mas ainda que eu soubesse 
que me prenderiáo na Bastilha , de- 
vo perguntar-vos , porque nisto vai 
a segurança da Pessoa do Rei , e in- 
teressa a tranquillidade , e a conser- 
vação do Es-ado. Dizei-me se co- 
nheceis os. Pedreiros Livres , e se 
attendeis para o que se passa , e tra- 
ta em suas Lojas ? O Ministro deo 
hum salto, e me respondco :=: Es- 
tai tranquille , porque nem vós se- 
reis conduzido á Bastilha , nem os 
Pedreiros Livres perturbarão o Es- 
tado, isi: 



';C O Ministro que deo esta respos- 
ta , não era iiomeni de quem se sus- 
peitasse a menor adherencia aps Pe« 
dreiros Livres , era sem dúvida in- 
capaz de favorecer seus projectos, e 
de concorrer para seus alternados , 
porém elle pensava como o Conde 
de Verge nne , que com Jium Exer- 
cito de duzentos mil homens não se 
podião temer os Pedreiros Livres, 
nem as suas intentadas revoluções. 
( Qiianro hum , e outro se engana- 
rão ! ) Ignorava a multidão de Le- 
giões , que os conspiradores pode- 
rião oppôr aos Exércitos do Sobe- 
rano. Ignorava sobre tudo, que qua- 
lidade de homens dirigi ao todas as 
Lojas conspiradorns. A do Grande 
Oriente , e a do Contrato Social já 
se haviáo reunido. Seu conselho já 
se compunha de todos aquelles Ade- 
ptos , que a Revolução Franceza mos- 
trou: mais inimigos da Religião , e 
da Monarquia. Neste eonscJho secret- 
to tinhão já entrado Condacet, Mi- 
rabeau, Brissot, Syeys, elmmaca- 



( 235 ) 

ferva de todas ^quelles , que dentro 
fm pouco tempo se rornarião osHe« 
roe5 do Jacobinismo. A'' sua frencc 
fiunao ^quelle Filippe de'OrIcans , 
Principe ainda mais perverso , c máo , 
que ajubicioso, que tnha ccmisigo , 
€ no se u coração lançado os alicer- 
ces a curra-consplrsçao, Í? projecros 
particulares ,. qu- cioso do. Kei , e 
detestando a Rainha dnba pi'iitesta^ 
do, e jurado 'âsiia ru-na. Embora 
cavoiîsq elle x>Tnesfno preclnieio em 
que se lançou depois , embora pre- 
parasse elle mesiTX) os algozes, eue 
íhe deviâo^XTortar a cabeça , njda 
lhe ifnporrWíí com ranro , que sâris- 
•fizeise a' '■ sua- atrocíssima v.ngança. 
l^odos- os protestos , todos os jurai 
i!nen!0& para a ^ Revolução exístiao 
kivia muiíO ,iémpo no coração des 
Coniurí>dos , e já se apprcximava ^ 
c avizinhava o momento em que hu- 
ma Seita mais rcnebro<a ainda 5 mais 
formidável , mais fecunda em artifí- 
cios que as ultimas Lopas do^ Pedrei- 
ros Livr^5 se iï»via ajuntado n seus. 



( 234 ) 

conselhos secretos para lhe commu* 
nicar , e prestar iodos os seus auxí- 
lios , e recursos. Esta Seita era a 
dos Illuminados de Baviera. Não 
bastava a esta nova espécie de ím- 
pios ter jurado a destruição de todo 
o Christianisnio , e de toda a Mo- 
narquia ; seu ódio SC estendia a tu- 
do o que era Deos , a tudo o que 
era Culto , a tudo o que era Go- 
verno , e a toda a espécie de Socie* 
dade Civíí , de pacto social, e até 
de propriedade^ 

Que esta Seita existisse, que se 
engrossasse , e fizesse formidável , e 
poderosa , que ainda exista em nos- 
sos dias , e que ella seja o peor de 
todos os flagellos revolucionários , he 
hum facto da ultima evidencia , e 
algum dia daremos as provas incou- 
testaveis dest^ mesma evidencia. 

Conclusão, 

Eis-aqui quanto basta para dar 
aos Portuguezes honrados , e ho- 



( ^35 ) 

mens de bem , huma justa idéa dd 
caracter, dos costumes, e dos pro- 
cedimentos da vilis?ima canalha dos 
Pedreiros Livres. Elles são detestá- 
veis pelos males , de que fôrao cau- 
sa ; porque sem elles não existiria a 
Revolução Franceza , não se reriao 
derramado rios de sangue inutilmen- 
te , não se terião inquietado , inva- 
dido 5 e roubado tantos Reinos , e 
tantas Nações. Sem elles o Império 
de Alemanha ainda se conservaria 
em toda a sua integridade. Luiz XVL 
ainda existiria no Throno. Carlos 
IV. , e Fernando Vil. governârião 
tranquillos a Hespanha , PortugaÍ 
não seria tão aleivosamente saquea- 
do , e pizndo pelas cá nias dos sal- 
teadores , que aqui tem apparecido, 
c dcsapparecido. O Soberano Ponii- 
íice existiria no Foco da Religião , 
Roma não seria profanada, e o Ve- 
nerável Pio VIL não teria sido des- 
^Katado cm sua Santíssima Pe<soa- 
Fernando IV. occuparia tranquille o 
Throno de Nápoles , a Itália não 
R 



( n6 ) 

teria sîJo reralhada, e inteiramente 
de vasrada. O Piemonte teria f um So- 
bcírano dentro em si. A Holianda 
seria huma Potencia independente , 
livre , e a mais tranquilla , e opu- 
lenta do Globo , e o Grande , o 
Magnan mo . o Sublime Gustavo lY. 
empunharia gloriosamente o Sceptro, 
de que he despojado : em fim a Eu- 
ropa seria feliz ^ e se conservaria na- 
quelie equilibrio politico que forma- 
va a ventara , a tranquillidade , e. 
a abundância de tantos Povos. Sem^ 
estes abomináveis Pedreiros Livres 
não estaria a Terra tão povoada de 
dsgraças, e crimes, quaes nunca se 
commetrêrão desde que ha homens. 
Tantos males reaes senão incognitos , 
se esta raça de Víboras não houves- 
se existido. Elia faz <^uc se percão 
tantas batalhas , em que vai a gloria , 
e' a liberdade das Naçócs ; que haja 
tantos traidores, inimigos da Pat. ia 
em que nascerão; que se facão tan- 
tas capljulaqòes , em que os impíós 
Vândalos ganhão, eeontinuãoa es»- 
x:arn'jcer dus homens. 



Ç 137 ) 

N'dO só he detestável, e maîdU 
ta e«5ta Seita , mas acá he ridícula. 
Onde jaz a sua decan'adi Igualda- 
de, e Liberdade? Mcntecaofos , pa- 
ra que se marárao ! As suas Lojas 
parirão Bonaparte para Jhes di.er 
nas suas desavergonhadas caras z=z O 
meu Império^ o meu Throno , . os 
meus V:issal:<)S =: e para lhe criar 
huma enfiada infinita de Duques , 
Condes, Barões, que erão o abje- 
cto de seu ódio , e em cuja ruina 
conjurarão tan:os annos. Pa^'ece que 
pozeráo todos os seus c^forjos em 
proáuiiT o contrario do que el^es 
queriao , esperando a todoi os ins- 
tantes que o ClementissiiTío Iinpera- 
dor lh:s mande fechar as Lojas , e 
enviar os que ainda restão para a 
forca , bem c>')mo Robespierre fer 
passear até a Guilhotina os seus mais 
auihorizados Patriarcas. Insensa'os ! 
A si mesmo se fizeião desgraqidos^. 
e envol verão em sua de-^graça o Mun- 
do inteiro, chamando para tyranni- 
zar a França , ç in^uiet^r o Globo 



( 238 î 

huma familia estranha , abjecta , es- 
cura , e ÍF>saciavel de ruinas , c cie 
sangue. O Ceo coníunda esta estú- 
pida canalha, e Portugal os conhe- 
ça , os extermine ^ os acabe dentro 
em si, será perpétua, será glorio- 
sa a sua Conservação , o seu Thro- 
^^ AO, e à sua Santíssima Religião* 



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